Lembranças de uma casa bem frequentada

Publicação: 2018-01-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Para Daliana Cascudo, não há lugar que mais lhe traga boas lembranças do que a sala de estar da centenária casa nº 377, da Avenida Câmara Cascudo, na Cidade Alta. De presidente do país a humildes pescadores do canto do mangue, passando por celebridades como a modelo Roberta Close ou mestres da cultura popular, como Manuel Marinheiro, todos já sentaram naquela sala de estar para conversar com Luís da Câmara Cascudo. E foi observando essas visitas, sem deixar de lado as travessuras de criança, que Daliana cresceu, se sentindo bastante à vontade diante dos mais variados tipos de pessoas que entravam em sua casa para conversar com o ilustre avô.

“Eu cresci com esse entra e sai de gente em casa. Ela vivia cheia. A gente estava almoçando e de repente alguém chamava na janela pra vir entregar um peixe pra vovô, ou outra pessoa querendo visitá-lo para fazer pesquisa. Todas as minhas memórias de infância são naquela casa”, diz Daliana, que saiu de casa aos 20 anos, quando casou. Hoje, aos 54, ela mantém a rotina diária de ir a casa em que nasceu, desta vez para administrar o Instituto Câmara Cascudo, de onde é a diretora.
Conhecida como a casa de Cascudo, hoje Instituto, é o lugar onde Daliana Cascudo mais viveu aventuras
Conhecida como a casa de Cascudo, hoje Instituto, é o lugar onde Daliana Cascudo mais viveu aventuras

Conhecida como a casa de Cascudo, não se pode falar do lugar sem lembrar de quem dedicou a vida a zelar por ela: Dona Dáhlia. Enquanto o marido se dedicava aos livros, era ela que atentava para a manutenção do imóvel. Afinal, a casa foi herdada de seu pai, o desembargador Teotônio Freire. O carinho de Dona Dhalia pelo imóvel a fez permanecer no lugar mesmo após o encantamento do marido, em 1986, mantendo a rotina de quando Cascudo vivia ali. E ela fez isso por 11 anos, até falecer no próprio aposento em que nasceu.

Nesta entrevista, Daliana lembra de como foi crescer entre os livros e visitas de Cascudo, da importância de Dona Dáhlia, da saga para restaurar a casa que é tombada pelo Iphan, além do trabalho atual com o Instituto que hoje cuida dos direitos autorais da vasta obra daquele que é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve.

O papel de deseducar


Cresci na casa de vovô. Mamãe, quando casou, continuou morando lá. Seu quarto é exatamente onde funciona a sala administrativa do Instituto e o quarto da gente era lá dentro da casa, perto de vovô. Ele dizia que pai era pra educar e avô pra deseducar. Essa máxima ele seguia. Tudo que os filhos não puderam fazer, ele permitiu que os os netos fizessem, como entrar na biblioteca. Eu brincava e estudava lá.

Casa Cheia


Quando eu era criança vovô já estava aposentado da UFRN. Sua rotina era dormir a manhã inteira e só acordar pra almoçar. A tarde era reservada para receber as visitas. Eram várias no dia. Naquela época se dizia que quem vinha à Natal tinha que visitar o Forte dos Reis Magos e vovô. Eram os dois monumentos da cidade. Ele recebia turmas de estudantes, intelectuais de fora, gente humilde. Não entendo como esse movimento nunca me incomodou. A gente sai do quarto com a roupa de cama mesmo, ia na cozinha e lá estava alguém com vovô. Na minha cabeça a vida de uma casa era assim. Só vim compreender o porque  daquilo no Ensino Médio. Comecei a escutar os professores falando do autor da história do RN, da história de Natal, o maior folclorista do país. Dai que entendi quem de fato vovô era.

Roberta Close


Mamãe organizava desfiles de moda em Natal. Num desses eventos, Roberta Close veio para desfilar. E claro que mamãe a levou para conhecer Cascudo. Ela a apresentou como uma modelo. Vovó sabia da história dela. Que linda, alta, coisa boa, trocaram beijinhos. Vovó só olhando a presepada. Quando ela foi embora, vovó contou pra ele. Sabe aquela pessoa que você ficou todo encantado? Pois é um rapaz. E era? Tem problema não, que não vi os documentos dele. Ele não se chocava com nada.

Figueiredo


Foi um reboliço, fecharam a rua, veio segurança pra dentro da casa, revistaram os cômodos. Veio uma comitiva grande, com fotógrafos. Vovô era muito amigo do irmão de Figueiredo, Guilherme, escritor com quem ele se correspondia. A preparação para receber Figueiredo foi muito engraçada. A primeira grande briga dele com vovó foi por isso. Ela queria que ele vestisse um terno, algo formal. E ele queria ficar com o pijama de sempre, com o qual recebia todos que o visitavam. No final da confusão, ele chegaram a um acordo. Ele vestiu uma camisa de botão, a calça do pijama e o chinelo. Imagine como ficou massa!

Conversa por bilhetinho


Não lembro de vovô escutando. Quando chegou da África, em 63, já veio com uma otite, que foi mal curada levando-o a perder a audição. Então, quando chegava as visitas, ele não ouvia nada. Sempre tinha na mesa um bloquinho com caneta para anotar perguntas. Na conversa com Figueiredo vovô perguntou quem teve a ideia de trazê-lo para conhecer um velho burro. Figueiredo respondeu no bloquinho: “A cabeça de Figueiredo às vezes tem boas ideias”. Temos esse bilhete guardado até hoje.

Vovó Dhália


Normalmente se associa a casa ao nome de vovô. Mas essa casa não era de vovô, era do pai de vovó, o desembargador Teotônio Freire. Toda a vida dela foi dentro dessa casa. É algo tão difícil de se dizer de alguém nesses tempos de desapego. Ela nasceu aqui, casou aqui, teve os filhos aqui e morreu aqui. Era a casa dos pais dela.

Continuidade do trabalho


Com o falecimento de vovô, em 1986, vovó continuou morando nessa casa. Toda a correspondência endereçada a vovô ela passou a responder com o nome dela e até as visitas, que nunca pararam, ela atendia. No que estava ao seu alcance, ela continuou o trabalho dele e fez isso até falecer, em 1997, na casa em que nasceu.

Destino da Casa


Com a morte dos meus avôs, tio Fernando pensou em vender a casa, o Estado chegou a fazer uma proposta, mas mamãe era contra. Mamãe adquiriu a parte do meu tio e começou a pensar numa instituição. Deixamos uma pessoa cuidando da casa, limpando e recebendo as visitas, que continuaram. A casa ficou aberto para a população informalmente, mesmo sem estrutura para isso.

Instituto Câmara Cascudo


No final de 2005, papai começou a fazer a restauração da casa. Ela estava com um infestação de cupim. O teto poderia cair nas nossas cabeças. Praticamente todo o madeiramento da casa teve que ser trocado. Papai e mamãe venderam o patrimônio deles para fazer esse restauro. Tudo foi feito com recursos próprios. Foi um trabalho dificílimo que levou quatro anos. Quando terminou, já estávamos com o instituto formalizado. Antes de falecer, mamãe tomou uma belíssima decisão. A parte que cabia a ela dos diretos autorais dos livros de vovô ela reverteu diretamente para o instituto. Esse tem sido a principal fonte de manutenção da casa.

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