Língua da boca do povo

Publicação: 2020-08-11 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

O Almirante inglês Lord Nelson, famoso estrategista das batalhas contra Napoleão Bonaparte, pode ser um exemplo perfeito para certos, ousados e intrépidos políticos da nossa província submersa. Conhecido pela sua destemida coragem, o Lord gostava muito de se jactanciar perante os seus comandados. Na terrível batalha de Trafalgar, a bordo de sua nau impertigável e altaneira, pediu ao observador da esquadra que lhe informasse a quantidade e a posição inimiga.  Do alto do navio, ouviu que a frota francesa se resumia a quarenta ou cinquenta embarcações e navegava a bombordo. Ato contínuo, ordenou ao seu ajudante para trazer-lhe a túnica vermelha para enfrentar o inimigo que já se aproximava. Explicou o condestável inglês que o casaco rubro disfarçaria o sangue, se porventura fosse atingido, a fim de não influir no ânimo da tropa da real marinha britânica. Ao cabo de alguns minutos, o Lord Nelson recebeu nova e inesperada notícia da torre de observação: “Não são quarenta ou cinquenta, milorde, são duzentos navios de guerra!!”. O Almirante Nelson quedou-se pasmo e lívido. Virou-se para o seu ajudante de ordens e sentenciou calmo, mas preocupado: “Traga-me a calça marrom”. A bravura verbal de alguns guerreiros desse semiárido barrica-se por trás de um suposto conhecimento de suas potencialidades. Não sabem que no paiol de onde saíram, continua ardendo a chama acesa ou fogo fátuo de sua irresponsabilidade no trato da coisa pública. E aí, a explosão será inevitável. Ei, garçom, uma calça marrom, por favor! Tancredo Neves já dizia que “política não se faz sem vítimas”.

02) O padre Longino, importado do Ceará, deu com os costados na cidade de Pendência. Homem bom, o velho padre preenchia as horas aconselhando as crianças não se desviarem para o mundo do vício. Naquele tempo, vício era só cachaça ou cabaré. O padre sabia, que muitos adolescentes iam tomar banho de rio somente para espionar as mulheres e mocinhas lavando roupa. Os vestidos não cobriam nada do corpo juvenil. O vigário batia muito nesse pecado via transmissão de pensamento. O povão passou a duvidar da sua masculinidade. “Esse velho só vive rodeado de menino?”, pilheriavam. Longino já não aguentava mais os comentários. Certa vez, usando o microfone de “A Voz do Município”, disse a certa altura: “Vou embora daqui! Só porque gosto de aconselhar os jovens, estão dizendo cobras e lagartos de mim. Até de “bicha” me chamaram. Por isso”, resumiu, “Se for verdade não tem ânus que aguente tanta história. Minha gente, pare com isso. Eu já tenho 85 anos!”.

03) Diógenes da Cunha Lima, advogado e poeta, iria tomar posse na presidência da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Para a sua surpresa e orgulho para qualquer intelectual da província, foi homenageado com a presença do sociólogo Gilberto Freire. Ano seguinte, o gênio de Apipucos aniversariava e Diógenes julgou-se no dever de restituir a delicadeza de sua visita. A essa altura, o poeta novacruzense e condestável do Curimataú, já envergava a pose de reitor da UFRN e as hosanas da presidência do Conselho Federal de Reitores das Universidades Brasileiras. Gilberto Freire, amado e idolatrado no Recife, recebia em sua casa uma homenagem supimpa, com toda pompa e circunstância. A dita imprensa falada, escrita e televisiva estava em profusão e documentava tudo em seus mínimos detalhes. Até o então Ministro da Educação e Cultura Eduardo Portela estava lá. Nisso, entra triunfal em cena o nosso impávido Diógenes, sentindo-se o primeiro dos homens. Após alguns passos no grande e decorado jardim, acompanhado e encandeado pelos difusos refletores, não percebeu que, a sua frente, a piscina havia sido coberta por uma lona de cor do assoalho, o que impedia o nosso Diógenes (que não conduzia a famosa lâmpada) distinguir com nitidez o chão, e, ao mesmo tempo, cumprimentar os convivas. De repente, explodiu lamurioso e sonoro aquele óóóóóóó.... De terno e gravata, Cunha Lima caiu na piscina de forma monumental e olímpica, como diria qualquer Galvão Bueno. Nadando cachorrinho para chegar a margem, o reitor era a própria imagem do desespero e o último dos homens. Encharcado tal e qual um sabiá molhado, ainda ouviu da esposa do anfitrião uma piadinha que parecia um “tiro de misericórdia”: “Diógenes, quando quiser tomar banho na nossa piscina, traga o calção...”. Içado a presença das autoridades, viu, contudo, o mestre Gilberto Freire, num fidalgo gesto, reunir ao seu redor os jornalistas para dizer em tom grave mas paternal: “Diógenes é meu amigo. É o reitor da UFRN e do Conselho Federal dos Reitores deste país. Não quero de vocês nenhuma linha sobre o assunto”. Gilberto Freire foi prontamente atendido pela imprensa pernambucana. E com a autorização de Diógenes, tanto tempo depois, o fato saiu do anonimato.


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