Lembranças de Sandoval Wanderley

Publicação: 2018-11-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Na gaveta dos papéis desarrumados encontro uma carta do jornalista paraibano Osias Gomes me enviada em julho de 1972, lá se vão 46 anos. Jornalista, advogado, professor, escritor, Osias (1903 – 1994) foi diretor do jornal “A União”, de João Pessoa, onde começou a trabalhar com 15 anos de idade, professor-fundador da Faculdade de Direito de João Pessoa ( seu diretor), procurador Geral do Estado, presidente do Tribunal de Justiça e secretário de Interior, Justiça e Segurança Pública durante o governo de José Américo de Almeida. Pertenceu a Academia de Letras da Paraíba. Foi na redação e “A União”, começo dos anos 30 que conheceu Sandoval Wanderley, o ilustre jornalista, dramaturgo e político norte-rio-grandense. Osias conta toda essa história:
“João Pessoa, 16 de julho, 1972.

Prezado confrade W.M.:

Na “Tribuna do Norte” de 11 da corrente acho sua nota a respeito da morte de Sandoval Wanderley, e ela me comove até ás lágrimas. Eis que também ele se foi. Quando a gente envelhece, não raro tem a impressão de que é aquele peão deixado em pé no boliche, enquanto os demais são derrubados pela bola implacável sacudida com mão forte. Nesta vida vamos perdendo de um em um os amigos mais aconchegados, estejam ou não perto de nós no espaço geográfico.

Sandoval Wanderley era para mim um amigo verdadeiro na sua discreção e até no silêncio que guardava para comigo, desde que, em 1930, se recolhera à cidade de Natal, após a temporada gasta aqui em João Pessoa, numa espécie de vilegiatura política, ao lado de Café Filho e a serviço da ideologia liberal.

Nunca visitei, entretanto, o arejado burgo das ribeiras do Potengy que não o procurasse para um saudoso abraço de reencontro. Era uma devoção essa procura, e que se completava com o aflitivo rebusque de Câmara Cascudo e João Medeiros Filho, além da escalada fluvial até a Redinha, de bote ou de lancha-ônibus, a fim de retemperar o espírito com a paisagem marinha. Os lugares para mim sempre tiveram o seu encanto concentrado nas personalidades que abrigam. Em Campina Grande era Hortência Ribeiro. Em Recife e Mauro Mota.

O jornalista e teatrólogo que vocês perderam esteve ligado a Paraíba no rumoroso ano de 1930, como bem relembrou o jornal no necrológio. E não foi uma ligação superficial. Chegou aqui encamboado com Café Filho e ambos exilados pelo governador Juvenal Lamartine em virtude de sua atuação política. Aqui trabalhou comigo n’A União, redator dessa folha ao lado de Matias Freire, Sinesio Guimarães, Otacílio de Albuquerque, Dustan Miranda, Alfeu Domingues, Antenor Navarro e alguns outros. Escrevia notas e comentários acera dos fatos mais importantes da campanha. E que bem o fazia! Uma das maiores alegrias da minha vida tive-a quando, falando a João Pessoa, consegui incluir o seu nome na folha de pagamento dos redatores avulsos, com os minguados vencimentos de duzentos e poucos mil réis.

Estranhei muito quando depois Café Filho, galgando a Presidência da República, não levou Sandoval para ocupar na metrópole do país qualquer lugar de destaque, que ele saberia honrar como ninguém mais.

O retrato que o brilhante matutino pintou de Sandoval Wanderley me parece fiel. Na sua humildade, no trato lhano que tinha para os companheiros. Na capacidade mental.

A dor que o Rio Grande do Norte sentiu com a perda do grande jornalista e homem de teatro fica repartida com a Paraíba e com alguns dos remanescentes do passado aqui fincados, pelos motivos que deixei expressos.

Abraços cordiais.

Osias Gomes”

Dicas de Mário Dourado
Carta de Mário Dourado (1936-2008), dos nossos principais cronistas esportivos, também empresário do comércio, querido amigo derna do ginasial do “7 de Setembro”, do professor Antônio Fagundes, passando pelo tempo de recrutas do Exército e redações de jornais, vizinhos da Ribeira.  Está datada de 21 de agosto de 1985:
“Caro amigo Woden (do “7” e do velho Exército).

Bom dia
Foi por sua causa que fiz praseirosamente o “AXIFONE”. Sim, às vezes comprava a TN, às vezes não. Assim, fazendo a assinatura sua leitura diária é uma obrigação. 1º as manchetes esportivas, em seguida o Jornal de WM e tem mais: às vezes quando a página esportiva está sem novidades em termos de manchetes, faço como ouvinte de rádio, leio um pedaço de esporte e em seguida um tópico do WM e assim sucessivamente.

Lembrando o velho João Machado, aí se foi a linguiça. Morreu o grande João Batista de Morais (J. B. MORAIS, da Travessa Aureliano, aqui na nossa Ribeira). Aliás, quando se falava de BODE sempre eu lia no Jornal de WM algo sobre o sr. João. Estamos aí em WM com esta belíssima exposição que vamos apreciar, sentindo a ausência de um grande “Bodeiro”. Tenho quase certeza de que o amigo não tomou conhecimento da morte de J.B. MORAIS senão, à sua maneira, no seu estilo de escrever, aquele grande norte-rio-grandense estaria recebendo a sua homenagem.

Verdadeiro campeão, recordistas de  AVAIS no Banco da Lavoura de Minas Gerais, do Banco do Povo, do Banco do Brasil e da Cooperativa do Prof. Ulisses de Goes, Seu João não avalizava apenas para colocar seu nome no papel para garantir um negócio, e, sim, para servir. Fui LAVOURENSE ao lado de Talvacy, seu chefe na carteira de cadastro daquele banco e éramos testemunhas ‘confidencial’ daquele contexto.

Morreu seu João e os meninos estão aí vitoriosos: Fernando, o engenheiro, o Marcelo, médico, e uma moça que faz medicina. Tem também o registro da unidade familiar, a amizade entre irmãos; o esforço de seu João e dos irmãos, ajudando a grande inteligência de Geraldo, hoje Contra-Almirante de pijama e já brilhando também na vida civil no Rio.

Caro amigo Woden, caso aproveite para uma bucha as dicas acima, fico apenas como um seu informante, uma fonte, sem necessidade de menção ao meu nome, até porque, tenho certeza que tens melhores do seu João para um relato a seu respeito.

Um abraço do Mário Dourado. ”

Poesia 
“Quando nasci / chegou um anjo / barroco e disse-me: / - vai poeta ser maldito / pelo mudo” (do poema Torquateana, de Volontè, em seu livro Beba da chama)



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