Liana Berúcia: “Não há interesse dos gestores em ter cirurgião vascular na rede do SUS”

Publicação: 2019-06-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Aura Mazda
Repórter

Dor ao caminhar é um importante sinal de que a circulação arterial dos membros pode estar comprometida. O alerta é da  cirurgiã vascular e presidente da  Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular no Rio Grande do Norte, Liana Berúcia. Se for acompanhado por um cirurgião vascular corretamente, o paciente pode evitar a amputação de um membro. “Por isso, é importante que o acesso ao cirurgião vascular seja cedo e que consiga fazer o tratamento clínico que precede o cirúrgico. A gente só vai indicar cirurgia se tiver ferida aberta no pé”, explicou a médica. A doença vascular periférica (DVP) é resultado do estreitamento ou da obstrução dos vasos sanguíneos arteriais, que são responsáveis por carregar o sangue até as extremidades do corpo, como braços e pernas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, o acometimento afeta de 10% a 25% da população acima de 55 anos. Cerca de 70% a 80% dos pacientes não apresentam queixas, o que pode dificultar o diagnóstico e atrasar o tratamento. Na rede pública, o atendimento é deficiente, alerta a médica. Confira a entrevista:
Liana Berúcia alerta para o baixo número de profissionais especialistas na rede pública. O problema é maior no interior do Estado
Liana Berúcia alerta para o baixo número de profissionais especialistas na rede pública. O problema é maior no interior do Estado

O que é uma doença vascular?
O cirurgião vascular cuida da circulação periférica. Vamos raciocinar que o coração é uma bomba d'água, e as artérias e veias são os canos por onde essa água passa. O cardiologista cuida da bomba e o cirurgião vascular cuida dos canos, usando essa analogia. Tudo que sai do coração e leva sangue para o organismo é artéria. Tudo que leva sangue de volta para o coração é veia. Nos tratamentos, as doenças das artérias e veias e, dependendo do tipo de circulação que é afetada, vão ter sinais, sintomas e conseqüências diferentes para cada paciente.

Quais os fatores de risco que aumentam as chances de uma pessoa desenvolver uma doença vascular?

A doença mais comum entre as venosas são as varizes. Doença hereditária que aumenta a chance de ocorrer por fatores externos, como passar muito tempo em pé ou sentado na mesma posição. Algumas profissões têm mais chances de desenvolver do que outras, como professor, cabeleireiro, policial, que passam muito tempo em pé. Também hábitos de vida como sedentarismo, excesso de peso, a cada gravidez tende a ter mais e mulheres tendem a ter mais do que homens. Das doenças arteriais, as mais comuns seriam as obstruções das artérias, que as causas mais comuns são diabetes, pressão alta e tabagismo. Quando ocorre a obstrução das artérias falta sangue em alguma parte do organismo.

Como é o cenário do Rio Grande do Norte em relação a essas doenças que atingem veias e artérias? Segue a tendência do Brasil?

O perfil do paciente não muda muito. O que preocupa mais a gente é a qualidade da assistência prestada a essa população. Falando exclusivamente de diabéticos, que é o tipo de paciente mais grave, metade da população diabética não sabe que é. Tem a parte da negligência pessoal de cada um, mas tem também o fato da dificuldade de ter acesso a um atendimento adequado, a fazer exames e isso em nosso Estado é muito evidente. Existem pessoas, principalmente no interior e de classes menos favorecidas, que nunca foram a um médico fazer um exame. A diabetes diagnosticada e controlada traz conseqüências sérias, uma diabetes não controlada ou não diagnosticada trará conseqüências piores ainda.

A varize está presente em boa parte da população. Além do incômodo estérico, a doença apresenta riscos à saúde?
Podemos considerar que boa parte da população tem algum grau de doença venosa, como varizes. Essa doença não tem cura, e o quadro mais grave é ferida aberta que também não cicatriza porque a circulação é ruim. O paciente de varize tem que ser tratado antes que chegue em um quadro mais grave, porque existem limitações para o tratamento nesses casos e mesmo que consiga o resultado não é satisfatório.

O atendimento público para a especialidade vascular é satisfatória? Existem profissionais suficientes?

Pensar em especialista por habitante eu acredito que tenha, mas a grande maioria concentrada em Natal. Poucos especialistas nas cidades do interior, apesar do aumento nos últimos anos. A grande questão é que não existe serviço público dessa especialidade no interior. Não há interesse dos gestores de saúde pública em ter cirurgião vascular na rede do SUS.

Qual a diferença para um paciente atendido por um médico generalista e um especialista em cirurgia vascular?

O diagnóstico de diabetes é dados por um clínico, geralmente, e ele encaminha para um endocrinologista casos de diabetes mais complicadas, de difícil controle ou de longa data. O paciente diabético, principalmente, após dez anos da doença começa a apresentar lesões vasculares que, inicialmente, são assintomáticas. Aí é importante a consulta regular com o cirurgião vascular pelo menos uma vez ao ano, para ter condições de avaliar com detalhes como está essa situação e o que precisa ser feito para melhorar a circulação, evitar que a situação piore e lesões nos pés para evitar perda de membros. Isso é importante não só no paciente diabético, mas falando desse especificamente, ele vai ter lesão nos membros inferiores por diferentes motivos. As diabetes mal controladas provocam lesão nervosa, dando uma alteração na sensibilidade das extremidades, então o paciente não sente que está com machucado no pé. Os pacientes diabéticos vão ter lesão na microcirculação prejudicando a nutrição do tecido do pé, podendo ter alteração maior afetando as artérias principais fazendo com que o sangue chegue mais devagar nas extremidades. Esse paciente tem mais dificuldade de combater infecção. Além de tudo isso, muitos diabéticos acabam ficando com deficiência visual, isso também dificulta a visualização de pequenas lesões no pé.  Se esse paciente não for bem assistido e orientado, quando chega para o médico especialista está com a lesão grave e, muitas vezes, leva à perda de um dedo e, em casos mais graves, à perda do membro corretamente.

Qual o tratamento adequado que o paciente deve fazer para não chegar a perder o membro?

Em primeiro lugar controlar bem a diabetes, visita regular a um médico, seja clínico ou endocrinologista para ter certeza que essa diabetes está bem controlada. Consulta com um cirurgião vascular pelo menos uma vez ao ano. No dia-a-dia, ele precisa usar sapato adequado, usar meia sem costura, cuidado ao cortar unha. Uma calosidade pequena pode provocar micro fissuras que servem de porta de entrada para uma bactéria. O uso de chinelo de dedo pode provocar micro fissuras que pode necrosar a pele e dar uma infecção grave.  Existe no mercado sapatos para pacientes diabéticos, apesar de não ser financeiramente fácil.

Outra doença vascular comum são os aneurismas... Como detectar?

Exato, principalmente o aneurisma de aorta. O mais conhecido é o cerebral, que é tratado pelo neurocirurgião. A aorta é artéria que sai do coração e emite ramos para todo o organismo, quem distribui sangue. Dos aneurismas não cerebrais os mais comuns são o de aorta. O aneurisma é a dilatação de uma artéria, aumento. Na hora que rompe, todo o sangue do organismo passa pela aorta, então causa uma hemorragia grave e que a gente não consegue controlar. Existe cirurgia para aneurisma de aorta, tanto tradicional ou minimamente invasiva com ambiente de hemodinâmica com endopróteses, que é o tratamento endovascular. A grande questão é que se trata de uma doença assintomática. O diagnóstico geralmente ocorre quando o paciente faz um exame por outro motivo. Por ser silenciosa, a gente precisa procurar nas populações de risco ativamente. Aí mais uma vez é necessária uma consulta com o especialista. O grupo de risco é formado por tabagistas, hipertensos e quem tem colesterol alto.

Quais são suas sugestões para melhorar a assistência à população na área vascular?

A gente precisa de mais cirurgiões em nível de média complexidade  nas cidades do interior, para descentralizar de Natal. Na hora em que a gente concentra tudo em um local só, o serviço tende a demorar mais e o acesso tende a ser mais difícil. Hoje, a gente não tem nenhum serviço da rede pública estadual ou municipal que preste atendimento para salvamento ou revascularização de membro. O Ruy Pereira foi criado com essa intenção, mas hoje ele não tem estrutura física e de insumos para poder fazer esse tipo de cirurgias mais complexas.

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