Juca Kfouri: “É bem provável que Natal não consiga”

Publicação: 2011-04-03 00:00:00
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Itamar Ciríaco - editor de Esportes

Um dos jornalistas esportivos mais polêmicos do Brasil, Juca Kfouri estará em Natal, na próxima terça-feira, para ministrar uma palestra com o tema: “Jornalismo, Esporte e Democracia”. O debate se dará em torno do questionamento: O Jornalismo esportivo pode ir além da cobertura rasa, voltada apenas para o entretenimento? Para Juca, que é blogueiro, colunista da Folha de São Paulo e comentarista da ESPN, não só pode, como deve. O evento será promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), através do Departamento de Comunicação Social (Decom), e será realizado no auditório Otton de Brito Guerra, na Reitoria, às 19h.

a seleção brasileira virou um parque de diversões para empresárioAntes de vir a Natal, o jornalista conversou, por telefone, com a Tribuna do Norte e criticou abertamente a organização da Copa de 2014, enfatizando que acredita no risco real de Natal não conseguir concluir suas obras em tempo para sediar jogos da competição.

Atrasos nas obras para a Copa de 2014 são manchetes quase diárias. Essa cobertura jornalística investigativa, a participação do Ministério Público, os questionamentos realizados causam empecilhos para as obras por exigirem transparência. Isso é um ponto positivo nesses atrasos? Numa ditadura, por exemplo, estas obras já estariam sendo tocadas.

Vamos por parte. Evidente, que num regime autoritário, as coisas são feitas e ponto, como se fez em Pequim nas Olimpíadas. E, nesse caso, não importa o quanto se gastou, porque não se discute, vai lá faz, se afasta as pessoas, e bota barreiras. Nós temos, eu não sei em Natal até que ponto, mas em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, temos exemplos de uma arquitetura autoritária, temos os minhocões espalhados pela cidade, destruindo zonas residenciais ou comerciais para fazer corredores viários. Isso só se poderia fazer num período de ditadura. A intervenção que se fez no Pacaembu mesmo, a substituição da concha acústica pelo tobogã só foi possível porque vivíamos numa ditadura. Então nós conhecemos isso e repudiamos. Agora, eu acho que as dúvidas, as denúncias, em torno das obras da Copa do Mundo, nascem muito da falta de credibilidade de quem toca a organização dessa Copa.

O jornalista Juca Kfouri cursava Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), quando foi convidado para trabalhar no Departamento de Documentação (DEDOC) da Editora Abril, em 1970. No DEDOC, chegou a chefe do departamento, até deixar o departamento em 1974, quando foi convidado para ser chefe de reportagem de revista Placar. Ficou no cargo até 1978, quando passou três meses na extinta TV Tupi. Voltou a Placar. Ficou conhecido ao organizar, em 1982, uma matéria que denunciava a chamada "Máfia da Loteria Esportiva. Durante o período em que foi diretor de redação da revista Playboy, se notabilizou pela matéria na qual era desvendada a identidade de Carlos Zéfiro, além de uma entrevista com Pelé, feita em 1993, em que o ex-jogador denunciava corrupção na CBF. Em 1995, Juca teria sido proibido de apresentar denúncias contra Eduardo José Farah e Ricardo Teixeira, supostamente devido a negócios da Editora, que estava lançando a TVA (serviço de TV a cabo) e precisaria do apoio dos dirigentes de futebol para que fosse feita a compra dos pacotes de transmissão dos campeonatos. Desgastado com a direção da editora, Juca deixou a diretoria de redação em Placar e a Abril em 1995.

Jornalista investigativo


Você estaria falando especificamente de alguma pessoa?

Olha, certamente se você tivesse no comitê organizador local pessoas que a sociedade civil brasileira respeita esta coisa se daria de outra maneira. É o exemplo que eu dou sempre. Por que que na França era o Platini o chefe do comitê organizador?, na Alemanha era o Beckembauer? E aqui é o Ricardo Teixeira? Não é? Quem é de credibilidade que está no comitê local? Tem o presidente da OAB? Tem um grande empresário nacional? Um grande banqueiro brasileiro? Um bispo de não sei aonde? Não! Tem um grande jogador?nem isso! Quer dizer, é ele (Ricardo Teixeira) com a filha dele.

Ainda “paqueraram” com Pelé e Romário, mas não parece ter dado certo. Não é?

São meras figuras decorativas, não tem nenhuma função executiva. Quem tem função executiva é a filha de Ricardo Teixeira é o Rodrigo Paiva, enfim é a curriola. Então aí, obviamente, suscita suspeitas. Agora eu te diria que boa parte desses atrasos se dá muito mais porque é uma prática constante você atrasar para depois fazer as coisas sem licitação em regime de urgência.

Você pode citar exemplos disso?

A gente não precisa ir longe. Não estou falando de suspeitas, nem de desconfianças, nem de inferências. Estou te falando de coisas que aconteceram faz quatro anos, no PAN do Rio de Janeiro.

Então diante de cenário que se forma, que tipo de Copa o Brasil vai ter?

Eu acredito que nós não tenhamos jogos em todas as cidades como estava previsto. Acho que uma ou duas pelo menos falharão.

Natal estaria entre essas duas?

É bem provável, mas não por ser Natal, pelo amor de Deus, até porque São Paulo corre o mesmo risco. Só que acho que em São Paulo ainda há a possibilidade mínima de um pouco de bom senso e voltarem atrás em função da desistência do Morumbi. É absolutamente um escândalo, uma ofensa a inteligência nacional dizer que um estádio como o Morumbi não se presta a uma Copa do Mundo. Durante 50 anos este estádio serviui ao futebol mundial e agora não serve para nada? Olha, nós vamos ter uma Copa mais ou menos como a África do Sul. Com coisas atrasadas, com coisas que não foram concluídas. Não esqueça que na África, a famosa linha de trem ligeiro do aeroporto de Joanesburgo ao centro da cidade foi inaugurada no dia seguinte ao fim da Copa. O que manteve Joanesburgo sobre uma poeira durante toda a Copa foi que o estacionamento em torno dos estádios eram todos ‘terrões’, nenhum deles tinha asfalto. Provavelmente faremos parecido e ao capo da Copa, o presidente Blatter dirá que foi a mais organizada e vamos para o Catar e depois vamos para a Rússia, veja que não é àtoa essa sequência.

Além da questão econômica, há a questão política envolvida nessa sequência?

Ora, não é àtoa que o presidente da CBF está apoiando o presidente da federação do Catar agora na sucessão no que deveria ser uma eleição de candidatura única do Blatter.

Então é por isso essa gritaria da Fifa, neste momento, em cima do Brasil?

Eu acho que tem à ver, poque você sabe que eles já tinham feito um acordo antes. A Copa do Mundo no Brasil é fruto de um acordo entre o Blatter e o Ricardo Teixeira e as federações da América do Sul no sentido de o Ricardo Teixeira não ser adversário do Blatter nas eleições passadas. Foi mais ou menos assim: te dou a Copa do Mundo e você fica quietinho no seu canto, vamos disputar esse troço mais tarde. Ricardo Teixeira topou, certo de que vai fazer uma Copa aqui no Brasil, ganha a Copa e ganha a eleição em 2015. Contava com o apoio do Blatter. Já sabe que não terá esse apoio. Então já antecipou. Agora com a Copa praticamente garantida, eu digo praticamente porque não há caso da Fifa ter tirado uma Copa de um país. Único caso que a gente conhece é a Colômbia abdicando da Copa em 86 e que o México acabou fazendo de novo.

Muito se fala em legado. Isso vai ficar realmente ou ao legado da despesa vai ser maior?

 Veja bem, tenho dito isso sempre que falo desse assunto. Tem um livrinho que saiu recentemente aqui no Brasil, de uma dupla inglesa. Um jornalista esportivo inglês muito respeitado por lá e um economista especialista em negócios esportivos, chamado ‘soccernomics’. Esse livro trata de dois eventos: Copa do Mundo e Olimpíadas, para mostrar que nunca pais nenhum no mundo ganhou dinheiro fazendo esses eventos. Na verdade, os estados, os países mentem para as suas populações quando falam em ganhar dinheiro, em eventos que serão lucrativos. O que este livro mostra e demonstra e comprova é que você deveria ser mais verdadeiro e fazer um cáculo que é bem simples de fazer. Quanto custa para eu deixar o meu povo feliz durante um mês? Este é um cáculo que é razoável mesmo. Quer dizer, se eu achar que vale à pena eu vou e gasto. Gasto para fazer um anúncio que leva um mês. É o grande anúncio do meu país, que corre um risco, afinal é um anúncio, então tratemos de fazer um bom anúncio. Então, por exemplo, em relação às Olimpíadas o livro diz que Barcelona fez um ótimo anúncio, pois o mundo inteiro reconhece. Atenas fez um mau anúncio. Montreal mesmo não fez um bom anúncio. A população de Montreal só parou de pagar àquelas Olimpíadas em junho do ano passado. Aparecia ‘Taxa Olímpica’ na conta de luz todo mês, durante mais de 30 anos. Bom, nós aqui vamos pagar, sem nessa transparência de saber que estamos pagando na água ou na luz, ou onde quer que seja e, de novo, vou fazer a pergunta que faço sempre, me dê um motivo para acreditar que vai ser diferente na Copa do Mundo e na Olimpíada do Rio se são mais ou menos as mesmas pessoas que estão fazendo ambas que fizeram o Pan.

Em que isso implica na questão dos legados?

Lembre-se dos três legados prometidos para o Rio de Janeiro em função do Panamericano. Despoluição da Baía da Guanabara, despoluição da lagoa Rodrigo de Freitas e metrô Jacarepaguá-Galeão.  Nada disso foi feito. Orçou-se gastar R$ 400 milhões, gastou-se R$ 4 bilhões. E qual foi o legado? Apenas alguns equipamentos esportivos como o Conjunto Aquático Maria Lenk, apresentado com toda suntuosidade muito maior do que o preciso para uns Jogos Panamericanos porque já seria uma coisa pronta para a pré-candidatura brasileira à Olimpíada. Aí descobre-se, depois que o Brasil ganha a candidatura que não se disputarão as provas de natação lá porque a arquibancada é menor do que o Comitê Olímpico Internacional exige e o Maria Lenk servirá para o aquecimento das provas de natação  para jogos de polo aquático e saltos ornamentais. Aí te pergunto. Porquê vou acreditar nessa gente? Porquê que vou acreditar no presidente do COL, que é o mesmo da CBF que foi 10 anos atrás objeto de duas CPIs no Congresso Nacional. Agora, qualquer coisa em contrário, para mim, será uma ótima surpresa. Mas não tenho motivo nenhum para acreditar neles.

Então corremos o risco de termos um prejuízo gigantesco? Afinal seremos o centro do esporte mundial até 2016 (Copa, Olimpíadas, Jogos dos Militares, Copa América).

Sem dúvida. Você veja que coisa doida. Uma coisa que não se pode negar ao Lula pessoalmente são essas duas vitórias fabulosas de trazer os dois maiores eventos do mundo para o Brasil, e a única coisa diferente que houve em diversas candidaturas brasileiras fosse para a Copa, fosse para as Olimpíadas, a única coisa diferente foi ele (Lula).

Foi então uma conquista mais política que técnica?

Exatamente, porque nas outras candidaturas tinha o Nuzman, tinha o Ricardo Teixeira. O que não tinha era o Lula. Então o Lula, sem falar inglês, sem nada e tal, com seu carisma, trouxe os dois eventos, que podem se transformar também em dois grandes fiascos e em dois eventos que causem no Brasil  o mesmo abalo que as Olimpíadas de Atenas causaram na economia grega. Agora, a esperança que se tem é que, ao que tudo indica, a Dilma é uma gestora que não se deixa emprenhar pelo ouvido, nem se seduzir pelo canto da sereia desse pessoal da cartolagem e está tomando medidas mais fortes do ponto de vista gerencial. A prova disso, inclusive, é a escolha do Henrique Meireles, tirando desse mundo da cartolagem a Autoridade Pública Olímpica que era praticamente garantida para o Ministro dos Esportes.

Saindo da cartolagem e indo para dentro de campo, vemos uma renovação na Seleção Brasileira. Como você vê a preparação para 2014? Existe sombra de Muricy Ramalho sobre Mano Menezes?

Acho que não existe esse negócio de sombra de Muricy. Acho que se amanhã acontecer alguma coisa com Mano Menezes o Ricardo Teixiera jamais perdoará  a desfeita do Muricy. O Muricy tá fora, não seria ele o próximo técnico.

E o Mano está pronto para o desafio?

Acho que o Mano Menezes pegou a Seleção ainda sem estar pronto. Não acho que ele tenha uma folha de serviços, embora tenha uma carreira respeitável, mas não uma folha de serviços ainda que justificasse a Seleção Brasileira. Em bom português, as façanhas do Mano Menezes como treinador são a Copa do Brasil com o Corinthians, tendo perdido a anterior para o Sport.

E a Série B?

A Série B não é uma façanha, como não foi no Grêmio. Digo mais, a vida e o futebol são coisas muito parecidas. Imagine você se o Grêmio não comete aquela barbaridade histórica nos Aflitos. O Mano Menezes não teria subido  com o Grêmio com uma folha de pagamento 10 vezes superior a do Náutico. Ele estaria como técnico lá em Santo Ângelo, pode crer nisso. Mas houve aquilo que, claro do ponto de vista gremista é histórico, é uma façanha, mas que nós sabemos que se aquele juiz é um pouco menos banana ele expulsa o time todinho do Grêmio na hora do pênalti para o Náutico e o jogo acaba ali, porque até o Paulo Oldoni entrou em campo. Vamos olhar para as coisas como as coisas são. Veja bem, não estou diminuindo, do ponto de vista gremista o que foi aquela página, mas pense você do ponto de vista do torcedor do Náutico, ou do torcedor de qualquer outro time. Queria ver se o Náutico faria aquilo no Olímpico. Então, este é o Mano Menezes. O que ele ganhou? Chegou a final da Libertadores com aquele time foi uma façanha, porque aquele time do Grêmio embora não tenha sido páreo para o Boca Juniors, mas foi muito longe, mas não fez muito mais do que isso. Agora acho que ele está com o espírito legal em relação ao futebol que ele pretende que a Seleção Brasileira jogue. Gostei dele convocar o Lucas, gostei de ele pôr o Leandro Damião para jogar, acho que o futebol brasileiro como sempre segue produzindo talentos e ele apostando nessa mina tem tudo para se dar bem para ganhar a Copa do Mundo no Brasil.

Mas algo o desagrada nessa preparação?

Me desagrada saber que a Seleção Brasileira virou um parque de diversões para empresários. É aquela coisa da mulher de César: não basta ser honesta, tem que parecer honesta. Veja só, o Renato Augusto não pode ser prejudicado e não convocado porque é do mesmo empresário do Mano, mas também não pode ser beneficiado.  Aí pergunto. Existe algum clamor popular em torno da convocação do Reanto Augusto?Não. Aí o Renato Augusto é convocado, como outros, aí você fala, por quê será? O Mano precisa mesmo ter um empresário? Técnico da Seleção precisa de empresário?

Esse tipo de coisa por vezes é debatido na imprensa. Como você vê a cobertura jornalística esportiva?

Existem diversos jornalismos esportivos hoje no Brasil. Me recuso a tratar como se fosse uma coisa só. Acho por exemplo, que existe um jornalismo esportivo no Brasil, na TV aberta, absloutamente lastimável. Ou de muito baixa qualidade pelo popularesco, pela absoluta desqualificação, ou absolutamente chapa branca por tratar a cartolagem do futebol como sócia. Aí não noticia a CPI do Ricardo Teixeira, não noticia negociações do Clube dos 13 sobre direitos de televisão e faz jornalismo chapa branca no esporte. Acho uma lástima. Então, na TV aberta, não tem uma estação comercial que eu respeite como jornalista esportivo, embora, por exemplo, tenha ótimos profissionais, mas que não desempenham a sua função como jornalista. Fazem entretenimento. Eu acho que o esporte é altamente entretenimento, mas é óbvio que o esporte deve ser coberto jornalisticamente também. Já na TV fechada, com perdão da boca torta, na ESPN Brasil se faz jornalismo. Como se faz jornalismo na Folha, no Estadão. Acho que a imprensa escrita ela, nesse aspecto, é muito melhor que a eletrônica em termos de investigação, enfim de cumprir o seu papel, sem abdicar de que está tratando de uma área que você tem que tratar com emoção, com tudo o que o esporte significa. Acho que a imprensa escrita é melhor, mais combativa, mais imprensa, mais jornalismo que a imprensa eletrônica.

O tipo entretenimento vai prevalecer na cobertura de 2014?

Com certeza. Tanto isso é verdade, que existe a confusão de saber se o cara é jornalista, ou se é garoto propaganda, se o cara é jornalista ou está defendendo o interesse de empresários de jogador, ou seja é toda essa miscelânia, essa promiscuidade que se dá na TV aberta brasileira.

Nesse meio você inclui os blogs?

Incluo os blogs na área do jornalismo escrito. Acho que os blogs, claro que as vezes também há contaminação até da parte dessas figuras da TV aberta, eu acho que os blogs, no mais das vezes fiscaliza mais do que a TV aberta.