Literatura para abrir mundos

Publicação: 2010-07-07 00:00:00
As férias escolares chegaram para crianças e adolescentes e uma das opções encontradas pelos pais tem sido a ida às livrarias da cidade. Nas prateleiras, dos livros-brinquedos aos clássicos da literatura Brasileira, como “Marcelo, Marmelo, Martelo” de Ruth Rocha, disputam a atenção dos pequenos. O aumento no número de vendas destes produtos foi registrado em praticamente todas as livrarias da cidade. No topo da lista dos mais procurados na Siciliano, por exemplo, estão “Diário de um banana”, de Jeff Kinney e “Querido Diário Otário”, de Jim Benton. Diante do que é oferecido, a pergunta feita pelos pais é: qualquer forma de leitura é válida?

A Literatura infantil ajuda no processo de leitura do mundo e atribuições de sentidosQuem responde é a coordenadora do grupo de pesquisa “Ensino e Linguagem”, vinculado ao Programa de Pós Graduação em Educação da UFRN, Marly Amarilha. Ela diz que a seleção do material a ser lido pela criança deve ser feita por pais, professores, bibliotecários e aqueles que se envolvem com a infância, considerando a qualidade do projeto gráfico e o conteúdo que se afine com os valores que pensamos que sejam importantes para os nossos filhos e alunos.

Para Marly, não se trata de cair na atitude instrucional de, invariavelmente, usar o livro para dar lição de moral. “Todo texto traz valores, mas a maneira como esses valores são apresentados devem considerar a inteligência da criança, ou seja, não ter linguagem doutrinária, permitir espaço para a resposta do leitor”, disse Marly Amarilha, que é doutora em Literatura pela Universidade de Londres.

Sendo assim, os produtos literários feitos em suportes de borracha, plástico, madeira, que mais parecem brinquedos, facilitam a abertura para a convivência descontraída com o objeto e a futura leitura da palavra. “Considero interessante esse tipo de livro porque ele se apresenta para a criança como um brinquedo tão acessível como a bola, a boneca”, disse.

Os livros são objetos transcendentes

Se os livros não precisam trazer sempre a moral da história, nem ser um clássico da literatura, quais os benefícios que eles trazem para as crianças? Segundo a pesquisadora, a literatura, seja na narrativa ou na poesia, oferece possibilidades de desenvolvimento mental de diferentes maneiras.

A narrativa, por exemplo, propicia o aprendizado da lógica pela sequência de fatos que se articulam estabelecendo a relação entre causa e efeito. Quanto mais lê, mais repertório sobre os usos da linguagem escrita a criança adquire. Mesmo que ela não seja capaz de produzir um texto no nível do que lê, a criança é estimulada a avançar nos domínios da linguagem pela força do fascínio da história que as palavras estão contando, portanto, a criança progride para patamares mais elevados da linguagem e do pensamento.

Já na poesia, a criança se depara com as possibilidades criativas da língua. Com os poetas ela descobre o potencial de significações que uma mesma palavra ou expressão pode ter. Assim, tem a oportunidade de exercitar relações inovadoras com a linguagem pela sonoridade, pelo ritmo, pelas rupturas da lógica. “Manter uma atitude criativa diante da palavra desenvolve o pensamento divergente que é extremamente importante para as pessoas encontrarem soluções para problemas de toda sorte”.

Neste sentido a literatura ajuda o processo de leitura do mundo, se entendermos que ler é atribuir sentido ao que está ao nosso redor. Para Marly Amarilha, os textos apresentam uma interpretação de fatos, uma visão que nem sempre coincide com a nossa. Portanto, ao ler estamos dialogando com alternativas de pensamentos e enriquecendo nossa própria percepção sobre o mundo.

Um bom livro pode ser reconhecido

O advogado Cláudio Viana, pai de Maria Clara, de 14 anos, e Maria Alice, de 8, é um dos que incentiva a leitura.  Ele revela que a sua esposa contava histórias para as filhas, desde que estavam na barriga. “Os nossos momentos de lazer estão sempre ligados aos livros”, disse o advogado.

Ele conta que compra em média 25 livros por ano para as filhas, mas que a escolha dos títulos é compartilhada. “Questiono alguns tipos de leitura, do tipo que faz a pessoa perder muito tempo e não transmitem certos valores”, disse Cláudio Viana, que na ocasião segurava dois livros escolhidos por sua filha mais velha, numa livraria da cidade. Segundo o advogado, ele sempre observa a apresentação dos livros, as informações sobre o autor e os dados trazidos na ficha catalográfica.

Segundo Marly Amarilha, este tipo de cuidado é essencial. Ela recomenda um olhar técnico, isto é, observar aspectos que evidenciam que houve preocupação com o produto a ser oferecido. Todo livro que recebeu cuidado editorial tem necessariamente a ficha catalográfica. Constam nessa ficha o nome do autor, do tradutor se houver, da editora, ano de publicação e o número do ISBN – International Standard Book Number, isto é, o número que o livro recebeu no catálogo internacional de livros,  é como se fosse o CPF do livro. Por que a ficha é importante? Ela revela que antes de ser publicado houve cuidado no tratamento do material, houve um projeto gráfico e a editora é idônea. Portanto, o consumidor estará comprando um produto feito por profissionais.

Entrevista/ Marly Amarilha: coordenadora do grupo Ensino e Linguagem UFRN

“Não basta a oferta de livros, é preciso cuidado na escolha”

A máxima de que o Brasil é um país de poucos leitores é bastante difundida. As razões do alto índice de desinteresse pelos textos escritos também. Mas com a chegada das novas tecnologias será que a rejeição, ou a falta de acesso continua sendo a mesma. A coordenadora do grupo de pesquisa “Ensino e Linguagem”, vinculado ao Programa de Pós Graduação em Educação da UFRN, Marly Amarilha fala ao VIVER sobre uma realidade quem vem sendo delineada nestes últimos anos.

O Brasil é um país de poucos leitores. Se as crianças começassem a ler desde a infância, na maturidade se interessariam mais por livros?

 Costumamos pensar que o Brasil é um país de poucos leitores de literatura. Na verdade, com as novas tecnologias, observamos que todo cidadão com acesso ao computador multiplicou suas possibilidades de leitura, inclusive de literatura. Há sites que oferecem textos integrais de textos de literatura e outras modalidades textuais também se tornaram mais acessíveis. A internet é uma biblioteca com fartura de oferta de leitura: receitas culinárias; artigos de opinião; artigos científicos; anedotas; poesia; política etc... O problema permanece sendo o analfabetismo de 30 milhões de brasileiros e o acesso ainda limitado ao computador de uma porção significativa de pessoas. As novas tecnologias exigem domínio da linguagem escrita, portanto, é preciso ser alfabetizado para desfrutar dessa abundância de possibilidades de leitura.

A lógica de que se as crianças começassem ler desde os primeiros anos na maturidade, se interessariam mais por livros, precisa ser rediscutida?

As crianças já estão lendo mais, como disse, pelas ofertas de leitura nos novos meios. O livro impresso continua sendo o veículo da leitura mais aprofundada porque ainda é muito cansativo ler longos textos na tela do computador e o ipad não atingiu a qualidade ideal para o conforto dos nossos olhos, mentes e dos nossos bolsos. O fato do livro de papel ser portátil permanece sendo uma de suas vantagens. Carregamos, manuseamos e não precisamos recarregar a bateria desse objeto tão acessível.

Quais as vantagens do livro impresso para as crianças?

Por exemplo, a linguagem visual que acompanha o texto de literatura infantil tem alcançado qualidade exuberante, seja no Brasil como no exterior. Inegavelmente, as imagens são um atrativo marcante dessa modalidade de produção cultural e os olhos são cativados para as cores, as formas e para as palavras que sugeriram essas imagens. Assim, por via das imagens as crianças chegam ao pensamento abstrato expresso pelas palavras.
Já existem pesquisas comparando a leitura no livro impresso e nos meios eletrônicos e já temos índices de que para a leitura mais longa os pequenos leitores preferem o conforto do impresso. Além disso, a posse do livro como objeto pessoal o transforma em companheiro afetivo da infância.

Para assegurar que o leitor infantil se torne um leitor na vida adulta o que precisa ser feito?

Não basta a oferta de livros é preciso cuidar da maneira como esse contato é feito. Nossas crianças escolares mantêm contato com o livro desde a educação infantil, mas parece que esse fato não repercute nos índices de leitura entre adultos. Pelo contrário, muitos se tornam avessos à leitura pela péssima abordagem que os livros tiveram na escola ou a pouca valorização do livro e da leitura entre os grupos sociais que frequentam, incluindo-se a família. Portanto, o livro deve vir acompanhado de uma boa dose de acertos na mediação.