Livro conta como o medo do “inferno” foi responsável pela edificação de algumas igrejas em Salvador

Publicação: 2021-01-13 00:00:00
Uma índia brasileira viaja para a França em 1528, (21 anos antes de Thomé de Souza chegar ao Brasil para fundar Salvador) é batizada no catolicismo, retorna a Bahia e, próximo de morrer, elabora testamento onde doa ao Mosteiro de São Bento, a igreja que mandou construir (além de vastas fazendas), pedindo em troca missas diárias “enquanto o mundo durar” na esperança que sua alma passasse pouco tempo no purgatório, o que é cumprido pelos frades beneditinos até os dias de hoje.

Créditos: Divulgação

Estas e outras passagens estão no livro “Basílicas e Capelinhas – um estudo sobre a história, arquitetura e arte das igrejas de Salvador” do jornalista Biaggio Talento e da médica e pesquisadora da cultura e religiosidade populares Helenita Monte de Hollanda. 

Os autores lançaram a 4a edição da obra, revista e ampliada, agora em formato eBook pela Amazon. Sucesso de público e crítica, o livro está com as três edições em formato convencional de papel esgotadas desde 2009 quando saiu a 3a edição. As anteriores são de 2006 e 2008. Tornou-se um livro raro por retratar, num único volume, a construção de 43 igrejas históricas da primeira capital do país. 

Entre essas construções os autores relembrar a história de um comerciante português apavorado com a tempestade que atingia sua caravela promete ao Senhor dos Aflitos que, se conseguisse escapar com vida, construiria uma igreja em homenagem ao santo. Escapa, cumpre sua promessa e a registra numa pintura no forro do teto do templo a doação. Num outro ponto de Salvador, cerca de mil quilos de ouro em pó foram necessários para dourar a talha da Igreja de São Francisco, recursos obtidos graças às doações de senhores de engenho, mercadores de escravos e ricos proprietários de terra que pediram missas e sepultamento no templo como contrapartida. 

A obra ainda conta que um agiota doou fortuna à Santa Casa de Misericórdia de Salvador em troca de 11 mil missas por ano até o fim dos tempos para se salvar do inferno. Já para construir uma igreja monumental que representasse a força da sua classe, comerciantes encomendam em Portugal milhares de pedras de lioz cortadas e numeradas – numa empreitada que durou 60 anos –  edificando assim a Igreja da Conceição da Praia. Escravos e africanos libertos carregaram pedras nos raros momentos de folga para levantar seu próprio templo: a Igreja do Rosário dos Homens Pretos. Os que atuavam como “escravos de ganho” aplicavam parte do dinheiro na obra. 

O grande mercado de arte sacra que existia em Salvador fomentou o aparecimento de uma geração de artistas que introduziram nos templos baianos inovações como a perspectiva ilusionista nos forros dos tetos da igreja, técnica que consistia em “alongar” com a pintura, os pilares e paredes internas culminando numa “abertura” que mostra o céu e a corte celestial.  

Em busca de respostas
Por que os colonizadores edificaram tantos templos suntuosas nas cidades ricas do Brasil? O que levou essas pessoas a importarem pedras de lioz de Portugal pra levantar as paredes dos templos e orná-los internamente com ouro, prata e pedras preciosas? Qual a motivação para contratarem os melhores arquitetos, ourives, escultores e pintores da época com o objetivo de decorar essas igrejas?

Os autores pesquisaram a história de igrejas construídas entre os séculos XVI e XIX na rica primeira capital do Brasil, para responder a essas perguntas. 

Descobriram coisas surpreendentes nesta pesquisa que já dura 20 anos pois o livro é atualizado regularmente. As páginas revelam  como a história da edificação das igrejas exibe a mentalidade de uma época e seus reflexos para a formação do povo brasileiro. E leva o leitor a uma viagem fantástica ao passado, quando as pessoas se preocupavam com a preparação no pós-vida, acreditando que, ajudando o processo de evangelização de padres e monges, poderiam escapar do inferno, passar pouco tempo no purgatório e ascender ao paraíso. 

O ebook é ilustrado com cerca de 200 imagens do rico patrimônio histórico brasileiro, tombado pela Unesco. O livro se preocupa também em, quando possível, identificar os autores das obras de arte que decoram os templos, o estilo de peças e pinturas e o que procuravam representar. Os autores aproveitaram a nova edição para aprofundar a pesquisa sobre a influência da cultura da Idade Média na formação de Salvador.

Os autores
Helenita Yolanda Monte de Hollanda - Médica formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, fotógrafa, pesquisadora nas áreas de História e História da Arte no Brasil, estudiosa de Cultura e Religiosidade populares. Curso (incompleto) de Teologia Faculdade de São Bento da Bahia. Mantém, desde o início de 2016, o Canal Cultura Popular Brasileira, no YouTube (com mais de 250 vídeos exibidos e dois milhões de visualizações até o final de 2020) sobre suas andanças pelo Brasil, coletando material das suas pesquisas. É autora dos seguintes livros: (2002) Como diz o ditado..., (duas edições em formato tradicional e uma em ebook); (2005) Ad Lucem Versus – O Luminoso Destino de um Homem, que versa sobre a biografia do Pe. Luiz Gonzaga do Monte cujo processo de beatificação foi aceito, aprovado e aberto pelo Vaticano; (2006) Basílicas e Capelinhas – um estudo sobre história, arte e arquitetura de 42 igrejas de Salvador, em co-autoria com Biaggio Talento, (três edições); (2010) Com a Graça de Deus, uma biografia do Padre Orígenes Monte, que se faz acompanhar de documentário em vídeo também de sua autoria; Em 2003 realizou exposição fotográfica O Regalo da Luz, com lançamento em pré-edição do livro homônimo com textos do arcebispo emérito de Natal D. Nivaldo Monte e elaborou projeto e design gráficos e fotografia de capa do livro A Dor – Sentinela da Vida, também de D. Nivaldo.

Biaggio Talento - jornalista formado pela UFBA. Pós graduado na primeira turma de História Social e Econômica do Brasil pela Faculdade de São Bento de Salvador. Atuou como repórter especial e correspondente da Agência Estado e jornal O Estado de São Paulo entre 1987 e 2006. Depois, entre 2006 e 2016, foi repórter especial de política no jornal e Agência A Tarde, tendo assinado, durante esse período, matérias regulares para o jornal O Globo. Ocupou o cargo de Coordenador de Comunicação do município de Camaçari-BA, entre janeiro de 2017 e maio de 2018. É autor dos seguintes livros publicados: (2003) A Sucursal – Os 30 anos do Estadão na Bahia; (2006) Basílicas e Capelinhas – um estudo sobre a história, arquitetura e arte de 42 igrejas de Salvador, em parceria com Helenita Monte de Hollanda; (2009) Edison Carneiro – o mestre antigo , em parceria com Luiz Couceiro; (2013) A Economia da Salvação - Uma história da domesticação da morte em Salvador por mercadores de escravos e usurários, séculos  XVI/XIX , premiado com a Medalha de Prata, categoria ensaio, no Concurso Literário Internacional da União Brasileira dos Escritores; (2016) Nestor Duarte – paladino da liberdade ; (2020) Murro em Faca de Ponta – O Barrete contra o Quepe – A História do Monitoramento de Dom Nivaldo Monte pelo Regime Militar – Ebook.  

O que já foi escrito sobre as edições anteriores do livro:
Revista Época
Mais do que detalhar os monumentos, o livro ajuda a entender a formação da primeira capital do país e a sociedade que ela abarcava. Segundo os autores, Salvador nasceu sobre a influência do universo supersticioso da Europa medieval.

O Globo
O livro Basílicas e Capelinhas é um misto de roteiro turístico e aula de história. Sua principal qualidade é recuperar histórias das igrejas e de seu patrimônio.

A Tarde
É uma obra de consulta que certamente vai servir como fonte de pesquisas para estudantes e curiosos.

Correio da Bahia
Eles realizaram uma ampla pesquisa sobre o assunto, motivados inicialmente pela constatação de que, apesar do riquíssimo patrimônio histórico da capital baiana, há uma carência inexplicável de publicações, acessíveis ao público, que falem um pouco sobre os monumentos. 









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