Literatura potiguar em 2018

Publicação: 2018-12-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Repórter: Ramon Ribeiro
Colaborou: Cínthia Lopes

O ano de 2018 não foi de brincadeira para o mercado editorial e livreiro do Brasil. O maior sinal da crise do setor em 2018 foi o declínio das duas maiores redes varejistas de livros no Brasil: Cultura e Saraiva. No Rio Grande do Norte não tivemos fechamento de livrarias, mas a cena literária sentiu a ausência de leitores. As editoras locais lançaram menos obras que em anos anteriores. No entanto, bons títulos chamaram atenção, sendo boa parte deles publicados de forma independente pelos próprios autores.

Feira de Livros e Quadrinhos (Fliq) se destacou entre os eventos
Feira de Livros e Quadrinhos (Fliq) se destacou entre os eventos

Pra essa retrospectiva, o VIVER consultou três pessoas ligadas ao segmento literário: o doutor em literatura, professor da UERN e titular da coluna Mundo-Livro neste jornal, Alexandre Alves; o cronista e editor da Escribas (novo nome da Jovens Escribas), Carlos Fialho; e o escritor e acadêmico da Academia Norte-Riograndense de Letras, Lívio Oliveira.

Para Alexandre Alves, o grande destaque na poesia foi o retorno ao verso de Leontino Filho, cearense radicado no RN desde a década de 1980. “Após mais de 20 anos sem publicar, voltou com maestria no consistente 'Anatomia do ócio'”. O colunista também chama atenção para outros lançamentos, como “Fevereiro”, de Eveline Sin (antes Eveline 'Sinhá' Gomes), e “Cachorro morto”, do novato Victor H. Azevedo. “Outro novato - só que já veterano - foi o jornalista Carlos Peixoto [recém-aposentado desta TRIBUNA DO NORTE], surpreendendo com os haicais de 'Desejo de ser inútil'”.

Alexandre ainda destaca a produção de poetas surgido na cena da poesia marginal potiguar, como João Batista de Morais Neto, com “Bissexto", Antonio Ronaldo, com “Ao judas atraente",  e Volonté, com “Beba da chama" (adquirido apenas diretamente com o autor). Dos poetas já falecidos, ele ressalta a importância da reedição de poemas de Palmyra Wanderley com a obra “Entre trinta botões de uma roseira brava", após mais de meio século sem nova edição. E da turma nova, Alexandre cita duas coletâneas: “Blackout”, que além de apresentar jovens poetas prestou homenagem ao poeta marginal Blackout, e “Sumidouro", que reúne poemas de 10 jovens mulheres.

“Sumidouro” também é um dos destaque de Lívio Oliveira, que cita outras leituras de autores potiguares que lhe marcaram em 2018. “Sumidouro tem uma poesia levemente erótica de um grupo de mulheres. 'Lacuna” vai na mesma linha. Foi escrito por uma poeta parente de Moacy Cirne [Izabella Cirne]”, comenta. Outros leitura que ele cita são “Machado que eu li” , de Ivan Maciel de Andrade (“é um livro importante e que vale a pena ler para confirmar a qualidade dos textos que ele publica na Tribuna do Norte”; “Tempo, Memória e Poesia”, de Thiago Gonzaga (livro de caráter analítico sobre a obra de Diógenes da Cunha Lima, um dos poetas mais importantes do nosso estado”); e “Memória Acadêmica”, de Leide Câmara (é sobre a Academia Norte-Riograndense de Letras, obra imprescindível, homenageia todos os acadêmicos, patronos e a história da Academia Norte-riograndense de Letras”).

Jornalista Carlos Peixoto na poesia de Desejo de ser inútil
Jornalista Carlos Peixoto na poesia de “Desejo de ser inútil”

Tanto o livro de Thiago Gonzaga quanto a revista da Academia Norte-Riograndense de Letras, editada por ele, também foram citadas como destaque por Alexandre Alves, que lembra da revista do Instituto Histórico e Geográfico do RN. “Presumo que foram essenciais para o RN, ambas focando o presente e o passado), diz. Para o colunista, na prosa chamara atenção as crônicas de Osair Vasconcelos em “Retratos fora da parede", e a estreante Julia Pepper com a primeira parte da novela “Ho ucciso io". “Parecem se sobressair diante de uma certa repetição temática da prosa potiguar dos últimos anos, de semblante por vezes mais memorialístico do que ficcional”.

Para Carlos Fialho, na sua visão de editor, 2018 foi de resistência. “Continuamos carregando caixas e fazendo dívidas, sina de todo pequeno editor que batalha nesse país inculto e belo. Porque muito antes das grandes livrarias quebrarem e editoras gigantes passarem por dificuldades, a gente já penava aqui na base da pirâmide com as dificuldades inerentes a um mercado tão árido”, conta o capitão da Escribas. No tocante à projetos realizados, a editora realizou mais uma edição da Ação Leitura e quatro edições do Bazar Independente. Ele espera um 2019 melhor, com mais leitores, e já adianta novos projetos no audiovisual, mas por enquanto é surpresa.

Entrega da Biblioteca Câmara Cascudo e outros fatos
Neste final de 2018 um fato marcante foi a conclusão das obras da Biblioteca Câmara Cascudo depois de 6 anos fechada para reforma. No entanto, ela foi entregue, mas não aberta para o público. Colocá-la para funcionar ficará a cargo do futuro gestor da cultura estadual.

Biblioteca entregue após seis anos, mas ainda falta arrumação
Biblioteca foi entregue após seis anos, mas ainda falta arrumação

Uma baixa importante no ano foi a não realização por parte da Prefeitura de Natal do Festival Literário de Natal (Flin). Segundo o secretário de cultura, Dácio Galvão, faltaram recursos. Mas o secretário anunciou o evento para depois do carnaval, caso alguns patrocínios sejam confirmados. Outro grande festival que passou em branco, mais uma vez, foi o Festival Literário da Pipa.

Por outro lado, a Feira de Livros e Quadrinhos de Natal e a Feira do Livro de Mossoró seguiram como um dos principais momentos de venda (depois do dia do lançamento, claro). Além desses eventos, os editores locais puderam comercializar suas publicações diretamente com o público em pequenas feiras em lugares como Parque das Dunas, Festival Burburinho (Bosque das Mangueiras) e Flipaut (Pipa). A Cooperativa Cultural da UFRN também se manteve firme e forte, abrindo espaço para os autores norte-riograndenses e realizando ações ao longo do ano, como a sua anual feira de livros. E falando na UFRN, a rádio FM Universitária (88,9) iniciou no final de 2018 um projeto voltado para a literatura potiguar. Trata-se do programa Via-Láctea, apresentado e roteirizado pela jornalista e poeta Marize Castro. O pré-lançamento foi ao ar em dezembro e a estreia oficial será em março.

Dos potiguares radicados fora do estado, o mossoroense José Almeida Júnior figurou como finalista com o seu romance “Última Hora” em dois importantes prêmio literários: o SP de Literatura e o Jabuti. Também no Jabuti, na categoria HQ, foi finalista o quadrinista natalense Wagner Willian, com a obra “O Maestro, o Cuco e a Lenda”.

No campo acadêmico, algumas obras importantes lançadas em 2018 foram o “Guia cultural afro do Seridó”, disponibilizado gratuitamente na internet, e “Comida da Terra – notas sobre o sistema alimentar do Seridó”, ambas desenvolvidas dentro do programa de extensão “Tronco, Ramos e Raízes”, do Departamento de Antropologia da UFRN. Também referência para estudos, “Velhas Famílias do Seridó”, do historiador Olavo de Medeiros Filho (1934-2005), ganhou uma 2ª edição pelo Sebo Vermelho depois de 37 anos esgotada.



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