Kleber Mendonça: “Tenho saudade do período feliz filmando em Parelhas”

Publicação: 2019-05-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcio Delgado
Especial para o Viver, de Cannes

O filme brasileiro “Bacurau”, dirigido pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi o destaque do segundo dia do Festival de Cannes, com exibição em sessão de gala na noite da última quarta-feira (15) atraindo uma salva de palmas de uma plateia internacional.

Entrevista durante a 72ª edição do Festival de Cannes
Entrevista durante a 72ª edição do Festival de Cannes

O longa-metragem, que conta com Sonia Braga, Bárbara Colen e o ator alemão Udo Kier no elenco, concorre a Palma de Ouro do evento que está na sua 72ª edição.

Em entrevista exclusiva à Tribuna do Norte, realizada em Cannes, os cineastas relembram os meses de filmagens no Estado e como cidades pequenas como Acarí e Parelhas foram escolhidas para uma produção que acaba de fazer a sua estreia na França exatamente um ano após as filmagens no sertão potiguar terem terminado.

Alguns falam em ficção científica, outros de faroeste. Afinal, como você define “Bacurau”?
Kleber Mendonça Filho: Bacurau é um filme de aventura. Inclusive isso ficou bem claro com as palmas da plateia durante a première em Cannes na última quarta-feira. É uma aventura abordando uma história que muitos de nós conhecemos: uma pequena comunidade se defendendo de invasores. Há os personagens bons, ou nem tão bons assim e os muito maldosos mesmo, mas isso reflete a nossa sociedade atual.

Como foi a experiência de filmar em Parelhas, Barra e outras cidades do RN?
Eu acho que juntando tudo nós viajamos cerca de 23 mil km, de Pernambuco a Paraíba. Na verdade entramos em Pernambuco achando que ainda estávamos na Paraíba  e depois acabamos entrando no Rio Grande do Norte, novamente sem saber que não estávamos mais na Paraíba. Quando chegamos em Paraíso disseram que havia um lugar que tínhamos que conhecer, chamado Barra [distrito de Parelhas-RN] e depois de mais tantos quilômetros dirigindo chegamos a este povoado que era absolutamente perfeito para o que queríamos. A coisa mais linda disso tudo e a forma que fomos recebidos em Parelhas e em Barra. Fomos recebidos com muito respeito. Não é fácil para a produção de um filme, que envolve de 150 a 200 pessoas, chegar em uma cidade e ter esta receptividade. Esgotamos os hotéis de Parelhas e mais 20 casas para a equipe ficar. Usamos profissionais não apenas da parte técnica. O motorista e a nossa cozinheira eram de Parelhas. Acari também foi muito importante no processo de fazer este filme. As filmagens se encerraram há exatamente um ano: acabamos de filmar “Bacurau” no dia 12 de maio de 2018 e agora estamos aqui em Cannes concorrendo a Palma de outro do festival.

 Um ano depois, vocês ainda tem contato com pessoas locais?
Sim, tenho muita saudade deste período que passamos no Seridó. Filmamos dois meses e cinco dias, mas na verdade chegamos dois meses antes por causa da pré-produção. Como você viu no filme e uma região belíssima, tem montanhas, tem verde, tem seco, lago. Tenho saudades porque foi um período muito feliz.

Os seus filmes anteriores como “Aquarius” e ‘O som ao redor” também foram rodados no nordeste. Como pernambucano, é como estar em casa?
Talvez um dia eu venha a fazer um filme em São Paulo, mas “Bacurau” e um filme  que se passa no sertão então procuramos diversas locações e terminamos em Parelhas, no sertão do Rio Grande do Norte. Então o nordeste para mim e uma escolha natural, um sentimento de como se eu fizesse um filme na minha casa.

Apesar do sucesso de “Aquarius” e “Bacurau”,  uma de suas produções (“O Som ao Redor) talvez tenha que devolver mais de R$ 2 milhões ao Fundo Nacional de Cultura. Como anda isso?
É uma ironia que nos últimos três anos produções brasileiras tenham representado o Brasil em Cannes e em outros festivais, mas o governo Brasileiro não parece achar importante investir em cultura. Esse processo, do filme  “O Som ao Redor” está na Justiça, foi ainda no governo Temer e nunca na história de incentivos culturais se viu isso, ou seja, o governo pedindo a devolução de todo o dinheiro do edital, com valores corrigidos, de um filme que na verdade foi entregue.

Diretores querem levar filme a Parelhas
Não é apenas Kleber Mendonça que guarda boas lembranças do período vivenciado em solo potiguar no ano passado. A atriz Barbara Colen, que interpreta  a personagem Teresa no filme Bacurau, diz ainda estar em contato com moradores locais.

“Falo com algumas pessoas no WhatsApp e não perco o contato porque todos foram muito acolhedores, especialmente as crianças” – relembra Barbara.

Juliano Dornelles, que divide a direção do longa-metragem com Kleber Mendonça também lembra com saudosismo as filmagens de Bacurau no Rio Grande do Norte.

“Sempre tive muita admiração pelo sertão paraibano e agora essa admiração se estende ao RN. O mais próximo que eu conhecia, antes deste projeto, era Picuí, que eu havia visitado antes de ir a Parelhas. Quando um amigo nosso de Picuí chamado Junior dos Poços, conhecedor da região potiguar, nos levou para a Barra assim que eu cheguei e desci da van eu disse: tem que ser aqui.

E mesmo depois que o filme terminou de ser feito, não perdemos o contato. A internet aliás  está aí para isso e sentimos a torcida deles pelo filme, sentimos as vibrações. Essas pessoas do Rio Grande do Norte que conhecemos durante a realização de Bacurau são diferentes de pessoas dos grandes centros urbanos, elas tem um espirito nobre, eles tem um cuidado uns com os outros, uma relação tão boa de empatia com avida. Sobra solidariedade no agreste potiguar. E é isso que está faltando por aí para construir uma sociedade melhor, com mais carinho. Quando eu trabalho com gente assim ao redor, isso me faz uma pessoa melhor, menos egoísta,  porque às vezes esquecemos disso, com as preocupações do nosso trabalho no dia-a-dia. E esse é  o meu principal agradecimento para essa comunidade de Acari, Parelhas e outros povoados que passamos durantes as filmagens de ‘Bacurau” por nos mostrar essa forma de viver muito mais sábia, muito mais saudável. Eu espero que  o mais rápido possível consigamos levar o filme para lá. Isso é uma ideia e, apesar de saber que custa dinheiro para fazer isso, mas seguimos falando sobre isso porque eu sei que, de alguma forma, eu ainda vou reencontrar esse pessoal que contribuiu tanto para “Bacurau” ter chegado onde chegou”, explica Dornelles.







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