José Vieira: “Mandamos R$ 48 milhões para outros Estados”

Publicação: 2019-04-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Retomar a cadeia produtiva da pecuária de corte no Estado é uma das metas principais da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern) para este ano. Importando 70% do total da proteína animal consumida ao longo do ano, o Rio Grande do Norte  perdeu, em 2017, cerca de R$ 48 milhões em ICMS pagos às unidades federativas exportadoras. A comercialização do produto com outros Estados movimentou R$ 690 milhões com 320 mil carcaças no ano em referência. No Rio Grande do Norte, foram R$ 225 milhões com 100 mil carcaças, cuja produção é basicamente informal. 

José Vieira, Presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern)
José Vieira, Presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern)

Reverter esse quadro, de acordo com o presidente da Faern, José Vieira, é possível. Há uma mercado consumidor com possibilidade de crescimento no Estado, assim como a possibilidade de produção de itens com valores agregados, como a carne de sol do Seridó. Para isso, porém, José Vieira aponta que a cadeia da carne no RN precisa de ações para que se torne sólida. A regulamentação jurídica e a construção de frigoríficos profissionais é imprescindível para garantir a segurança na produção.

Na entrevista a seguir, José Vieira aponta saídas e gargalos do setor e destaca a importância da retomada dos investimentos no setor para a criação de emprego e renda no Rio Grande do Norte. 

Ao longo dos sete anos de seca enfrentados pelo Rio Grande do Norte, o que mais foi devastado na agropecuária local?
Todos os segmentos foram afetados. O nosso rebanho teve uma redução em torno de 30% de um modo geral. Nossa produção de leite também foi reduzida em função da seca, em função da falta de pagamento do Programa do Leite em dia, dificuldade de acesso aos insumos como volumoso, capim, palma e ração. O custo de produção aumentou, além da insegurança no campo. Tudo isso foi um conjunto de fatores que prejudicou a nossa produção agropecuária no Estado. Nós fomos um Estado exportador de mel e hoje não somos mais, nós tínhamos um rebanho bem maior de ovinos e caprinos e houve uma baixa. A produção de cana-de-açúcar foi reduzida, a produção da agricultura de sequeiro que é aquela que depende da chuva, praticamente não tivemos durante o período de seca. Mas, o grande empregador rural é a pecuária. E essa foi afetada fortemente. Tudo isso dificultou o nosso segmento.

E agora, qual a realidade? As chuvas de 2018 e deste ano melhoraram o clima entre os produtores, reacendeu a esperança?
Estamos num momento de retomada. Primeiro, precisamos de ter um frigorífico que possa abater o nosso rebanho. Hoje, a maior parte do rebanho do Rio Grande do Norte é abatida de forma informal e irregular. Nós precisamos fechar a cadeia produtiva. A fruticultura tem uma cadeia fechada: há a produção, há o beneficiamento e há a exportação ou venda no comércio. Na avicultura, há a produção de aves, há o abatedor e há a comercialização. E a carne também tem que ser dessa forma. Nós precisamos produzir o boi, ter onde abater e ter para quem vender. Ter para quem vender, nós temos. E produzir, nós sabemos. 

Mas onde esse rebanho será abatido?
 Existem alguns frigoríficos abatedores no Estado que estão sendo construídos. Recentemente, foi concluído o de Ceará-Mirim. E foi feita uma Parceira Público Privada lá para que possa abater o rebanho produzido aqui. Mas a nossa carne ficou com pouca competitividade porque nós temos algumas empresas aqui no Estado que possuem incentivo fiscal e que compra o gado abatido fora do Rio Grande do Norte e o transporta todo cortado e congelado. Quando chega aqui, só faz fatiar, embalar e vender. 

Isso não prejudica o mercado produtor local?
Isso prejudica fortemente  os nossos pecuaristas. Nós queremos que o Governo do Estado faça uma regulação dessa cadeia produtiva para que os nossos pecuaristas não sofram e não deixem a atividade rural. 

A partir de qual momento o senhor percebeu que era possível ampliar a produção e comercialização de carne no Estado?
Isso já há algum tempo. Nós tínhamos um grande frigorífico em Natal, o Potengy, e ele fechou. A partir do momento do fechamento do Frigorífico Potengy, foi a gota d'água, foi o pior momento porque os pecuaristas não tinham mais opção de onde abater o seu rebanho de uma forma contínua, para comercialização, de uma maneira constante durante o período da nossa safra de carne. Com o fechamento do Potengy, os pecuaristas ficaram a mercê dos marchantes. Em contrapartida, as empresas aumentaram a compra de carne de outros Estados, as importações aumentaram. 

Com isso, o Rio Grande do Norte tem perdido dinheiro?
Sim. O que nos preocupa é o pequeno agricultor, aquele que está no interior. A economia dos municípios pequenos, a atividade econômica principal é a pecuária. Nós precisamos fazer circular o dinheiro. Qual é a forma disso acontecer? É fazer com que o frigorífico e as empresas que compram carne, que importam carne de outros Estados, passem a comprar um percentual da carne que será produzida no Rio Grande do Norte. 

Como será possível produzir carne de qualidade no Estado com a instabilidade climática, que afeta o rebanho?
Nós temos alguns fatores que são fundamentais. Primeiro, a reserva de alimento. Amplia-se a produção de alimento quando chove e se faz uma reserva para o momento de escassez. A produção de silagem, a produção de palma, são alimentos que garantem a produção no Estado. Nós temos uma grande produção de carne aqui na região do Agreste e no litoral que são áreas que sofrem menos com a seca. Além disso, nós temos água no subsolo para fazer irrigação. O produto nós conhecemos e conseguimos produzir. Agora, para isso, ele precisa de ter para quem vender. E essa tem sido a nossa grande dificuldade. Produzir carne, ampliar rebanho e ter para quem vendê-lo. Uma coisa é vender 10 animais para um marchante. Outra coisa, é vender mil. Marchante nenhum compra essa quantidade. Então, nós precisamos ter essa segurança. 

Por quais motivos não há essa comercialização?
Porque nós não temos um frigorífico e, em contrapartida, a inviabilidade das empresas em função da compra de carne de outros Estados.

Quanto o Rio Grande do Norte perde com isso?
Nós calculamos que, em 2017, em torno de R$ 690 milhões foram pagos em aquisição de carne de outros Estados brasileiros. Foram compradas em torno de 64 mil toneladas do produto. Nós mandamos R$ 48 milhões para outros Estados em pagamento de ICMS pela carne. Isso poderia estar no Rio Grande do Norte. O principal problema é que o Governo do Estado do Rio Grande do Norte regulamente a atividade. O produtor pecuarista não está pedindo esmola ou favor. Nós queremos condições de produzir carne e carne fresca e de qualidade para o consumidor. 

Do que depende essa regulamentação?
Um dos fatores, que causa um pouco maior de impacto, é fazer uma análise dos incentivos do Proadi para essas empresas que não são abatedouros e simplesmente comerciantes de carne. De imediato, nós precisamos fazer isso. Em contrapartida, como nós estamos vindo de um momento de seca, a hora é de retomada, de estimular a cadeia produtiva. De que forma? A Emater dando assistência técnica, os bancos facilitando o acesso ao crédito, o governo federal ter uma política agrícola específica para o semiárido nordestino. Porque a política agrícola no Brasil corta o país de Norte a Sul, ela é igual para todos os Estados. Nós precisamos de ter uma política específica. São vários atores para que a gente possa fortalecer essa cadeia. Mas a gente precisa fazer o dever de casa aqui no Estado. Precisamos reavaliar os incentivos fiscais do Proadi para essas empresas. É acabar? Não. Mas fazer com que elas tenham o compromisso de comprar parte do rebanho. Nós temos a consciência de que não somos autossuficientes na produção de carne. Então, um percentual de forma gradativa seria uma ação efetiva. Sem isso, a atividade de pecuária de corte no Rio Grande do Norte não vai conseguir sobreviver e vai, cada vez mais, ficar enfraquecida.

E em relação à infraestrutura?
Só existe o frigorífico de Ceará-Mirim, que foi entregue à iniciativa privada, que está fazendo as adequações para começar a abater. Agora, e quem tem rebanho em Caicó? Nós precisaremos ter um frigorífico lá, outros em Mossoró, um em Pau dos Ferros, para justamente cobrirmos todo o Estado. Essa é uma semente que está sendo plantada e nós precisamos mostrar ao Governo do Estado que é possível gerar emprego na área rural e no interior. Mas, para isso, o Estado precisa fazer a sua parte com a construção desses frigoríficos. Além disso, fazer Parcerias Público Privadas, pois os municípios não têm capacidade de mantê-los. E trabalhar também contra o abate clandestino, que é questão de saúde pública. Quando  a gente imagina que existem animais sendo abatidos debaixo de uma árvore, isso é questão de saúde pública e não pode continuar. O rebanho precisa ser abatido em locais que garantam a segurança sanitária. 











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