Jovem militante conquista vaga na Câmara Municipal

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
Em 2016, quando o então presidente Michel Temer (MDB) propôs uma reforma do Ensino Médio e congelou investimentos em educação no país, milhares de jovens secundaristas ocuparam as escolas em defesa da educação. O movimento ficou conhecido como “Primavera secundarista” e, a partir dele, o Brasil foi capaz de testemunhar que, ao contrário do que muitas vezes dita o senso comum, a juventude não está afastada da política. Foi nas salas de aula do movimento estudantil e nas ocupações da primavera secundarista que Brisa Bracchi começou a adentrar no mundo da política. Quatro anos depois, as salas de aula serão trocadas pelos corredores da Câmara Municipal: aos 22 anos, a natalense foi eleita a vereadora mais jovem da cidade. 

Créditos: Alex RégisBrisa afirma que vai definir prioridades em plenárias e encontrosBrisa afirma que vai definir prioridades em plenárias e encontros


Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Brisa conta que foi forjada no movimento estudantil, quando cursava o Ensino Médio no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). "Fui estudante de Controle Ambiental no IFRN Natal Central e, quando entrei, o grêmio estava vivendo um período de reativação", disse. 

A partir do processo de reativação do Grêmio Estudantil Djalma Maranhão, no Instituto, ela conheceu o movimento Kizomba, um coletivo nacional de juventude que atua dentro do movimento estudantil. Daí em diante, não parou de se envolver com os movimentos sociais. 

"Nesse momento, eu já me denominava como feminista, mas a partir daí comecei também a construir o movimento feminista na cidade, me organizando na Marcha Mundial de Mulheres, que é um movimento feminista internacional que também atua em nosso Estado. Alguns meses depois, passo a construir também o Enegrecer, coletivo nacional de juventude negra. Foram esses três lugares do movimento estudantil que me lançaram na política", completou. 

“Essa foi uma das tarefas mais marcantes e que mais me fizeram crescer enquanto sujeito político. Eu pude acompanhar um momento muito forte e marcante dessa juventude, que foi a primavera secundarista, quando ocupamos centenas de escolas no Brasil e também em nosso Estado”, destacou. 

Terminada a gestão na UBES, ingressou na graduação de Licenciatura em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde continuou a assumir cargos e tarefas dentro do movimento: integrou o Centro Acadêmico do curso e, em seguida, presidiu o Diretório Central de Estudantes (DCE) da Universidade. 

Ela conta que ao assumir a gestão do DCE, em 2018, o cenário político no país era tenso e marcado pela disputa eleitoral que levou à vitória do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). "Assumi a gestão também em um momento muito forte da política brasileira, que é o das eleições em que Bolsonaro era candidato. Minha tarefa era muito central: organizar a resistência da juventude antifascista do Estado para derrotar Bolsonaro. Infelizmente, fomos derrotados, e passamos a ter outro grande desafio, que era organizar a nossa resistência na Universidade", afirmou.

Apesar do currículo extenso, ela conta que não foram poucos os momentos de descredibilização de sua candidatura em função de sua idade. “Sem dúvidas foram muitos os momentos em que fomos descredibilizados ou deslegitimiados por sermos uma candidatura que tinha como porta-voz uma mulher tão jovem”, relatou Brisa, que afirma já estar preparada para provar que é qualificada para ocupar o espaço para o qual foi eleita. 

“É muito nítido para nós que teremos sempre que mostrar que somos muito qualificados. Vamos precisar responder duas vezes melhor para que nos levem a sério. Chegamos à Câmara Municipal com esse compromisso e desafio: terão de nos respeitar, mesmo sendo uma candidatura tão jovem, porque isso é representar os 2.901 votos que tivemos”. 

Brisa, inclusive, afirma que pretende mudar a forma como se faz política no município: “Durante a construção das nosas propostas, afirmamos muito que elas seriam fruto de uma prática que queremos  que seja cotidiana na política natalense: a da construção coletiva com a participação de quem vive a cidade. Por isso queremos ser um mandato radicalmente democrático para dentro e para fora”, disse. 

Ela diz que será a partir das plenárias, encontros e ferramentas de participação que o mandato vai definir os projetos prioritários para a apresentar à Câmara. Apesar disso, destaca que alguns debates devem tomar atenção logo no primeiro semestre: o processo de revisão do Plano Diretor de Natal e a pandemia. "Tem alguns debates que já podemos imaginar que serão pautas colocadas no primeiro semestre de 2021, entre eles, a questão da pandemia, que deve permanecer sendo uma preocupação central nos primeiros meses. Queremos fazer do nosso mandato uma tribuna à disposição da ciência e da medicina séria, combatendo qualquer tipo de medida populista, com falsas curas e medidas sem comprovações científicas", declarou a vereadora eleita.