Livrarias, cafés e uma fundação

Publicação: 2017-07-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Mestre em Direito pela PUC/SP

Para nós do Nordeste, incluindo os natalenses, a melhor forma de chegar à (ou voltar da) Europa é via TAP (Transportes Aéreos Portugueses, para quem não sabe), num voo direto a Lisboa, que costuma durar não mais do que sete horas. Pela própria TAP, na capital portuguesa, há sempre conexões imediatas indo e vindo das outras capitais europeias.

Mas, se for o caso de ter de esperar por uma conexão mais demorada em Lisboa, para matar esse tempo, eu tenho uma dica – livresca, claro – para quem topa, saindo do Aeroporto da Portela, fazer um bate-volta ao centro da cidade. É muito fácil, rápido e até barato (uma ótima exceção nas metrópoles europeias).

Tomem simplesmente o metrô e, após uma baldeação, desçam na estação de Baixa/Chiado. O bilhete simples custa 1,45 euro. Já um bilhete de viagens ilimitadas por 24 horas custa 6,15 euros. Outra boa opção, que até prefiro, já que se vai admirando a cidade no trajeto, é o “Aerobus”, um ônibus especial que liga o aeroporto de Lisboa ao centro turístico. Desça na parada Rossio. Também é baratinho: coisa de 4 euros uma perna; 6 euros, ida e volta.

É ali pertinho, no número 73 da Rua Garrett, a principal rua comercial do Chiado/Bairro Alto – e vale a pena a “subida”, pois essa parte de Lisboa, também boêmia e cultural, é agradabilíssima –, que fica a livraria “Bertrand”, que, fundada em 1732, se diz “a mais antiga livraria em atividade do mundo”. E parece que isso foi mesmo reconhecido pelo Guinness Book. Ela faz parte de uma cadeia, a “Bertrand Livreiros”, que é a maior de Portugal. A livraria é muito bonita, com ambientes harmoniosos, onde predomina o teto curvado e as muitas estantes de madeira finamente trabalhadas. O acervo é para lá de bom. Grande e diversificado, tem de tudo. Fecha até tarde, coisa de 22 horas, o que é muitíssimo conveniente. Casa portuguesa, que já faz parte do itinerário cultural da cidade, com certeza.

Mas a livraria “Bertrand” não é a única livraria por ali. Muito pertinho, no número 100 da mesma Rua Garrett, fica a “Livraria Sá da Costa”, que foi outrora também editora de renome. Centenária, sofreu com a modernidade virtual e, no ano de 2013, faliu e fechou. Mas reabriu, embora com roupagem diversa. Hoje mais um sebo/antiquário de livros – acho que eles lá chamam de “alfarrabista” – do que propriamente uma livraria, nem pequena nem grande, ela tem o charme da sobriedade. É programa nota 10 para o amante de livros antigos e raros, que ali se deleitará contemplando as palavras e o tempo.

E some a isso que elas – as livrarias, me refiro – ficam bem próximas do “Café A Brasileira” (Rua Garrett, 120), que é considerado por Antonio Bonet Correa (no seu maravilhoso livro “Los Cafés Históricos”, Ediciones Cátedra, 2014), “o rei dos cafés da capital portuguesa”. Muito bem postado no coração comercial do bairro do Chiado, o “Café A Brasileira” é, como registra o citado autor, “sem dúvida alguma um dos pontos de gravitação da vida turística de Lisboa. Fundado em 1905, como loja para venda de grãos e café moído importados do Brasil, de logo passaria a ser um concorrido café de caráter literário e artístico”. Como de praxe com a turistada, você ainda pode tirar uma foto com Fernando Pessoa – ali homenageado, no terraço do café, em bronze –, que era, reza a história, junto com seus heterônimos, um frequentador assossegado do local. Tomamos um café por lá. Não sei ela; eu gostei bastante.

No mais, embora fora do miolo turístico, outra visita cultural/livresca que recomendo em Lisboa é à “Fundação Calouste Gulbenkian”, que é, segundo consta do seu sítio na Internet, uma instituição portuguesa “destinada a fomentar o conhecimento e a melhorar a qualidade de vida das pessoas através das artes, da beneficência, da ciência e da educação”. Foi criada em 1956 pelo testamento de Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955), empreendedor, colecionador de arte e livros e filantropo de origem armênia, nascido sob o Império Otomano, mas que, em vida, adquiriu a nacionalidade britânica e viveu seus últimos anos na capital portuguesa. A despeito de delegações em outras terras (Paris e Londres, por exemplo), sua sede, um complexo modernista de edifícios e jardim, fica na Av. De Berna, 45A, em Lisboa.

Junto ao museu (ou aos museus, já que ele é divido em duas coleções), o complexo dos edifícios (da sede da Fundação) dispõe de cafeterias, lojas e – sendo isso melhor para nós – uma livraria com edições da maravilhosa editora da “Fundação Calouste Gulbenkian”. Pena que elas, as cafeterias e a livraria, funcionam, pelo que me recordo, somente até as 18 horas.

De toda sorte, conheço poucas editoras tão interessantes quanto essa da “Fundação Calouste Gulbenkian”, em especial para os estudantes e profissionais do direito que falam português. Um dos seus objetivos é publicar, de modo amplo e sistemático, originais e traduções, de mestres portugueses e estrangeiros, a um preço acessível, se não barato mesmo (levando em consideração a absurdez do preço dos livros jurídicos no Brasil). Nessa toada, os livros de direito abundam. Eu mesmo, dando uma olhadela na minha biblioteca, pude identificar, da “Fundação Calouste Gulbenkian”, entre outros: “História do direito português” (1991), de Nuno. J. Espinosa Gomes da Silva; “História do direito privado moderno” (1993), de Franz Wieacker; “O conceito de direito” (1986), de Herbert L. A. Hart; “Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito contemporâneas” (2002), organizado por A. Kaufmann e W. Hassemer; “Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito” (1989), de Claus-Wilhelm Canaris; “Metodologia da ciência do direito” (1989); “Filosofia do direito” (2004), de Arthur Kaufmann; “Introdução ao pensamento jurídico” (1988), de Karl Engish; “Introdução histórica ao direito” (2016), de John Gilissen. Livros estes que, todos, recomendo sem pestanejar.

Está decidido: na minha próxima conexão em Lisboa irei à livraria da “Fundação Calouste Gulbenkian”. Topo até correr o risco de perder o voo de volta para o meu querido Brasil.

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