Líbano aponta hipótese de ataque

Publicação: 2020-08-08 00:00:00
BEIRUTE (AE) - O presidente do Líbano, Michel Aoun, disse ontem que a explosão na região portuária de Beirute, que deixou mais de 150 mortos, foi causada "por negligência" ou "intervenção externa", citando a hipótese de "um míssil". "É possível que tenha sido causado por negligência ou por uma ação externa, com um míssil ou bomba", declarou o chefe de Estado, durante entrevista a jornalistas, três dias após a catástrofe.

Créditos: HASSAN AMMAR/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOEquipes de resgate trabalham no local próximo da explosão, na região do porto de Beirute, e recebem donativos da FrançaEquipes de resgate trabalham no local próximo da explosão, na região do porto de Beirute, e recebem donativos da França


Esta é a primeira vez que uma autoridade libanesa menciona a hipótese de uma ação externa ter causado a explosão.  Até o momento, a versão oficial era a de que a tragédia teria sido provocada por um incêndio em um depósito de nitrato de amônio.

O chefe de Estado, de 85 anos, disse ter solicitado na quinta-feira ao presidente francês, Emmanuel Macron, a quem recebeu no palácio presidencial, o fornecimento de imagens áreas para que possamos determinar se havia aviões no espaço aéreo ou mísseis no momento da explosão de terça-feira. Caso os franceses não tenham estas imagens, vamos pedir a outros países", completou Aoun, duramente criticado pela população, que o questiona a incompetência das autoridades e a corrupção.

O presidente do Líbano rejeitou qualquer tipo de investigação internacional sobre a explosão por considerar que "diluiria a verdade". Aoun também afirmou que é necessário revisar um regime político "paralisado". "Enfrentamos uma revisão de nosso sistema baseado no consenso porque está paralisado e não permite tomar decisões que possam ser aplicadas rapidamente: devem ser obtidas por consenso e passar por várias autoridades", disse.

Liderados pela França, vários países enviaram ajuda emergencial para o Líbano, em razão da explosão. O presidente francês, Emmanuel Macron, foi o primeiro líder político a visitar a capital libanesa e caminhar pelas ruas da cidade - antes mesmo das autoridades locais. Acusada de negligência, a classe política do país virou alvo da fúria da população.

Entre os prédios destruídos do bairro de Gemmayze, equipes de resgate reviravam escombros e voluntários removiam pilhas de vidro e detritos. O cenário caótico foi o pano de fundo da caminhada de Macron. "Garanto que a ajuda não vai para mãos de corruptos", disse o presidente francês a um homem que acompanhava a comitiva.

Macron disse que sua visita - que foi feita sem um convite do governo - era uma "oportunidade de ter um diálogo franco e desafiador com as instituições políticas libanesas". A ajuda da França, segundo ele, se concentraria nas necessidades humanitárias. "Se as reformas não forem feitas, o Líbano continuará a afundar."Na quarta-feira, dois aviões militares franceses voaram para o Líbano transportando 55 funcionários da Defesa Civil especializados em emergências, 15 toneladas de equipamentos e uma unidade móvel de saúde para atender 500 feridos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a União Europeia enviará 33 milhões de euros (cerca de R$ 208 milhões) ao Líbano para ajudar na recuperação. A declaração foi feita durante um telefonema entre ela e o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab.

Desabrigados
Outros países também mandaram ajuda emergencial. O Catar enviou hospitais de campanha, geradores de energia elétrica e ataduras contra queimaduras, enquanto a Argélia preparou quatro aviões e um navio com ajuda humanitária, equipes médicas e bombeiros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prometeu enviar utensílios cirúrgicos. A Alemanha despachou dezenas de especialistas em resgate para ajudar nas operações de busca por sobreviventes sob os escombros. Após a tragédia, o maior desafio para os habitantes de Beirute é acomodar os cerca de 300 mil desabrigados - a explosão dizimou um pedaço do centro da cidade.

O porto era um centro crucial, com 60% das importações do país fluindo por ele, em uma cidade que é o motor econômico do Líbano. As operações portuárias agora estão paralisadas e o suprimento de grãos foi destruído, aumentando as preocupações sobre a segurança alimentar dos 6,8 milhões de libaneses.