#JovemPontoCom: Ore, a poesia que dá voz e expressão à vida

Publicação: 2019-12-07 00:00:00
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Matteus Fernandes
Repórter

Geralmente atrelada à alta cultura, a poesia é um gênero textual que poucos têm o domínio para escrever. A jovem Natália Kelly, de 18 anos, não apenas escreve e recita, como performa os seus textos. Essas são características do subgênero poético Slam, que por meio de gestos, de expressões faciais e da entonação da voz, transmite-se a mensagem das vivências cotidianas. Relatando aquilo que vê de revoltante na sua comunidade e no Brasil, a poetisa rebelde foi campeã de uma competição estadual, que lhe rendeu vaga para tentar ser a melhor slammer do país.

Créditos: Adriano AbreuA jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico.A jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico.
Natália Kelly escolheu a sigla Ore como nome artístico

Desde muito cedo, depois dos cinco anos, quando aprendeu a ler, Natália costumava folhear livros de poesias e gibis. O estímulo que faltava para ela começar a desenvolver o seu talento veio em 2012, quando na quinta série do ensino fundamental, a menina ganhou o prêmio de melhor poesia da escola, de um texto que fez sobre o pôr do sol de Ponta Negra.

A partir daquela conquista, Natália encontrou na poesia o seu lugar. Empolgada, no começo, ela chegava a escrever cinco poemas por dia. Hoje, ela brinca e se diz mais seletiva: “Eu não escrevo tanto assim, agora eu sou mais perfeccionista”, lembra ela, que demorou dois meses para escrever os versos que foram interpretados para vencer a competição estadual de Slam deste ano.

Antes de conhecer o Slam,  um gênero originário dos Estados Unidos, a temática dos textos de Natália eram sobre amor e metáforas. Isso mudou quando ela conheceu o rap, por meio dos artistas Projota, Emicida, Rashid e Filipe Ret. A jovem tem um grupo musical com mais dois amigos, chamado 3.Norte.

Créditos: Adriano AbreuA jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico.A jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico.
Os versos de Ore retratam o que ela viu e vê em Mãe Luiza, bairro de Natal onde vive

Com o tempo, os versos de Natália passaram a retratar o que ela via em Mãe Luiza, bairro de Natal onde vive: a dificuldade na vida dos moradores, a repressão policial, o preconceito e o racismo. Segundo ela, é fácil de se inspirar ao evidenciar essas temáticas, levando em consideração a rotina que experiencia.

“Fica mais fácil performar quando você lembra de tudo que vive, sentindo toda raiva, toda angústia”, detalha ela.

Como o Slam, em linhas gerais, é a poesia falada e performada, a artista incorporou às suas apresentações recursos do gênero musical. A jovem recita as poesias como se fossem músicas, o que, como ela explica, é um diferencial.

Apaixonada pelo que faz, ela não consegue se enxergar no futuro distante da poesia. Para Natália, os versos são tão indispensáveis quanto o ar que respira. “Antes de escrever, eu já sonhava em estar em cima de um palco com todo mundo cantando as minhas músicas. Eu não sei de onde surgiu, mas eu sonhava. Eu já pensei em desistir, mas eu não consigo. Como eu falei para um amigo, se a poesia acabar para mim é como se acabasse a minha vida”, disse ela.

Nome artístico “Ore”
A aproximadamente quatro anos o nome Natália ganhou uma companhia para a identificação da poetisa. A jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico. As três letras significam Orgulho, Raiva e Ego, o que para ela são seus principais defeitos. Colocá-los na identidade de artista é fazer com que ela sempre se lembre de superá-los.

“Eu estava pensando no meu nome na cozinha, aí fiz a combinação e deu Reo, aí eu disse ‘não, Natália’. Depois eu combinei de novo e deu Ore, aí eu falei ‘ah é esse mesmo’ e deu certo”, explica a artista.

Campeã estadual, classificada para o nacional
Depois de ganhar uma etapa a nível municipal, Ore fez as malas e foi em direção a Mossoró. Na capital do Oeste, os outros onze concorrentes não foram capazes de desbancar o talento da poetisa de Mãe Luiza, no campeonato estadual de Slam.

“Só a experiência de sair de Natal foi maravilhosa. Eu nunca tinha saído daqui e eu gosto muito de viajar. E se apresentar num teatro gigante daquele, que eu só via em filme. Foi maravilhoso”, contou ela.

Créditos: Adriano AbreuA jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico.A jovem escolheu a sigla Ore como nome artístico.

“Fica mais fácil performar quando você lembra de tudo que vive, sentindo toda raiva, toda angústia”, detalha ela.

Na próxima quarta-feira (11), a jovem que até pouco tempo atrás não havia saído de Natal, viaja em direção a São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil, para concorrer ao título de melhor slammer do país contra representantes de todos os estados brasileiros.

Quem é?
Nome: Natália Kelly Lima da Silva "Ore"
Natural: Natal/RN
Data de nascimento: 27/12/2000
Idade: 18 anos
O que faz: Poetisa e integrante de um grupo de rap
Hobbies: Música, leitura e escrita

Eu estava pensando no meu nome na cozinha, aí fiz a combinação e deu Reo, aí eu disse ‘não, Natália’. Depois eu combinei de novo e deu Ore, aí eu falei ‘ah é esse mesmo’ e deu certo”, explica a artista.