Jovempontocom: Os versos de Cordel de Stephany

Publicação: 2020-02-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Milka Moura
Repórter

Alguns anos atrás na cidade de Florânia, município do Rio Grande do Norte, uma criança acompanhava com os ‘ouvidos atentos’ seu avô e seu pai, que por sua vez, acompanhavam com os ‘ouvidos atentos’ cordéis transmitidos pelo rádio.

Créditos: Adriano AbreuStephany Cristina se apresenta como cordelista há três anos. A jovem natural de Florânia, se apaixonou pela literatura ainda criançaStephany Cristina se apresenta como cordelista há três anos. A jovem natural de Florânia, se apaixonou pela literatura ainda criança


A entonação, o entusiasmo e as rimas foi o que chamou a atenção da estudante Stephany Cristina, hoje com 18 anos de idade, e cordelista há três anos.

Mesmo crescendo com toda essa sorte, a jovem apenas se descobriu cordelista no ensino médio, ao participar de oficinas na escola estadual onde estudou. Dois professores desenvolveram uma oficina de cordel, e foi lá onde Stephany aprendeu e colocou em prática toda a sua admiração pela literatura.

Stephany transforma tudo em poesia, até mesmo contar seu processo de aprendizagem. A estudante relata que sentiu tudo fluir muito naturalmente quando estava aprendendo a rimar, “Eu acho que o cordel ele já estava dentro de mim desde sempre, ele estava só esperando eu colocar pra fora, por isso que foi tão natural.”

E ao fim da oficina nasceu o seu xodó, ‘Marginal Alado’ o seu primeiro cordel, que foi em homenagem ao ex-vocalista da banda Charlie Brown Jr. falecido em 2013. O encanto pela poesia se tornou ainda maior no momento em que ela declamou seus primeiros versos autorais:

Dedico esse cordel

De todo o meu coração

Para o poeta das ruas

Que marcou uma geração

O líder do Charlie Brown

Nosso eterno Chorão



Foi no dia 09 de abril

Que Alexandre nasceu

Lá na cidade de São Paulo

Onde o menino cresceu

Mas foi na terra de Santos

Onde tudo aconteceu


Sua carreira começou

Nas noitadas em um bar

Quando um vocalista faltou

Ele ocupou seu lugar

E a partir daquele momento

Sua vida começou a mudar.....


Ao fim da recitação, veio a surpresa: “as pessoas adoraram, e a maioria não sabia quem era o Chorão, mas mesmo assim adoraram. Me parabenizaram e queriam comprar o cordel. Então a partir daí eu comecei a refletir sobre o poder da poesia. Eu ‘tava’ declamando sobre uma pessoa que a maioria do público não sabia quem era, mas mesmo assim o meu amor pela banda tocou de alguma forma eles também” relembra. 

O impacto da oficina de cordel no município levou os jovens a mandar suas obras para fora da escola. Mas em 2019 Stephany precisou deixar em Florânia as rodas de declamações nas ruas da cidade onde cresceu, e se mudou para Natal para cursar Jornalismo. Na mala da mudança, alguns versos brigando por espaço com a saudade das suas raízes.

“Eu sinto muita falta, mas no geral eu vim pra cá muito realizada, porque eu tinha conseguido entrar no curso que eu sempre quis” conta, “com um pouco de saudade de casa... na verdade trazendo na mala só saudade” brinca.

A realidade natalense da literatura de cordel para Stephany ainda é um tanto desconhecida, “lá em Florânia eu estava sempre declamando, sempre em algum evento levando o cordel. E quando eu vim pra cá eu senti bastante falta. Mas no geral, a saudade mesmo é de poder declamar na minha cidade, com outros cordelistas”, diz. Mas da nostalgia ainda nasce arte. O último cordel escrito por Stephany foi para um evento da UFRN – onde estuda – sobre mulheres negras. O ‘Heroínas, mulheres, negras’ relembra a história de muitas mulheres que foram importantes para a nossa história, passeando por Marielle Franco até a poetisa Zila Mamede:

A voz de toda

mulher preta


Que da história foi apagada

Ecoa potente em meus versos

Grita forte, quer ser lembrada

Por isso uso o exemplo franco

De Marielles, Marias e alcanço

Inspiração para essa caminhada


Declamo hoje não por mim

Mas por Dandara dos Palmares

Que enfrentou o sistema escravista

Lutou pelo fim das barbáries

Resistiu até o último momento

E para não ceder ao tormento

Entregou-se ao abismo dos mares


Não é de hoje que preta com voz

Embrulha o estômago do Estado

E foi por ele que Teresa de Benguela

Teve seu ativismo silenciado

Mas para cada Benguela que cair

Mais Esperanças irão ressurgir

Para continuar com o seu legado


Através da minha literatura

Quero manter viva a memória

De poetisas como Zila Mamede

Que não se encontra nos livros de história

Mas está presente em minha poesia

E inspira minha trajetória


Faço dos versos um ato de luta

Uma luta diária por meus ancestrais

Por Auta de Souza, Maria Firmina

Mulheres de força, seres culturais


Enquanto meus dedos poderem escrever

Enquanto minha cabeça conseguir rimar

Trarei nos meus versos histórias de luta

E mulheres que o tempo não pode apagar


A meta para esse ano é ampliar esses versos incluindo mais histórias incríveis, para que ele possa ser publicado por uma editora de cordéis em Mossoró.

“Eu acho que o cordel ele já estava dentro de mim desde sempre, ele estava só esperando eu colocar pra fora, por isso que foi tão natural”



Nome: Stephany Cristina Ferreira de Souza

O que faz: Cordelista e estudante de Jornalismo

Idade: 18

Data de nascimento: 11/12/2001

Hobbies: Ler

Inspirações: O cordelista mossoroense Antônio Francisco



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