Viver
Líder, literalmente; romance de jornalista é o mais vendido de cooperativa
Publicado: 00:00:00 - 26/01/2022 Atualizado: 23:53:01 - 26/01/2022
A livraria Cooperativa Cultural da UFRN fez seu ranking de livros mais vendidos em 2021 e, entre  lançamentos nacionais e estrangeiros, um potiguar se destacou: “Lendas da Revolução” (Caravela Selo Cultural), primeiro romance do jornalista Carlos Peixoto, foi um dos mais procurados do ano, juntamente com o best-seller brasileiro “Torto Arado” (Todavia), do baiano Itamar Vieira Júnior, vencedor dos prêmio Jabuti e Oceano em 2020. Duas obras escritas por autores nordestinos, com histórias sobre personagens invisibilizadas. 

Divulgação
“Lendas da Revolução” (Caravela Selo Cultural), romance do jornalista Carlos Peixoto está em primeiro no ranking de livros mais vendidos elaborado pela livraria Cooperativa Cultural da UFRN

“Lendas da Revolução” (Caravela Selo Cultural), romance do jornalista Carlos Peixoto está em primeiro no ranking de livros mais vendidos elaborado pela livraria Cooperativa Cultural da UFRN


“Lendas da Revolução” tem a Intentona Comunista de 1935, em Natal, como pano de fundo. O livro descreve o espírito subversivo da cidade diante da ótica apresentada pelo soldado Manoel Gregório, um sertanejo despolitizado que vive sob os gracejos da capital. Carlos Peixoto encarou a procura da obra como um (bom) sinal do interesse do público pela produção literária local. “Sem falsa modéstia, acho que a edição do 'Lendas' ficou muito boa e a história contada, tanto no que tem de ficção quanto no que tem de fatos reais, merece essa atenção”, afirma à TRIBUNA DO NORTE.

Segundo Peixoto, não é certo que o cenário político do livro tenha sido o maior responsável pela sua grande procura.  “É preciso observar que o episódio histórico da Revolução de 1935 não é tão conhecido. Mas é possível fazer um paralelismo entre os governos de Vargas, entre 1930 e 35, e o desgoverno Bolsonaro, nos aspectos negativos de ambos. O primeiro desses  aspectos é que ambos se  anunciaram contra a velha política, incluindo a promessa de combate à corrupção”, explica. 

O escritor e jornalista explicou que a estratégia de utilizar um período histórico como ambiente para os dilemas e emoções dos personagens foi importante para denunciar a impotência humana diante das circunstâncias impostas. “Embora sem intenção, há uma analogia entre as revoluções e o momento pandêmico. Ambos são capazes de alterar a realidade e sentenciar os seus contemporâneos a adaptação diante do momento”, disse.

Responsável pelas ilustrações da obra, o artista e também jornalista Alexis Peixoto, ressaltou que as imagens são complementares ao processo narrativo do livro. “Uma das dificuldades se tratou da ausência de registros fotográficos para nortear o meu trabalho”, disse. Outro desafio do projeto foi não gerar anacronismos. “Se trata de um livro histórico, houve o cuidado de não adicionar elementos inexistentes para a época, como abajures na cena, incomum para a realidade Natalense na década de 1930”.

Divulgação
Carlos Peixoto afirma que “Lendas da Revolução” comprova o interesse do público pela produção literária local

Carlos Peixoto afirma que “Lendas da Revolução” comprova o interesse do público pela produção literária local


Peixoto confessa que ainda não leu “Torto Arado”, o livro que emparedou com ele no ranking local. “No momento tenho relido mais que conhecido autores ou obras novas. Não tenho como opinar sobre 'Torto Arado', só observar que a crítica tem sido bem favorável”, disse. Sobre um novo livro, ele adianta apenas que tem textos no meio do caminho, mas não sabe se eles vão ganhar o mundo. “Por enquanto são apenas projetos”, declarou. 

Identificação

Segundo José Correia Torres Neto, editor do selo Caravela, em um período marcado por circunstâncias adversas, o fato de dois romances com assuntos regionais serem os mais vendidos da livraria universitária, aponta para a característica que os une. “A identificação do público com os universos antagonistas aos seus personagens. Imergir nas duas narrativas é como explorar uma parcela da história esquecida e invisibilizada”, analisou. 

“Torto Arado” possui no seu cerne questões sociais pertinentes como o racismo, a miséria, a misoginia, a escravidão contemporânea e as reações conflituosas com a terra. Das suas personagens principais, as irmãs Bibiana e Belonísia, nasce a sintetização da força narrativa que o livro carrega. 

Livreiro há 38 anos, Isaías Andrade contou que as duas leituras, embora diferentes, o fizeram refletir sobre destino, possibilidades e circunstâncias. “Há tempos não me deparava com livros contemporâneos tão impactantes e reflexivos, acredito que a esta característica se deve o sucesso de vendas de ambos. Impactaram-me profundamente”, relatou.  

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte