Lima Barreto, “Cronista do Rio” (2017, Autêntica/MEC/FBN, 240 p.)

Publicação: 2018-10-31 00:00:00
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Alexandre Alves
Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Não se trata aqui de mais uma coletânea de 50 crônicas do carioca Lima Barreto (1881-1922), esquecido em sua época e hoje entre os grandes vultos da literatura nacional no despontar do século XX. Adornado com dezenas de imagens a cargo de famosos (Marc Ferrez, Augusto Malta) e alguns anônimos, o cotidiano da então capital federal ganha movimento se lida junto aos textos, ora sérios ora irônicos e extraídas de vários periódicos. As crônicas seguem de 1911 até 1922, dando para voltar no tempo diante da bela narrativa de Barreto sobre o Rio de Janeiro. A percepção de Lima acerca da realidade fluminense possui ares de profecia, como na crônica “O nosso esporte” (adivinhe qual!), apresenta um olhar atento ao lado cultural urbano (“Sobre o carnaval”, “Amor, cinema e telefone”, “Bailes e divertimentos suburbanos”) e cenas urbanas pouco percebidas (“Os enterros de Inhaúma”, “A revolta do mar”, “O trem de subúrbios”, “A estação”).

Créditos: Divulgaçãomundo livro 1mundo livro 1

Atenção seja dada ao texto “A polianteia dos burocratas”, na qual Barreto trata do que ele chama de “feminismo burocrático”, crônica claramente crítica quanto à presença da mulher no funcionalismo público, tudo porque ele via tal ação como mero “feminismo de fachada” (uma das mulheres diz que sua grande aspiração seria não ter outra mulher como chefe). Em outro texto, Barreto afirma ser um “andarilho de vocação”. Caminhar ao lado dele no Rio de Janeiro daquela época, eis uma experiência nostálgica frente aos tiros e tensões nas ruas cariocas de hoje.

Vários, “Arquivos de correspondências: carta e vida literária de escritores do RN” (2017, Edufrn, 182 p.)
Em mais uma investida do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-rio-grandenses, os profs. Humberto Hermenegildo e José Luiz Ferreira, ambos da UFRN, organizam um volume dedicado à epistolografia potiguar. O (sub)gênero da carta vem sendo estudado com mais afinco nas últimas décadas, provavelmente devido à dinâmica entre autores em tempos bem distantes da internet (e antes que as cartas se autodestruam!). O Modernismo brasileiro – incluindo o potiguar – foi moldado também, ainda que parcialmente, na troca mútua de missivas. Corroborando tal tese, surgem artigos de Humberto Hermenegildo (“O Modernismo como memória nas cartas trocadas entre Câmara Cascudo e Joaquim Inojosa”) e de Edna Maria Rangel (UFRN), tratando do autor de “Alma patrícia” com o criador de “Macunaíma” (“Câmara Cascudo e Mário de Andrade nos anos 30: desafios da política e da pesquisa sob tensão”).

Créditos: Divulgaçãomundo livro 2mundo livro 2

Já Maria Suely da Costa (UEPB) e Wellington Medeiros (UERN), no texto “Poema-carta: sob um contrato do gênero”, afirmam que a carta foi “Usada por longo período da história humana como fonte, não apenas, de documentação, mas como recurso usual de comunicação”. Nos 08 capítulos, há ainda artigos sobre Zila Mamede e suas cartas a Drummond, sobre o poeta açuense João Lins Caldas e sobre o ainda obscuro acariense José Gonçalves Pires de Medeiros. São notícias de um mundo no qual as pessoas se entendiam, mesmo à distância. Hoje, por vezes, nem frente a frente o diálogo se faz possível.