Livro traz fatos e fotos de Natal do século 20

Publicação: 2019-11-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Lançado em 2009, “Dos Bondes ao Hippie Drive-in” repercutiu muito bem entre os leitores por narrar de forma leve e atrativa fatos e curiosidades de Natal entre os anos de 1915 até 1975. Mas muita gente achou que os autores (e irmãos) Fred e Carlos Sizenando Rossiter poderiam ter ido mais além. De tanto serem provocados, os dois acabaram engolindo corda, mergulhando juntos numa nova pesquisa, mais ampla, que cobriu desta vez 100 anos de história da capital potiguar. O resultado vem à tona agora com a publicação de “Natal do Século XX – Memória, fatos e fotos marcantes” (Editora Offset). O lançamento acontece nesta terça-feira (5), a partir das 18h, no Clube de Rádio Amadores /Estação Mil e Quatro (Tirol).

Publicação atravessa as transformações urbanas, econômicas, sociais e culturais da capital, trazendo ao público um raro acervo
Publicação atravessa as transformações urbanas, econômicas, sociais e culturais da capital, trazendo ao público um raro acervo

O livro soma 575 páginas e é ricamente ilustrado com um total de 435 fotografias – grande parte delas raras. A publicação faz um passeio pela história da cidade, de modo cronológico, atravessando transformações urbanas, econômicas, sociais e culturais, lembrando acontecimentos marcantes e curiosos no campo da política, costumes, futebol, música, educação e arte, bem como fatos policiais e figuras populares. Tudo num texto dinâmico e com alguns momentos de humor. “Não é uma coisa acadêmica, o livro é bem acessível. Está mais para o tipo de texto jornalístico. Foi feito para ser lido deitado na rede”, diz Fred em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

A pesquisa foi feita em cima de muitos livros, trabalhos acadêmicos, entrevistas com pessoas que vivenciaram intensamente algumas das décadas descritas, a própria vivência dos dois (um com 67 e outro com 68 anos), além do precioso acervo deixado pelo pai, João Sizenando Pinheiro, aos filhos. “Papai nasceu no século XIX e faleceu em 1998. Foi testemunha de muita coisa. Ele guardou um acervo incrível de livros, documentos, fotografias. Crescemos cercados por esse material”, conta Carlos, ressaltando também que do primeiro livro para este de agora muitas informações novas apareceram. “A gente vê que atualmente tem se publicado bem mais sobre a história o Rio Grande do Norte, tanto na Academia quanto fora dela. E o acesso a essas informações melhorou bastante de lá pra cá”.

Sobre escrever novamente à quatro mãos, Carlos resume da seguinte forma: “aqui é Lennon e McCartney”, brinca. “A diferença de idade entre a gente é de uma ano. Crescemos na mesma casa, brincamos na mesma rua, estudamos no mesmo colégio. Só nos separamos quando eu fui fazer Biologia e ele, Engenharia. Se um se lembra de algo, escreve e manda pro outro, que lê e corrige, acrescenta algo. Tem coisas que só eu fiz, outras feita só por ele. Mas os dois estão aqui de forma direta”.

Fred reforça a opinião do irmão: “A gente se conhece de toda a vida, é fácil pra gente comentar o trabalho um do outro. Se fosse uma outra pessoa, certamente seria complicado. Então acho que a gente se complementa. Sou mais cartesiano, ele tem mais alma”.

Pesquisa de Fred e Carlos Rossiter partiu do acervo do pai
Pesquisa de Fred e Carlos Rossiter partiu do acervo do pai

Embora o livro não esteja dividido em décadas, mas sim organizado de forma cronológica tendo como ponto de partida os fatos mais marcantes, na conversa com a TRIBUNA DO NORTE, Fred e Carlos toparam destacar alguns aspectos narrados no livro a partir de cada década. Confira:

1901
Fred: “No começo do século Natal estava mais voltada para o rio do que para a praia. Era do Potengi que vinham as novidades. Pra você ter uma ideia, a Igreja Matriz, prédio mais alto da cidade na época, levantava bandeiras dos países cujos navios chegavam no porto. Naqueles anos uma das grandes festividades era assistir as competições de remo. Eram umas cinco ou seis disputas realizadas por ano”.

1920
Fred: “Os cinemas começam a se tornar o principal lazer dos natalenses e mudaram muitos costumes da época. Tem uma história curiosa. Os picolés, que na nossa infância (nos anos 50) a gente conhecia como Poli e que eram vendidos tirando direto da caçamba gelada, vinham da época do Cinema Politeama, na Ribeira, era uma novidade que só se vendia na lanchonete de lá antes de ser vendido em toda a Natal”.

1930
Fred: “Aqui temos que citar a Intentona Comunista, em 1935, que nos fez comunistas antes de Cuba, pelos menos por quatro dias. No livro a gente foca em pontos curiosos, detalhando a solenidade no TAM onde houve os tiros e mostrando fotografias raríssimas dos revolucionários, cartazes da época, depoimentos de pessoas que viveram aquilo”.

1940
Fred: “Citamos no livro algumas coisas pouco comentadas sobre a 2ª Guera em Natal, como o documento em que os americanos formalizaram ao governo brasileiro que não mandaria soldados negros para cá. Algo do tipo: 'Estamos enviando só pessoas comportadas'. É um dado oficial que peguei de um livro americano. E se você pegar as fotos daquela época, verá que realmente não tinham negros. Não era uma imposição do governo brasileiro, era um reflexo da forte descriminação racial que se tinha nos EUA”.

1950
Fred: “Aqui é a Era do Rádio em Natal, período da juventude transviada, dos jovens sendo bastante influenciados pelo cinema. A gente fala no livro de um lambreteiro famoso na cidade, Roberto Lira. Pra você ter uma ideia, sobre esse período encontramos uma manchete do jornal A Ordem que dizia “Segurem suas filhas, o Rock está chegando”.

1960
Carlos: “Essa é a década mais marcante pra gente, sem dúvida. Foi o tempo das bandinhas de colégio. Cada escola tinha uma. Os festivais de música no Palácio do Esporte ficavam lotados. E era uma época que os colégios ainda eram só de mulheres ou só de homens, então eram nos festivais que todo mundo se encontrava. Tinha Leno e Prentice Bulhões com a banda The Shouters, claramente inspirados na música Twister and Shout, dos Beatles. Tinham outras bandas de nome bem engraçado, como a The Dadas e a The Funtos”.

Passeio pela história da cidade passa pelas sessões do Polytheama, por cenas cotidianas, como a Ponta Negra do padre Nivaldo em 1948, com Margarida Filgueira. E o vôo do dirigível Graf Zepelin
Passeio pela história da cidade passa pelas sessões do Polytheama, por cenas cotidianas, como a Ponta Negra do padre Nivaldo em 1948, com Margarida Filgueira. E o vôo do dirigível Graf Zepelin

1970
Fred: “Nos anos 70 a grande novidade foi a boate Hippie Drive-in, que aproveitou a efervescência da juventude da época. As pessoas que iam para as festas no América e Aeroclube, de repente ganharam um lugar com luz negra, que só tocava rock. Normalmente as garotas iam escondidas do pai. O negócio lá foi tão forte que vinham ônibus de João Pessoa e Recife pra cá.

1980
Fred: “Sem dúvida a Bandagália foi um marco. A gente vê a classe média se envolveu de uma forma diferenciada, foi um desbunde. Para escrever sobre a BandaGália contamos com um artigo de Eugênio Cunha e Carlos Piru, dois fundadores da banda. Da mesma forma Chico Lira ajudou a escrever um capítulo sobre o Carnaval de Natal. Ele frequentou várias blocos”.

1990
Fred: “Nesta década o futebol potiguar ganha novos contornos, mais público, o América se sagra campeão do Nordeste, o ABC vive uma fase importante com Ivan “O Terrível” e Sérgio Alves.  A política se abre para novos grupos políticos. Tem também o temor das pessoas com o bug do milênio.

Serviço
Lançamento do livro “Natal do Século XX – Memória, fatos e fotos marcantes”, dos irmãos Fred e Carlos Sizenando Rossiter

Dia 5 de novembro, às 18h

Clube de Rádio Amadores /Estação Mil e Quatro (Av. Rodrigues Alves ao lado da Cidade da Criança).

Preço do livro: R$ 50










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