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Legado da estilista Zuzu Angel é tema de projeto no Itaú Cultural
Publicado: 00:00:00 - 26/03/2014 Atualizado: 20:43:09 - 25/03/2014
Flavia Guerra

Durante o trabalho de pesquisa da Ocupação Zuzu Angel, que toma de assalto o Itaú Cultural em 1º de abril (e permanece em cartaz até dia 11 de maio) - data em que, ironicamente, o golpe militar de 1964 completa 50 anos -, uma das pesquisadoras encontrou uma latinha nos arquivos da TV Cultura. Sem etiqueta ou qualquer outra identificação, continha apenas os dizeres: Nova York, 1971. A pesquisadora, então, pediu para ver o material e o que ela suspeitava se confirmou. 

Tratava-se do lendário desfile-protesto que Zuzu realizou na embaixada brasileira dos EUA, no auge da ditadura militar no País. “São quatro minutos de registros que a CBS americana fez na época. A própria TV Cultura nunca usou o material, e agora vamos mostrar o vídeo pela primeira vez”, conta Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura sobre o desfile que simboliza a luta que Zuzu travou ao exigir seu direito de enterrar o filho Stuart Angel Jones, militante do grupo revolucionário MR-8, morto em junho do mesmo ano, sob tortura, no CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica).

Stuart foi dado como desaparecido político, mas Zuzu nunca aceitou esta versão e lutou contra a ditadura até sua morte, em  1976, em um acidente de carro suspeito, cujas condições até hoje não foram totalmente esclarecidas. “O vídeo é mudo, filmado com um estilo quase expressionista”, conta Valdy Lopes Jr, que assina a direção de arte da mostra e dividiu a curadoria da exposição com Ferreira, além da jornalista Hildegard Angel e de Valéria Toloi, gerente do Núcleo de Educação do Itaú Cultural. São preciosidades como esta que virão a público na primeira Ocupação dedicada a um ícone da moda.

Ação multimeios e multimídia, a Ocupação é uma espécie de exposição que se move e reúne mostra, performances, ciclo de cinema e encontros com especialistas e estilistas, entre outras atividades, como performance de atrizes que, caracterizadas como Zuzu Angel, vão encenar trechos do livro Minha Maneira de Morrer e encená-los para o público que visitar um dos quatro andares do Itaú Cultural. Ao todo, em mais de 400 peças, o público vai poder percorrer os caminhos que transformaram a mineira de Corvelo em uma das maiores estilistas, e ativistas, que o Brasil já teve.

Em tempos em que a moda era considerada ‘arte de butique’, Zuzu realizou um dos primeiros desfile-protesto da história, ousou pensar sua moda como produto para o grande público e pensava em identidade de marca muito antes de as roupas começarem a receber etiquetas. Ela, aliás, foi a primeira a costurar etiquetas de sua marca em uma das tantas peças icônicas que criou tanto para mulheres da alta sociedade quanto para os jovens que adoravam suas camisetas estampadas com o anjo, sua marca registrada. “Foi revolucionária, pensou o prêt-à-porter como poucos, costurou para a mulher que trabalhava, colocou as filhas para trabalhar com ela, criou os filhos praticamente sozinha, pois o ex-marido voltou para os EUA depois da separação”, explica Lopes.

Na Ocupação, cerca de 40 looks da estilistas estarão expostos. Há quatro vestidos de noiva, nove trajes que ela usava como símbolo do luto pela perda do filho, três vestidos que as modelos americanas usaram no desfile de Nova York e dois exemplares da série pastoral. Há também mais de 30 itens como camisetas, bolsas, porta-óculos, fivelas. Em cada um, o singelo anjo faz contraponto com a violência que tomava conta de sua vida. Tal violência que estampa uma das peças mais interessantes da exposição.

Em um vestido longo de algodão, formas amplas e mangas volumosas, ao lado do anjo, de delicadas flores, árvores, casinhas bucólicas, sol e passarinhos, estão estampados soldados, tanques de guerra, quepes militares e canhões. “É incrível o trabalho dela, de bordar símbolos militares com uma delicadeza incrível. Os soldados são palhaços, o sol nasce quadrado, o tanque militar parece um desenho infantil. Era uma das formas de protestar e questionar o regime”, comenta Valéria. “Ao mesmo tempo, gostava de ser chamada de costureira e pensava a moda em 360º, criava desde vestidos de gala para estrelas como Joan Crawford e Liza Minnelli, até cintos, bolsas e objetos para casa, como porta-copos e lençóis. Ela foi pioneira”, contam os curadores.

Desfile-protesto
Esse vestido branco é uma das tantas peças que Zuzu desfilou em Nova York e até hoje não tinham sido vistos na passarela. Por isso que o vídeo do desfile-protesto acrescenta um capítulo na compreensão da vida de Zuzu. Engenhosa, ela, que sabia ser proibido por lei criticar o País no exterior, organizou seu desfile em um território tecnicamente brasileiro, a casa do embaixador brasileiro em Nova York. Assim, ao desfilar sua revolta, ela não seria acusada de tecer críticas negativas ao Brasil fora dele. A estratégia surtiu efeito, seu protesto e sua luta por justiça e pelo corpo de Stuart ganharam as páginas dos jornais internacionais, que propagaram ao mundo o protesto estampado em seus vestidos.

Suas peças delicadas, e até mesmo lúdicas, contrastavam com a aridez dos temas bélicos. Uma atitude que impressiona e emociona.

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