Leontino Filho, ''Anatomia do ócio'' (2018, ARC Edições/Queima-Bucha, 144 p.)

Publicação: 2018-06-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves, Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Excetuando poemas esparsos e uma coletânea nos anos 2000, o cearense Leontino Filho (radicado no RN desde fins de 1980) não publicava uma obra inédita de poesia há exatos 30 anos(!). Dividida em 05 seções, 10 poemas em cada – versos curtos e de breve extensão, em sua maioria –, o livro tende ao semblante conceitual bem presente na poesia contemporânea, oscilando entre um lirismo mais direto e outro mais elevado. No primeiro campo estão versos como “Ofício” (os braços tecem os venenos da alma/abraços e barcos/de adeuses/infinita nostalgia/hoje/rachadura), o platônico “Murmúrio”, de versos como “cozinhar sonhos numa caverna/onde páginas de luz / (uma a uma borradas de solidão) /são lágrimas de abandono”, e o sufocante “Selo”. Do lado mais elevado estão textos como os semi-longos “Pedra,ainda chão” e “Três músculos e um nó”, além da seção intitulada “Saliência dos afetos”, não por acaso cada poema dedicado às predileções literárias do poeta (como Orides Fontela e Foed Castro Chamma). Curiosamente, o poeta perde um pouco de força imagética, fato essencial à (boa) poesia, na abertura – “Espessuras”, tratando dos quatro elementos naturais (água, ar, fogo, terra) – e no derradeiro poema, o exercício metalinguístico de estribilho pós-concreto em “De (não) poder ser palavra”, mas ainda assim contendo versos como “Pode a palavra/[...]/dividir carícias/ostentar histerias / [...] /dilacerar auroras”. No geral, o ócio – inimigo do capitalismo – aqui anatomizado faz com que Leontino não espere mais 30 anos para lançar outro livro de poesia.

CELLINA MUNIZ, “Contos do mundo delirante” (2018, Ed!Bar/O Potiguar, 80 p.)
Nos onze contos do último livro da sua dita trilogia, a cearense (radicada em Natal e professora de Letras na UFRN) explora estórias extraídas do cotidiano mais entranhado e esquecido. Seus personagens são pessoas comuns que mais parecem o próprio porteiro do prédio, tão quieto em sua voluptuosidade em “O operário-padrão”. Ou a camareira Mara no hotelístico “Ai, Pagu!”, cuja arrumação de um cômodo terminou em uma leitura pessoal revolucionária a partir do livro deixado em meio ao quarto de um hóspede. No trio de protagonistas de “Ardência”, uma trabalhadora de uma fábrica de botões se vê às voltas com sua vizinha idosa e o neto abandonado pelos pais, gerando um conflito delirante sobre qual atitude tomar. O surrealista “Quem aguenta mais um golpe?” segue além do que o título sugere, incluindo Câmara Cascudo como personagem, enquanto o nada romântico “Nada de novo sob a lua” tira o febril narrador em noite de bebedeira no bar da esquina e o traficante Denguinho (!) em diálogos quebradiços. Já o metalinguístico “Algaravias e morondangas” perde força na trama sobre um escritor solicitado a enviar “um conto inédito para sair na revista” em meio a um enredo psicológico de pouco impacto. As desavenças entre o amor, a internet e certa escatologia surge no derradeiro ‘Catrevagens e cotovias”. E eis o mundo de pensamentos delirantes da autora, incluindo orelhas assinadas por Lima Barreto e Clarice Lispector. Uma graça.


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