Leilane Assunção, primeira professora universitária transsexual do Brasil morre em Natal

Publicação: 2018-11-14 00:00:00
A historiadora, professora e ativista Leilane Assunção, 35 anos, morreu na manhã desta terça-feira (13), por volta das 5h, no Hospital Giselda Trigueiro, em Natal. Leilane estava internada há um mês na unidade em decorrência de uma infecção causada por um fungo, chegou a melhorar, mas foi levada para a UTI no fim de semana e não resistiu. Ela será enterrada nesta quarta-feira (14) no cemitério do Bom Pastor, zona Oeste de Natal.

Graduada em História e Doutora em Ciências Sociais, Leilane foi a primeira professora universitária transexual do país, ativista da pauta LGBT e defensora da descriminalização das drogas. De família de origem evangélica e com cinco irmãs, a professora foi velada na tarde desta terça, na zona Leste de Natal, com a presença de amigos e ex-alunos.

Professora substituta da UFRN entre 2013 e 2017, Leilane estava desvinculada da instituição desde fevereiro deste ano. Em uma postagem na sua página pessoal do Facebook, denunciou que nunca se sentiu bem recebida no ambiente acadêmico por ser transexual e usuária declarada de maconha. Ela também externou o desejo de se retirar do Brasil. Desde então, estava desempregada.

Por conta da sua condição, Leilane sofria com dificuldades financeiras. Uma 'vaquinha' online foi criada para arcar com custos médicos e contra o despejo da residência onde morava.

Nas redes sociais, ex-alunos  da professora e coletivos ativistas dos quais ela fazia parte lamentaram o falecimento. “Natal amanheceu de luto com a partida precoce da lutadora Leilane Assunção. Militante LGBT, feminista e antiproibicionista, Leilane foi a primeira doutora e professora universitária transexual do país”, escreveu o coletivo Delta 9, que pauta a legalização da maconha. A ex-aluna e amiga, Telma Silva, disse que “Leilane era uma professora inspiradora para mim e partiu muito cedo devido ao desgosto de ser sabotada, mesmo tendo capacidade para ocupar os cargos que pleiteava”.

Leilane orgulhava-se do título de doutora conquistado como transexual no Brasil, país com índice de uma pessoa trans assassinada a cada 48 horas, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). A obtenção foi em 2013, com a apresentação da tese “Clara Nunes como obra de arte: a epistemologia das ciências humanas a partir da cultura musical”, sobre a cantora brasileira Clara Nunes. Segundo amigos, pretendia lançar a tese em livro.

Ativismo
Em 2006, Leilane Assunção quase foi reprovada ao defender o projeto de mestrado. Um dos professores da banca de avaliação deu nota 2 para a estudante, que ficou na média por conta das outras duas notas – 9 e 10. Segundo contou à TRIBUNA DO NORTE em entrevista no ano de 2010, aquela nota não teve motivo pedagógico e teria sido preconceito por ela ser transexual.

O fato é um exemplo do preconceito sofrido por Leilane Assunção na academia. Na graduação, formou-se como Leandro – nome de batismo. Depois que assumiu a transexualidade, em 2005, enfrentou uma grande resistência de aceitação do seu nome social. Somente em 2011, depois da aprovação de uma resolução nos conselhos superiores da universidade, pode utilizar “Leilane Assunção” na academia.

Diante do preconceito, Leilane sempre atuou como ativista das causas LGBTs. “Quando a gente é trans, a militância não é uma opção. Ou a gente luta, ou a gente morre”, costumava declarar. Acreditava que a universidade era um lugar violento para trans, mas que “se a escola era um lugar violento, a rua o seria ainda mais”.

Em março de 2017, Leilane venceu uma ação na Justiça contra uma servidora da UFRN que, segundo ela, negou -se  a lhe  entregar  as chaves da sala de aula por não acreditar na sua condição profissional.

Outra frente de atuação era pela descriminalização das drogas. O ativismo foi iniciado após ela perceber um grande preconceito contra os usuários, embasados em argumentos que considerava rasos. Para ela, a legalização da maconha interromperia a perseguição contra usuários que a utilizam por recreação. “A polícia está perseguindo adolescentes nas periferias por causa de maconha e crack. O governo gasta mais dinheiro em prender pessoas do que em educar”, afirmou à TRIBUNA DO NORTE em uma nova entrevista, em 2017.



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