Karla Motta, professora do IFRN: "Boa comunicação é fundamental"

Publicação: 2020-06-07 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

O momento atual pode de ser de ruptura, de transformação social, econômica e política. O mundo não será mais o mesmo após  a pandemia do novo coronavírus e tudo deverá mudar. A professora Karla Motta, para explicar essas e outras mudanças, faz uso de estudiosos e cita que “Peter Drucker, um dos grandes estudiosos da administração no século XX, afirmava que de tempos em tempos há um fato novo que rompe e transforma completamente as relações sociais, políticas, econômicas e ambientais, e esse fato pode ser demarcado como uma fronteira entre duas realidades distintas”.

Créditos: DivulgaçãoKarla Motta, doutora em engenharia de produção na área de logísticaKarla Motta, doutora em engenharia de produção na área de logística


Na entrevista a seguir, Karla Motta faz um breve histórico dos eventos que transformaram a humanidade, como o advento e popularização da internet, e como as pessoas se comportaram, de que maneira a economia reagiu às mudanças de comportamento social e como as empresas se reinventaram. Em todas as fases, sobreviveu quem bem se comunicou. Comunicar para o público-alvo da maneira correta é, também, uma forma de ganhar dinheiro, além da credibilidade da marca. Acompanhe a entrevista.

Como a senhora avalia o momento atual da humanidade e, do seu ponto de vista, quais serão os reflexos dessa pandemia para “a nova ordem mundial"?
Em linhas gerais, a ordem mundial se refere às relações de poder político e econômico existentes entre os países. No meu ponto de vista, quanto aos aspectos políticos, ficou mais perceptível o poder do Estado sobre os cidadãos, a partir dos resultados dos diferentes posicionamentos adotados pelos líderes mundiais, no enfrentamento à pandemia da Covid-19. O direito de ir e vir tem sido relativizado pelas autoridades de saúde, diante da ameaça de contágio e das restrições infra estruturais para atendimento à população, não apenas em países em desenvolvimento, mas também nas grandes potências mundiais. Esse contexto afeta diretamente a economia, devido às restrições ao trabalho presencial, o que causa a redução dos volumes produzidos, interrupções operacionais, paradas e atrasos nas redes de transporte e cadeias de suprimentos, assim como o fortalecimento das tecnologias de informação e comunicação. Outro aspecto a considerar é a transformação nas relações de consumo, decorrente das mudanças dos valores, das necessidades e do poder aquisitivo das pessoas, que requer novos formatos para as relações com os clientes. A boa comunicação é fundamental para neutralizar danos à reputação das empresas, organizações e governos perante a população. Se a resposta de uma organização a um surto for vista como ineficaz, ou se suas comunicações com as partes interessadas internas e externas forem vistas como incompletas ou enganosas, a imagem organização poderá ser mortalmente ferida. Estamos em um momento onde a resiliência, ou seja, a capacidade de compreendermos e nos adaptarmos à situação instalada na maior brevidade possível, com inovação e empreendedorismo, definirá o futuro de cada indivíduo, organização e país.

A pandemia do novo coronavírus é um dos eventos que mais tem modificado a humanidade na atualidade. A senhora pode citar outros momentos históricos que modificaram comportamentos sociais?
Peter Drucker, um dos grandes estudiosos da administração no século XX, afirmava que de tempos em tempos há um fato novo que rompe e transforma completamente as relações sociais, políticas, econômicas e ambientais, e esse fato pode ser demarcado como uma fronteira entre duas realidades distintas. A esse respeito, o economista e cientista político austríaco Joseph Schumpeter foi um dos primeiros a considerar as inovações tecnológicas como motor do desenvolvimento capitalista e afirmou que existe um processo de “destruição criativa”, onde surge o novo e destrói o velho. Foi o que ocorreu com a energia hidráulica, os têxteis e o aço no século 18, com o vapor e as estradas de ferro no século 19, com a eletricidade e o motor à combustão interna no início do século 20, com os petroquímicos, eletrônicos e a aviação na década de 1950, as redes digitais, softwares e novas mídias em torno de 1990. Observo que a internet foi um recente ponto de ruptura, que causou o fim de um mundo e o surgimento de outro, muito diferente do anterior. A maneira como nos relacionamos após a internet é fortemente distinta de tudo o que havia antes dela, e acredito que isso se intensificará como consequência das mudanças de relações causadas pela pandemia da Covid-19.

Em relação ao comércio mundial, o que deverá mudar a partir de agora? Corremos o risco de vivermos mais uma Guerra Fria (entre Estados Unidos e China)?
Diante das restrições de acesso internacionais decorrentes da pandemia, observa-se a tendência ao que está sendo chamado de “desglobalização”, pelo menos provisória. A desglobalização é o fenômeno de diminuição da interdependência e da integração entre países ao redor do mundo, caracterizado pelos períodos da história em que ocorre o declínio do comércio econômico e do investimento entre as nações. Segundo Hubertus Bardt, diretor de pesquisa do Instituto de Economia Alemã, “se antes o mais importante era obter um insumo pelo custo mais baixo, agora, por questão de segurança, as empresas vão começar a olhar para produções em regiões mais próximas e vão querer diversificar o local de produção. Só que isso tem custos adicionais, que vão acabar dificultando e desacelerando a integração das cadeias globais de valor.” Quanto à Guerra Fria, pode-se dizer que foi um confronto político e econômico decorrente da competição entre países capitalistas e comunistas durante parte do século XX. Seus reflexos ainda podem ser percebidos na atualidade, na medida em que persiste na China uma desvalorização dos trabalhadores e da remuneração do trabalho, o que contribui para tornar os produtos chineses mais competitivos e promover sua penetração mundial. No entanto, não creio que ocorra o estabelecimento de uma situação similar à vivenciada no século passado, devido às relações internacionais já estabelecidas e ao avanço e consolidação mundial da democracia.

O Brasil tem chance de sair beneficiado dessa possibilidade de conflito comercial e ampliar as exportações para a China ou ainda sobra inabilidade política do nosso lado para fecharmos mais negócios?
Atualmente, o Brasil exporta basicamente commodities para a China, como soja, carne de frango e bovina, açúcar bruto, celulose, café e farelo de soja, que são utilizados internamente. No entanto, os Estados Unidos assinaram em janeiro de 2020 um acordo para exportarem para a China também soja e carnes, que são mercados que cresceram para o Brasil em 2019, o que requer atenção pelos exportadores brasileiros, para que o crescimento se mantenha ou, no mínimo, não seja reduzido. A atual crise proporciona vários aprendizados, e um deles é a necessidade de diversificar as cadeias produtivas do países, sem depender de um único centro. Esta visão fortalece o conceito de vendas mais fragmentadas para quantidades maiores de clientes, como meio de manter ou elevar os volumes comercializados. Cabe ao Governo elaborar políticas alinhadas com a nova realidade imposta ao mundo, considerando fatores sociais, ambientais, tecnológicos e econômicos, atuando como indutor e facilitador do desenvolvimento sustentável no longo prazo .

O Rio Grande do Norte tem perdido volume significativo de passageiros no Aeroporto Internacional Gov. Aluízio Alves desde sua inauguração. A Inframerica, inclusive, quer devolver o terminal à União. A pandemia de coronavírus e o fechamento de fronteiras internacionais, além do isolamento social local, tende a piorar a situação do terminal?
Atualmente há uma redução de fluxos aéreos da ordem de 90% em todo o país, além do fechamento de diversas fronteiras internacionais, o que, certamente, afetará não apenas o Aeroporto Internacional Gov. Aluízio Alves, mas todo o fluxo aéreo nacional e internacional. Trata-se também de um momento oportuno para o estabelecimento de estudos voltados à elaboração de planos logísticos para os novos cenários que se apresentam, de modo que a posição do principal aeroporto do RN ressurja transformada após a crise que vivenciamos, tanto para o fluxo de cargas quanto de passageiros. O turismo tem uma cadeia produtiva muito relevante para o Rio Grande do Norte, geradora de grande volume de empregos em todas as faixas de renda, requerendo um reposicionamento diante da crise decorrente da atual pandemia. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) realizou um estudo que indica que o Produto Interno Bruto (PIB) do setor de turismo nacional cairá para R$ 165,5 bilhões em 2020, representando uma redução de 38,9% no faturamento em relação ao ano anterior, quando chegou a um valor total de R$ 270,8 bilhões. Em particular, o mercado de viagens foi um dos mais afetados no turismo, devido às medidas de contenção da Covid-19. Dados do PewResearch Center relatam que 93% da população mundial reside em locais que adotaram algum tipo de restrição a viagens, e também que três bilhões de pessoas ao redor do mundo vivem em países que fecharam totalmente suas fronteiras para estrangeiros. O estudo da FGV recomendou ao governo a adoção de medidas urgentes, como auxílio para o setor aéreo, reequilíbrio dos contratos de concessão para aeroportos, centros de eventos e atrativos turísticos, oferta de crédito facilitado, diferimento de tributos e flexibilização dos contratos de trabalho para micro e pequenas empresas.

O traslado de mercadorias no Brasil deve mudar a partir do momento atual? Quais reflexos a pandemia terá na logística em geral?
Observa-se que aumentaram as barreiras sanitárias entre cidades, Estados e países, o que deve se manter até os governos entenderem que os efeitos imediatos do coronavírus tenham sido mitigados e que a doença já esteja sob controle dentro de suas fronteiras. No entanto, muitas cadeias produtivas do planeta sofreram uma drástica ruptura, seguida da queda do poder de compra e princípios de graves recessões econômicas. Esse quadro aponta para o fortalecimento do consumo local, seja de bens ou de serviços, o que terá um impacto nos fluxos de pessoas e materiais e, consequentemente nos fluxos logísticos globais.

A senhora acredita que os produtos ficarão mais caros por causa do momento atual? Quais deverão sofrer os maiores reajustes e por quê?
Em geral, o mercado é regido pela lei da oferta e da procura, o que significa que os preços diminuem se a disponibilidade de um produto ou serviço é maior que o interesse dos clientes, ou aumentam se a procura é maior que a oferta. Ocorre que o comportamento da sociedade não é influenciado apenas pelos preços, mas por outros fatores, como os desejos e necessidades das pessoas, seu poder de compra, a existência de produtos complementares ou substitutos. Já se observa que produtos e serviços consumíveis nas residências e com entregas realizadas pelos fornecedores estão em alta, por facilitarem o cumprimento do isolamento social e o convívio com a pandemia. Além dessa, outras mudanças de hábitos dos consumidores são percebidas, como aumento no hábito de cozinhar em casa e a preferência por marcas locais ou mais fortes. No sentido contrário, houve uma redução do consumo de produtos e serviços voltados ao uso em ambientes coletivos, o que tende a se reequilibrar à medida que a Covid-19 seja superada e as relações sociais sejam restabelecidas.

Quem
Karla Motta é Doutora em Engenharia de Produção na Área de Logística. Mestre em Engenharia Mecânica na Área de Gerência da Produção. Graduada em Logística e em Arquitetura e Urbanismo. Atualmente atua como Coordenadora de Planejamento e Gestão Estratégica do Tribunal Regional do Trabalho da 21a Região. É professora efetiva dos cursos de logística do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) e atua como pesquisadora da Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do RN (Funcern). É autora e organizadora de livros sobre logística. Fundou a Sociedade Brasileira de Logística.