Laboratório da UFRN cria bengala com GPS para cegos

Publicação: 2019-12-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Hoje no Brasil, existem 1 milhão e quinhentos mil cegos. Se percebermos ao redor, a acessibilidade ainda não é eficiente. Em pleno século XXI, quando a tecnologia já  poderia atuar na mobilidade,  são poucos  os exemplos práticos. Atualmente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, estima-se que a cegueira afete 39 milhões de pessoas em todo o mundo e que 246 milhões sofram de perda moderada ou severa da visão.

Sidney Trindade mostra o protótipo do projeto Olho Biônico, uma bengala com GPS, desenvolvida em laboratório da UFRN
Sidney Trindade mostra o protótipo do projeto Olho Biônico, uma bengala com GPS, desenvolvida em laboratório da UFRN

Na tentativa de melhorar a vida dessas pessoas, um grupo de pesquisadores do Departamento de Engenharia Biomédica da UFRN, criou um protótipo intitulado “Bengala Inteligente para Auxílio à Locomoção de Deficientes Visuais”, a bengala 4.0, dentro do projeto “Olho Biônico”, do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da UFRN

Sob a forma de uma bengala eletrônica, o sistema permite o reconhecimento e identificação de objetos na linha de cintura e cabeça, bem como desníveis e pessoas. A informação é repassada por meio de mensagens de voz ou tátil, que informa a que distância o mesmo se encontra ou a que velocidade se aproxima.

Com um sistema de GPS que possibilita aos familiares obter a localização geográfica do deficiente visual, permite ao mesmo fazer denúncias sobre a ocorrência de obstáculos que são enviadas, armazenadas e visualizadas em um sistema remoto.

Toda a pesquisa teve início a partir dos relatos de pessoas, principalmente do pesquisador Sidney Soares Trindade, que contava sobre a dificuldade do dia-a-dia nas ruas da cidade. “De acordo com os relatos percebemos que a tecnologia poderia ajudar. E um dia o professor Ricardo Valentim me chamou na sala e sugeriu de tentar resolver o problema do Sidney aplicando os conceitos que vínhamos aplicando na Engenharia de Computação, misturado ao sistema de informação”, lembra o professor. A partir disso, foram pensadas diversas propostas, descartaram tipos de sensores e experimentaram diferentes formas até chegar ao protótipo da bengala. Sem nenhum tipo de financiamento direto, o protótipo tem como função tecer uma ponte entre a ciência produzida dentro da universidade com a sociedade.

A pesquisa é vinculada a dois programas de pós-graduação, ao de Engenharia Elétrica e o de Computação, além de alunos do mestrado em Gestão e Inovação em Saúde.

Protótipo
“Acontece muito de quando estamos andando na rua, vários obstáculos acima da cintura não são perceptíveis com as bengalas tradicionais. Batemos com a cabeça em galhos de árvores, placas de trânsito, além de outros obstáculos”. A fala é de Sidney Trindade, considerado o pai do protótipo. Ele que era em 2014 estudante e um dos pesquisadores do grupo, hoje é técnico concursado na UFRN formado em tecnólogo em desenvolvimento de análise de sistema pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Toda sua história tem ligação com as mudanças para além dos muros das instituições. “Participei com a opinião como usuário efetivo durante o processo de construção do protótipo. No início a bengala ficou um pouco pesada e foram vários testes. Sugerimos algumas mudanças importantes até chegar no protótipo hoje”. Para ele, deveria existir um mapeamento maior, inclusive do Ministério Público em relação à acessibilidade. “Para quem é cego, sair de casa é um desafio diário. As pessoas não tem educação para respeitarem as pessoas com deficiência, não existe o respeito às faixas de pedestre, ainda tem muita coisa para melhorar. O protótipo é um instrumento fundamental para essa mudança”, acredita Sidney.

Para ele, a criação da bengala é um marco importante nesse processo de mudança porque traz autonomia para quem não enxerga. “Primeiro precisa convencer a família que você é capaz de andar sozinho e quanto mais barreiras arquitetônicas e outros tipos de barreiras é mais complicado convencer as pessoas que podemos sair e voltar sem ter sofrido algum acidente e voltar de ileso para casa”,a firma. “Existem pessoas que não compreendem ainda nosso espaço. Não existe investimento em muitos lugares para melhorar a acessibilidade. É fundamental que nos vejam como uma pessoa comum”,  reflete.

O professor Pablo Holanda, que faz parte da pesquisa desde o início. E hoje com a patente se assusta com a evolução da pesquisa. “A UFRN é formadora e o nosso papel é criar e desenvolver protótipos viáveis.  Fizemos o protótipo e mostramos que era viável fazer com poucos recursos”, afirma o professor.

Atualmente o professor Ernano Arraes integra o quadro da pesquisa para a melhoria da bengala. “Estamos experimentando novos sensores, tempo de bateria maior e novo modelo mais leve”, afirma o professor. Se for comercializado hoje, a bengala seria vendida de R$ 60 a R$ 100 reais e no mercado existem bengalas eletrônicas com o custo de mais de mil reais.

No que diz respeito à viabilização do equipamento, Valentim falou que já há uma busca por parte do setor produtivo para tornar a bengala um produto. “Nós já fomos procurados por empresas espanholas e de outros lugares. Agora com a proteção, e com a questão da patente, que é muito importante para nós, nós vamos começar a fazer um trabalho de divulgação disso”, afirma. “Várias frentes  que devem ser capitaneadas agora, inclusive o próprio professor Danilo Nagem que coordena a base de pesquisa na área de tecnologias assistivas, já está providenciando novos aperfeiçoamentos nessa bengala”.

O projeto tem como pesquisadores Ricardo Alexsandro de Medeiros Valentim, Antonio Higor Freire de Morais, Pablo Holanda Cardoso, Rodrigo Dantas da Silva, Sidney Soares Trindade, Philippi Sedir Grilo de Morais, Hélio Roberto Hekis, Robinson Luis de Souza Alves e Gláucio Bezerra Brandão.

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