Karatecas do RN buscam o sonho olímpico

Publicação: 2018-09-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

Representar o país nos jogos esportivos mais importantes do mundo é sem dúvida um dos maiores momentos na carreira de qualquer atleta. No entanto, um karateca, por melhor que fosse, não poderia participar de uma edição das Olimpíadas pelo simples fato da modalidade não ser conhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, o COI. A história mudou em agosto de 2016, quando o esporte foi catalogado junto ao COI e desde então karatecas do Brasil e do mundo inteiro se preparam para fazer história em 2020, nos jogos de Tóquio, no Japão.

No Rio Grande do Norte, estado  que forma atletas em diversas modalidades e que já contou com  potiguares nos jogos olímpicos, karatecas norte-riograndenses já se preparam para as seletivas na busca do grande sonho. O detalhe é que quatro potiguares já estão figurando na Seleção Pré-Olímpica, após participarem de uma seletiva nacional em dezembro do ano passado, em Tocantins. Ao todo, 84 brasileiros integram a seleção principal. O fato de estarem entre os melhores nas suas respectivas categorias traz prestígio e a chancela por parte da Confederação Brasileira de Karatê (CBK) para inscrições em torneios internacionais, que serão de grande importância para somatória de pontos que deixarão os atletas próximos do sonho olímpico.

Karatê: modalidade une respeito, disciplina e controle corporal
Karatê: modalidade une respeito, disciplina e controle corporal

As potiguares  Ana Luíza, 21, e Pâmela Thays, 21, e os norte-riograndenses Jefferson Alves, 25 e Luiz Victor, 25, estão neste momento bem posicionados no ranking nacional, além do fato de estarem garantidos na seleção pré-olímpica. O objetivo é apenas um: acertar os golpes, derrubar um adversário de cada vez e principalmente, somar pontos no ranking da WKF (World Karate Federation) para chegar da melhor forma possível às Olimpíadas.

O roteiro dos atletas é praticamente parecido: os karatecas começaram na arte marcial japonesa durante a infância ou adolescência e conciliam a vida de atleta entre carreiras acadêmicas e profissões já consolidadas, treinando de duas a cincovezes por semana, de acordo com a rotina de cada um.

Uma das potiguares que buscam estar em Tóquio 2020, Pâmela Thays, natural de Tangará, treina na cidade onde nasceu três vezes por semana e se desdobra entre a faculdade de Educação Física e os treinos em Natal, nas quintas e sextas-feiras, com os companheiros da FNK. Na categoria Kumitê (61kg), ela chegou a participar do Mundial da WKF (World Karatê Federation), do torneio sul-americano e pan-americano, tudo isso em 2017. Sobre o sonho, Pâmela é enfática: quer estar no Japão em 2020 para a primeira Olimpíada da história em que o esporte se fará presente.

Ana Luiza e Pâmela Thays: medalhas e conquistas no currículo
Ana Luiza e Pâmela Thays: medalhas e conquistas no currículo

“É um sonho que todo karateca almeja, disputar uma olimpíada, ainda mais disputar a primeira, e a gente vem lutando para isso, através do ranking nacional, mundial, é algo que a gente quer”, falou entusiasmada a lutadora.

Outro dos nomes expoentes do estado potiguar no esporte é o natalense Luiz Victor, 25 anos, da categoria Kumitê (75kg) que soma títulos nacionais e internacionais no currículo, como por exemplo, um título da Premier League, um dos torneios mais importantes do mundo. O curioso é que na época em que o karatê tornou-se esporte olímpico, Victor estava afastado do esporte, dedicando-se bastante ao MMA. A aceitação por parte do COI, relembra, era o que faltava para que o atleta pudesse voltar ao esporte que sempre amou.

“Para mim foi um marco porque eu estava até desmotivado com o karatê em 2016, ano do anúncio, eu estava focando mais no MMA. Quando eu soube logo voltei para cá, pra me dedicar ao karatê, porque é um projeto de uma vida inteira, a gente sempre mentalizou isso”, relembra.

Luiz Victor já tem título mundial no hall de conquistas
Luiz Victor já tem título mundial no hall de conquistas

Em setembro, os atletas potiguares terão uma oportunidade para somar pontos para o ranking da WKF, sistema que será utilizado para selecionar os melhores atletas para os Jogos Olímpicos. De 21 a 23 de setembro, em Santiago, no Chile, os norte-riograndenses disputarão o  Karatê Séries A, como forma de já irem galgando às vagas em suas respectivas categorias para chegarem bem posicionados no momento certo.

Atletas esperam que esporte mude de patamar

A entrada do esporte no catálogo dos Jogos Olímpicos não significa apenas a realização de sonhos, como explicam os atletas. De acordo com Jean Diógenes e Emannuel “Mano” Santana,  técnico e coordenador técnico da Federação Norte-Riograndense de Karatê (FNK), respectivamente, o reconhecimento da atividade como esporte olímpico foi de grande valia para os praticantes  por diversos aspectos. Além de poder ampliar o leque de esportistas que possam se interessar ainda mais pela arte marcial, a mudança de patamar do esporte pode trazer parcerias e investimentos para os lutadores.

“Tem também um lado benéfico na questão social, porque antigamente tínhamos certos apoios do Ministério do Esporte, na parte acadêmica também, então a gente tinha um certo apoio para o karatê, mas era algo pequeno, tímido, justamente porque não era olímpico. Nossos incentivos ficavam limitados. A gente participava de todos circuitos olímpicos, menos os jogos de fato”, relembra Mano Santana.

Treinando forte semanalmente, potiguares querem fazer história no karatê e chegar aos Jogos Olímpicos em Tóquio, 2020
Treinando forte semanalmente, potiguares querem fazer história no karatê e chegar aos Jogos Olímpicos em Tóquio, 2020

Aliado a essas questões, os karatecas querem acima de tudo fazer história no esporte potiguar, que na última olimpíada, no Rio de Janeiro, em 2016, só contou com o nadador Marcos Macedo representando o RN.

“Para mim e para muitos foi um prazer imenso estar compondo a Seleção Brasileira Pré-Olímpica, devido a gente ter o prazer de defender o nosso país, a nossa bandeira. Muitos têm esse sonho, inclusive eu. O maior celeiro hoje do RN está em lutas, não só no karatê, como no judô também. A gente está onde está hoje muito por garra, por amor do que a gente faz” comenta Jeffersson Alves, natural de Extremoz, que se desdobra entre os treinos e a profissão de garçom, em Natal, na busca pela vaga em Tóquio.

Os amantes do esporte pregam que o karatê é uma modalidade, assim como tantas outras, capaz de mudar mentes e transformar vidas. Com o respeito, disciplina,  formação de caráter e principalmente, a contenção do espírito agressivo, os atletas querem que o esporte passe a ser visto ainda mais como um instrumento de mudança social para os participantes.

Luiz Victor e Jefferson: presença certa na Seleção Pré-Olímpica
Luiz Victor e Jefferson: presença certa na Seleção Pré-Olímpica

“Além da questão da disciplina, da organização e do respeito, tem também que a gente faz muitas amizades com o karatê, consegue viajar para lugares que a gente talvez nunca fosse se não tivéssemos essa vida de atleta. O que fica de mais importante é a disciplina e o respeito, porque com esses dois valores podemos conseguir muita coisa na vida”, comenta a karateca natalense Ana Luiza, Limite (68kg), que acumula medalhas em competições no Brasil e no mundo.

Assim como tantas outras artes marciais, o karatê busca mesclar princípios físicos e mentais na busca pelo melhor desempenho. Não só em termos de medalhas ou pódios, comentam os atletas, mas principalmente por respeito, controle corporal e práticas que tornarão os desportistas melhores cidadãos no ambiente o qual convivem. Seguindo esses princípios e aplicando na prática, os potiguares querem, além de elevar o nome do RN na trajetória das Olimpíadas, gravar seus nomes na história do karatê internacional.

Atualizada às 13h30 de 10 de setembro para correção no 5º parágrafo

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