Livro destaca a vocação feminina na política potiguar, desde o século passado

Publicação: 2019-10-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

De todos os estados do Brasil, o Rio Grande do Norte é o que mais vezes elegeu governadoras na história, três: Wilma de Faria (2003-2010), Rosalba Ciarlini (2011-2015) e Fátima Bezerra (2019). Fátima, por sinal, é a única governadora eleita atualmente no país. É um fato curioso que não apenas explicita, do ponto de vista nacional, a baixa representatividade das mulheres na política (na Câmara dos Deputados são 77 das 513 cadeiras), como também sinaliza, aqui no estado, que há algo no cenário potiguar que vai na contramão do status quo do Brasil – onde a política não é vista como de vocação feminina, conforme afirmou o presidente do PSL, Luciano Bivar: “Política não é muito da mulher”.

Alzira Soriano em foto de 1929: primeira prefeita de Lajes
Alzira Soriano em foto de 1929: primeira prefeita de Lajes

Trazendo o assunto especificamente para o Rio Grande do Norte, uma pesquisa inédita que será lançada em livro nesta semana pode subsidiar novos olhares histórico sobre a participação feminina na política estadual. Trata-se da obra “Emancipação Política da Mulher Potiguar”, de autoria da professora Maria Bezerra (in memoriam). Falecida em 2011, aos 79 anos, Maria deixou a pesquisa pronta para ser publicada. E coube a amiga e grande incentivadora Isaura Rosado, ao lado da jornalista Sheyla de Azevedo, a tarefa de organizar o material para publicação.

A obra está saindo através da parceria entre a Sociedade Amigos da Pinacoteca e a Fundação Vingt-un Rosado. O lançamento será no dia 11 de outubro, em Mossoró, dentro da vernissage do 4º Salão Dorian Gray de Arte Potiguar. Em Natal o lançamento será nos dias 23 de outubro, na Cooperativa Cultural (UFRN), e no dia 6 de novembro, na Assembleia Legislativa (Cidade Alta).

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Isaura Rosado destaca a relevância do livro como importante fonte primária para futuras pesquisas no mesmo campo temático. “O livro fala de todas as mulheres eleitas no RN. São mais de mil. Há muitas fotos, informações biográficas, o partido político a que pertenceram, a área de atuação dessas mulheres”, diz Isaura. Mas a obra não fica apenas nos verbetes e toca também em fatos históricos de extrema importância, como o sufrágio na década de 1920 no estado, a eleição de Alzira Soriano como prefeita de Lages e a eleição da primeira deputada estadual, Maria do Céu. “Toda a história de pioneirismo das mulheres potiguares é revisitada. É explicado, por exemplo, porque Celina Guimarães foi de fato a primeira eleitora, e não Júlia Barbosa, que solicitou no mesmo dia, em Natal, o direito ao voto”.

Verbete reafirma Celina Guimarães Viana como primeira eleitora
Verbete reafirma Celina Guimarães Viana como primeira eleitora

Sheyla pondera que a obra não aprofunda a motivação que cada uma dessas mulheres tinha para entrar na política, essa proposta pode ficar para próximas pesquisadoras. “O material tinha cerca de 800 páginas. Tivemos que cortar para pouco mais de 500. Então você vê que não dá para abordar tudo. É um livro que não é crítico, mas de registro. Vai de 1920 até o início dos anos 2000, passando por vários momentos, desde o movimento sufragista, quando a feminista Bertha Lutz veio ao RN, até os tempos mais recentes, de Wilma e Fátima. E é um trabalho multidisciplinar, com tabelas que contextualizam o cenário social de algumas cidades do interior”, relata a jornalista.

Sheyla também reforça o trabalho pioneiro da autora da pesquisa, Maria Bezerra, que chegou a ser Diretora do curso de Serviço Social da UFRN, foi ligada ao movimento de Educação de Base, trabalhou no Conselho da Mulher e passou pela Fatern, onde começou a pesquisa, instigada por Isaura. “Maria Bezerra é de Assu, mulher inteligente, bonita, tem uma história de vida dedicada à pesquisa. Faleceu em 2011, mas deixou esse importante material para posteridade”, comenta a organizadora do livro. Para a pesquisa, Maria Bezerra chegou a visitar várias cidades do interior, arquivos de Câmaras Municipais, bem como entrevistou personagens ainda vivas dessa história. Afinal, são mil mulheres eleitas no estado, desde 1920 até 2000, num total de 1400 mandatos.

4º Salão Dorian Gray
Organizado pela Sociedade Amigos da Pinacoteca, o Salão Dorian Gray de Artes Visuais chega a sua quarta edição reunindo cerca de 200 obras de mais de 70 artistas, dentre novos e veteranos, todos potiguares. Trata-se, portanto, do panorama mais abrangente da arte norte-riograndense. A curadoria é de Dione Caldas e Antônio Marques. A abertura da mostra acontecerá no dia 11 de outubro, na Galeria Joseph Boulier, no Memorial da Resistência, em Mossoró.

Dentre os nomes presentes estão Vicente Vitoriano, Flávio Freitas, Toinho Silveira, Dione Caldas, Eduardo Falcão, Ery Medeiros, Airton Cilon, Ana Selma, Marcelus Bob, Sofia Bauchwitz, Ubiratan Gomes e Vatenor. Mas o Salão também tem descoberto novos talentos, sobretudo do interior, como conta a professora Isaura Rosado, membro da Sociedade Amigos da Pinacoteca e coordenadora da mostra.

Obra traz fatos históricos, como a primeira deputada Maria do Céu
Obra traz fatos históricos, como a primeira deputada Maria do Céu

“Lembro que na segunda edição descobrimos o Nilson, pintor, que tem produzido bastante. Agora estamos com trabalhos do Elson, um rapaz que faz esculturas com sucata. É de Mossoró, mas mora em Alexandria. Despertou para a arte quando ficou desempregado”, diz Isaura. A mostra fica em cartaz até o dia 3 de novembro.

A edição deste ano conta com três prêmios em dinheiro. R$ 2,5 mil para o primeiro lugar; R$ 1,5 mil, para o segundo; e R$ 1 mil, para o terceiro lugar. Os recursos foram viabilizados pelo deputado Beto Rosado.

Isaura pensa em montar o Salão em Natal, mas até o momento não tem nada confirmado. “Natal está com um problema de espaço. Faltam lugares que comportem uma exposição do tamanho do salão. Mas estamos trabalhando para levar”, diz Isaura, que também tem trabalhado para fundar a Pinacoteca de Mossoró. Ela comenta que a Pinacoteca já possui um acervo de aproximadamente mil obras, sendo 90% delas de artistas potiguares. Um catálogo dessas peças deve ser lançado até o fim do ano. Mas Isaura prefere não dar mais detalhes no momento. Apenas afirma que o trabalho é difícil, mas que existem pessoas empenhadas em concretizar.






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