Internacional
Kadafi incita uso da violência
Publicado: 00:00:00 - 26/02/2011 Atualizado: 23:15:57 - 25/02/2011
Trípoli (AE) - O governante da Líbia, Muamar Kadafi, disse ontem a uma multidão de partidários do seu regime, reunida na Praça Verde, que “se prepare para defender” o país, conforme mostraram imagens transmitidas pela rede de televisão estatal. De cima de um prédio, Kadafi disse que os arsenais líbios estão abertos para armar o povo para a batalha. O governante disse também que a população da Líbia “ama Kadafi”. Ele está no poder há 41 anos. O discurso de Kadafi foi feito num dia de crescente violência na Líbia. Insurgentes tomaram as cidades de Marsa El-Brega e Ras Lanouf, no Golfo de Sirta, na parte central do país, e mantém o controle do Leste do país, a Cirenaica. Na capital Tripoli, forças de segurança e mercenários de Kadafi atiraram contra uma multidão que se manifestava mais cedo, matando pelo menos 5 pessoas durante a manhã. Marsa El-Brega é um importante terminal portuário petrolífero, enquanto Ras Lanouf tem uma refinaria e uma planta petroquímica

Manifestações da sexta-feira foram as primeiras de grande vulto contra Kadafi em Trípoli. Opositores querem a destituição do presidente“Nós vamos lutar e conquistar cada pedaço de território líbio”, afirmou o governante. “Quem não me ama, não merece a vida. Para esse, a vida será um inferno”, afirmou Kadafi. Segundo ele, seus partidários lutarão “e venceremos, como vencemos o colonialismo italiano”. Kadafi também recomendou que seus seguidores “dancem, cantem e sejam felizes”.

“Olhem europeus, olhem americanos, este é o povo líbio, este é o fruto da revolução. A revolução ressuscitou Omar Al-Mukthar, nós combateremos pela Líbia”, afirmou Kadafi. Omar Al-Mukthar foi um insurgente líbio que lutou durante quase 20 anos contra as tropas italianas. Capturado, foi enforcado pelos italianos em 1931.

Enquanto Kadafi discursava na Praça Verde, um repórter da emissora americana CNN testemunhou uma batalha “sangrenta” pelo controle do mercado de Tripoli. Segundo a CNN, citando fontes médicas, pelo menos 17 pessoas foram mortas nos confrontos entre insurgentes e partidários de Kadafi nesta sexta-feira.

As manifestações em Tripoli foram as primeiras de grande vulto contra Kadafi na capital. Além do mercado e dos confrontos pela manhã, que aconteceram em vários pontos de Tripoli, ocorreram combates em alguns bairros.

Dezenas de milhares de líbios fizeram em Benghazi, segunda maior cidade do país, uma passeata em apoio aos manifestantes de Tripoli. Eles se reuniram na cidade onde a revolta começou no dia 15, 940 quilômetros ao oeste da capital. “Nós não vamos deixar essa manifestação até que Tripoli seja a capital da Líbia unida novamente. Os líbios estão todos unidos”, disse o manifestante Omar Moussa, em Benghazi.

Insurgentes tomaram o controle da cidade e do terminal portuário petrolífero de Marsa El-Brega, no Golfo de Sirta. A emissora CNN entrevistou um funcionário do departamento de comunicações do porto de Marsa El-Brega, que confirmou a tomada. Soldados que desertaram para os insurgentes estão ajudando os manifestantes a assegurarem o controle da cidade e do porto, que fica na Líbia central. “A área está controlada pelo povo”, disse Mabrook Maghraby, um advogado de Benghazi que participa do comitê que defende o terminal portuário.

Os insurgentes também conseguiram manter o controle de Az-Zawiya, cidade mais próxima que tomaram perto de Tripoli, a 50 quilômetros da capital. Segundo um website líbio, o Qureina, pelo menos 23 pessoas foram mortas ontem, quando soldados leais a Kadafi e mercenários tentaram retomar o controle da cidade, bombardeando uma mesquita com uma arma antiaérea. Tropas leais a Kadafi continuam a lutar contra insurgentes em Sabratha, Sabra e na capital. A cidade de Misurata, terceira maior do país e tomada pelos insurgentes na quarta-feira, permanece sob controle dos rebeldes. Milhares de pessoas fizeram hoje uma manifestação em Misurata contra Kadafi.

Presidente da Venezuela elogia independência líbia

Caracas (AE) - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, elogiou a “independência” da Líbia no fim desta quinta-feira. Segundo Chávez, o governante Muamar Kadafi enfrenta uma “guerra civil” em seu país. “Longa vida à Líbia e a sua independência! Kadafi enfrenta uma guerra civil”, afirmou Chávez em uma mensagem no Twitter. Foi a primeira reação pública do líder venezuelano desde o início dos protestos, no dia 15.

Chávez é o principal aliado de Kadafi na América Latina. Os dois líderes acusam regularmente o imperialismo dos EUA e trocaram visitas nos últimos anos. Os laços são tão próximos que houve rumores de que Kadafi teria seguido para Caracas em meio aos protestos, o que o líbio negou. Chávez, que visitou a Líbia em outubro, esteve em contato com Kadafi durante o levante popular que levou à renúncia do presidente egípcio, Hosni Mubarak, em 11 de fevereiro, segundo funcionários venezuelanos. Mubarak estava havia três décadas no poder.

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, disse na Assembleia Nacional venezuelana que “repudia a violência” na Líbia. Segundo ele, é preciso haver um estudo “objetivo” da crise. “Condições estão sendo criadas para uma invasão da Líbia, e o objetivo central da invasão...é tomar o petróleo da Líbia”, afirmou Maduro. Governos ocidentais cobram punições por abusos na Líbia. “Por que eles não pedem a mesma punição para aqueles que bombardeiam civis inocentes todos os dias no Iraque e no Afeganistão?”

Na América Latina, o esquerdista presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, prestou solidariedade a Kadafi. Já o principal grupo oposicionista nicaraguense, Partido Liberal, divulgou comunicado exigindo “o corte imediato das relações diplomáticas” com a Líbia.

Kadafi perde delegação nas Nações Unidas

Genebra (AE) - Muamar Kadafi já não é mais representado na prática dentro da Organização das Nações Unidas (ONU). Ontem, a missão da Líbia junto às Nações Unidas em Genebra anunciou sua deserção em massa. A iniciativa dos diplomatas ocorre depois que uma série de militares, procuradores e até representantes da Líbia na ONU em Nova York já haviam tomado o mesmo caminho. Desta vez, os diplomatas optaram não por suspender suas atividades ou pedir demissão. Mas por servir o povo. “Nós, da missão líbia, decidimos categoricamente representar o povo líbio em sua totalidade na ONU”, explicou o diplomata líbio, Adel Shaltud. “Vamos servir de representantes da população nesta instância augusta”, afirmou ele aos membros do Conselho de Direitos Humanos.

A decisão foi tomada pelos diplomatas depois que o chefe da missão líbia na ONU sofreu um ataque cardíaco há dois dias diante de sua tensão em relação ao destino de sua família em Trípoli. “O poder do povo é invencível. A luta épica que tivemos contra a invasão fascista há cem anos hoje se repete. Os jovens do país estão, com sangue, escrevendo uma nova história da resistência”, disse Shaltud. “Gloria para sempre aos mártires da revolução. Vitória aos heróis da Líbia”, concluiu.

A decisão dos diplomatas foi acolhida com muitos aplausos e emoção na sala da ONU em que justamente se discutia condenações contra Kadafi e a suspensão da Líbia. Emocionado, o diplomata citou um trecho do Corão para alertar ao governo que “aqueles que morreram em nome de deus não estão mortos”.

A pedido dos desertores, todos os diplomatas dos países da ONU fizeram um minuto de silêncio pelas vítimas. A Organização da Conferência Islâmica foi a primeira a felicitar o grupo pela decisão “de estar com o povo, não com o ditador”.

Rapidamente a embaixada norte-americana ofereceu ajuda aos desertores. Também ontem, diplomatas líbios na Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) anunciaram a decisão de não mais representar Kadafi. Diplomatas lotados nas embaixadas do país árabe em Londres, Paris e diversas outras capitais também anunciaram suas demissões.

ONU sugere suspensão da Líbia

Genebra (AE) - A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda a suspensão da Líbia dos órgãos de direitos humanos da entidade, algo inédito na história do organismo multilateral e, por enquanto, o maior sinal de isolamento internacional de Muamar Kadafi. A decisão final será tomada na terça-feira pela Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Muamar Kadafi recebeu ontem duas propostas da União Africana (UA) para sair da Líbia e evitar o banho de sangue. Em ambos os casos, recusou.

“Este é um dia histórico para a ONU e manda um recado claro a todos os países de que suas ações terão consequências, inclusive o Irã”, afirmou a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Eileen Donahoe. Jean Baptiste Mattei, embaixador da França, também comemorava. “Estamos tomando decisões que ficarão marcadas e que dão sinais claros a todos”, disse.

A resolução ainda cria uma comissão internacional que vai investigar os massacres e que poderá recomendar um processo perante a Corte Internacional de Justiça contra Kadafi. “Os responsáveis por essas mortes precisam pagar por essa violência revoltante”, afirmou Mattei. “O que vemos é uma repressão planificada”, disse. “Esse país não tem lugar aqui (ONU)”, afirmou Peter Gooderham, embaixador do Reino Unido.

A Líbia havia sido eleita para o Conselho de Direitos Humanos da ONU com 155 dos 193 votos possíveis, inclusive de quase toda a América Latina. Ontem, restavam poucos amigos. Países muçulmanos como a Jordânia e Qatar também apoiaram a suspensão. Para o Iraque, o que ocorre na Líbia é “inaceitável”. Até mesmo o Paquistão, em nome da Organização da Conferência Islâmica, condenou a atitude de Kadafi. A resolução passou sem votos contrários. Mas a batalha agora se transfere para Nova York. Na Assembleia Geral, dois terços dos votos terão de ser obtidos para a suspensão da Líbia.

Ditaduras em todo o mundo não estão preocupadas com Kadafi. Mas não disfarçam a preocupação de serem também suspensos um dia. “Não queremos que isso crie um precedente”, afirmou a missão da China perante a ONU. A União Africana também apontou que esse é um “caso especial” e que não deve pautar as Nações Unidas de agora em diante. A Nigéria liderou o coro contra a suspensão.

Foi da África que surgiram ontem dois convites para que Kadafi deixe a Líbia e evite um banho de sangue. “A oferta de asilo foi feita por dois países africanos”, indicou o embaixador palestino na ONU, Ibrahim Kraishi. “Não posso revelar os nomes desses países, mas garantiram que ele não seria entregue à corte internacional se aceitasse deixar a Líbia”, afirmou. Já Paris e Londres querem um processo por crimes contra humanidade.

Kadafi ainda provou ter seus últimos aliados na América Latina. “Qual o critério para julgar se houve e em que nível houve uma violação aos direitos humanos?”, questionou Rodolfo Reyes, embaixador de Cuba. “Foi a imprensa norte-americana quem incitou a violência. Denunciamos um plano de ocupação da Líbia”, afirmou o cubano. Segundo ele, norte-americanos e europeus estão “se aproveitando de modo oportunista da situação trágica para satisfazer a apetites intervencionistas, roubar a soberania da Líbia e apoderar-se de seus recursos”. Para a delegação venezuelana, a ONU está criando dois grupos de países. “Estão querendo ter uma ONU só do Ocidente rico.”

Governo brasileiro deve apoiar suspensão da Líbia

A delegação brasileira copatrocinou a resolução e ontem a embaixadora Maria Nazareth Azevedo insistiu que os ataques contra a população atingiam níveis “inaceitáveis”. Segundo ela, essa situação coloca a Líbia como um caso à parte do resto das revoltas no Norte da África e citou a presidente Dilma Rousseff e sua declaração de que “o Brasil não toleraria nenhuma forma de violação aos direitos humanos”. Questionada por uma agência estrangeira de notícias sobre o voto do Brasil na semana que vem, a embaixadora não disse se o País apoiaria ou não a suspensão. A assessoria de imprensa do Itamaraty também não respondeu ao pedido de explicação sobre o voto brasileiro. Mas diplomatas brasileiros acreditam que o País não terá outra alternativa senão a de apoiar a suspensão da Líbia.

Parte da cautela do governo é explicada por conta da presença de brasileiros na Líbia. O País estima que, se adotar uma posição extremada, são os brasileiros lá que podem sofrer eventuais consequências. Hoje, o Itamaraty voltou a apelar para que a Líbia libere a partida de estrangeiros e a garantia de que os brasileiros não serão atacado.

O Itamaraty fez questão de ressaltar que as revoltas no Norte da África são produtos da falta de desenvolvimento, pobreza e desemprego. “Paz e desenvolvimento caminho juntos”, disse a embaixadora. O Brasil ainda condenou as “obstruções contra a imprensa”, apontando que isso abre caminho para que governos cometam violações aos direitos humanos sem serem controlados.

Ocidente prepara sanções contra o regime de Kadafi

Washington, (AE) - O governo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está finalizando sanções unilaterais de Washington contra a Líbia, num esforço para pressionar o governo líbio a suspender a violência contra os manifestantes no país, disse o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney. A União Europeia também iniciou ontem um esforço coordenado para punir o regime de Kadafi, com um pacote que incluirá congelamento de bens líbios no exterior, embargo à venda de armas e ordens de prisão contra figuras do governo líbio que viajem para o exterior. A iniciativa é discutida em Bruxelas.

Obama afirmou que os EUA também estão negociando sanções multilaterais contra a Líbia com outros países, incluindo uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que “pode conter embargo a armas, sanções individuais contra autoridades-chave da Líbia e congelamento de ativos”.

O anúncio da Casa Branca foi feito menos de uma hora depois de um avião transportando cidadãos norte-americanos ter deixado o país do norte da África. Outros cidadãos dos EUA foram retirados por ferryboat e as operações da embaixada dos EUA na Líbia foram suspensas, disse Carney. Os EUA fecharam hoje sua embaixada na Líbia, após a retirada dos funcionários e diplomatas.

Ele usou palavras duras quando se referiu ao governo líbio Muamar Kadafi e ao “brutal tratamento” contra a população líbia. Segundo Carney, “a legitimidade de Kadafi aos olhos de seu povo foi reduzida a zero”. “Está claro que o coronel Kadafi perdeu a confiança de seu povo”, acrescentou. Carney disse que o status quo no país “não é sustentável nem aceitável”.

Carney não especificou quais serão as sanções norte-americanas, nem quando serão implementadas, mas disse que os EUA já suspenderam a venda de peças militares para a Líbia.

Antes da violência contra os manifestantes na Líbia nas duas últimas semanas, os EUA tinham relações militares “limitadas” com a Líbia, que tinha concordado em abrir mão de seu programa de armas nucleares e era vista como um aliado dos EUA contra grupos terroristas. Carney disse que estas relações, incluindo as vendas pendentes de “peças militares sobressalentes foram suspensas”.

Os governos dos países da União Europeia (UE) concordaram em congelar os ativos do governo líbio, proibir sua liderança de viajar ao exterior e também colocar em vigor um embargo às vendas de armas ao país do Magreb, em resposta à repressão desencadeada pelo governante Muamar Kadafi contra a população, informa o Wall Street Journal.

Contudo, os governos europeus ainda não decidiram quais ativos serão congelados e quais personalidades da liderança não poderão deixar a Líbia, disse um diplomata. As discussões continuarão no final de semana e as medidas poderão se tornar efetivas na segunda-feira ou na terça-feira da próxima semana. “Esse é um acordo sobre o contorno das sanções”, disse o diplomata.

Povo exige reformas no Bahrein

Manama (AE) - Dezenas de milhares de manifestantes contrários ao governo encheram ontem as ruas da capital do Bahrein  para elevar a pressão por amplas reformas políticas antes de possíveis negociações para o encerramento de quase duas semanas de protestos e confrontos no reino no Golfo Pérsico. Pelo menos duas marchas principais deveriam convergir para a Praça da Pérola, que se tornou o principal ponto de manifestações por reformas democráticas.

Forças de segurança não tomaram medidas imediatas para conter as passeatas, um indício de que os governantes do Bahrein não querem se arriscar a provocar mais derramamento de sangue e ser alto de denúncias de aliados ocidentais. Ontem, o governo declarou luto pela morte de sete pessoas durante confrontos no dia 14 de fevereiro.

  Muitos manifestantes agitavam a bandeira vermelha e branca do Bahrein. Dentre os gritos de ordem estavam “nada de diálogo até que o governo seja dissolvido” e “pelo futuro do Bahrein, não temos medo de morrer”.  Na Praça da Pérola, uma enorme bandeira do Bahrein foi erguida com a frase “praça do martírio” em árabe, uma referência aos mortos pelas forças de segurança. Fotografias dos mortos foram colocadas na praça.

As passeatas ocorreram após um sermão proferido por um clérigo xiita que afirmou que qualquer diálogo entre os manifestantes e os governantes do país deve levar a claras reformas e mudanças. O imã Isa Qassim proferiu seu sermão na mesquita de uma vila xiita em Diraz, onde há forte presença de opositores do governo. Ele pediu reformas que sejam “claras, amplas e produtivas”. Ele disse que os manifestantes querem garantias sobre o que será conquistado nas negociações.  “Não queremos o diálogo apenas pelo diálogo, não queremos diálogo para perder tempo ou engolir a raiva”, disse Qassim aos fiéis. “Queremos um processo significativo, viável e sustentável ..buscamos uma mudança fundamental no atual processo político baseado em demandas legítimas.

O governo sunita do Bahrein se ofereceu para conversar com grupos de oposição xiita para tentar acalmar as manifestações, mas a oposição tem demorado para responder ao chamado.  A oposição parece dividida em seus objetivos. Alguns querem reformas democráticas mais amplas, incluindo a saída do primeiro-ministro, que é tio do rei. Outros, porém, exigem a saída de todos os integrantes do regime.

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