Livros, memórias, redes sociais: potiguares mantém viva história de Natal

Publicação: 2019-12-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

Seja em livros, garimpos, arquivos físicos, fotos históricas e em redes sociais, potiguares de várias idades e com trajetórias diferentes buscam preencher uma lacuna existente em Natal para manter viva e pulsante uma história prestes a completar 420 anos. Sem um museu específico ou um lugar que conte a história da cidade, eles resgatam fotos e mantêm os natalenses das novas gerações antenados sobre a história da cidade.

Um desses personagens é o pesquisador e jornalista Eduardo Alexandre Garcia, 66 anos, popularmente conhecido como Dunga. Desde meados de 2003, ele começou a reunir fotos de Natal e guarda essas imagens digitais no seu computador. Com uma memória e um conhecimento profundo, ele fala com autoridade sobre a história da cidade, e se debruça sempre que pode em livros, sites e pesquisas para produzir e identificar seu acervo.
Pesquisador e jornalista Eduardo Alexandre reúne desde 2003 vasto acervo sobre Natal antiga
Pesquisador e jornalista Eduardo Alexandre reúne desde 2003 vasto acervo sobre Natal antiga

“Eu senti uma dificuldade imensa de ter esse material. Primeiro que no próprio Instituto Histórico que é muito difícil você ter acesso a pesquisa. Tem cinco anos que quero pesquisar as fotos mais antigas da cidade, que remontam ao nosso primeiro fotógrafo urbano, que foi Bruno Bougard. Sempre tive vontade de ver essas fotos e nunca vi”, comenta, citando o momento de reorganização do instituto.

Com uma vasta quantidade de fotos e registros, Eduardo Alexandre conta que não tem ideia de quantas imagens possui em seu acervo. Muitas, inclusive, ele posta em sua página pessoal no Facebook para que os usuários possam ver parte do seus registros.

A coleção, inclusive fez com que Eduardo Alexandre Garcia se tornasse um dos principais nomes quando se trata da história da cidade. Ele escreveu três livros sobre Natal: “Cantões, Cocadas - Grande Ponto Djalma Maranhão”, com crônicas e textos sobre locais de Natal, em especial ao cruzamento da João Pessoa com a Rio Branco, onde funcionava o Grande Ponto; Minha Cidade Natal - Lugares, Gente, História, que detalha cada bairro de Natal; e o último, Natal Clipada, que está pronto, mas ainda não publicado.

Neste último, Eduardo construiu a história de Natal de forma cronológica, de 25 de dezembro de 1599 até os dias atuais. Essa cronologia foi construída a partir de recortes de jornais, livros, pesquisas, textos de autoridades. Ele busca apoio da Prefeitura do Natal para alavancar sua obra.

Quando se fala em registros históricos de Natal, é impossível não associar ou remeter a figura do natalense Jaeci Emerenciano (1929-2017), um dos principais fotógrafos do século passado da capital potiguar. A maioria das fotos do acervo de Eduardo Alexandre, por exemplo, é de Jaeci.

De acordo com um dos filhos de Jaeci, Fred Galvão, 66, autor do livro “Jaeci, O Divino da Fotografia”, que conta a biografia de um dos mais importantes fotógrafos do Estado, mesmo com a morte de Jaeci, muitos natalenses lembram do trabalho de seu pai, que fotografou paisagens inesquecíveis de uma Natal de outros tempos.
Fred Galvão relembra as paisagens inesquecíveis do pai, Jaeci
Fred Galvão relembra as paisagens inesquecíveis do pai, Jaeci

“Até hoje é muitíssimo valorizado. Em todo canto que eu chego existem comentários sobre papai. Ele fotogravava os grandes eventos de Natal. Fez a campanha de Aluízio Alves, de Monsenhor Walfredo Gurgel. Desde a época que ele trabalhava, ele era premiado. No Brasil todo mundo conhecia ele”, comenta orgulhoso sobre o pai. Fotos icônicas da praia de Ponta Negra no início do século XX, do Forte dos Reis Magos, do Rio Potengi e de vários outros locais foram captadas pelas lentes de Jaeci. Filhos e netos do fotógrafo seguiram o caminho do avô na profissão, como Fred Galvão e Jaeci Jr, por exemplo, e os netos Paula Galvão e Fred Filho.

Acervos digitais remontam história da capital
Criadas de forma despretensiosa, mas com muitos fãs e seguidores, duas páginas no Facebook relembram e preservam a história de Natal com fotos históricas e situam as novas gerações em relação a capital potiguar  de outros tempos.

Com fotos enviadas por seguidores e algumas pesquisadas na própria internet, as páginas “Natal de Ontem” e “Natal Nostálgica” e  contam com quase 60 mil seguidores, somadas, e têm cronogramas próprios de postagem. Criadas por dois natalenses, a ideia é remontar  a Natal do passado.  

“Surgiu de uma necessidade minha de conhecer um pouco mais de Natal através de fotos do passado e revisitar o que eu vivi, mas eu vi que era muito difícil. De uma hora para outra essas imagens foram aparecendo e eu fui alimentando. Muitas pessoas procuram a página e cedem essas imagens”, explica Thiago Morais Bezerra, 34 anos, professor de História e administrador da página Natal de Ontem. Ele conta que posta pelo menos três fotos por semana e que criou a página em 2015. À época, lembra, Thiago postava as fotos antigas em seu perfil pessoal, mas viu que os internautas gostaram e resolveu criar a página. Em pouco tempo, se assustou com o alto número de seguidores: de 400 para 5.000.
Acervo revela recorte de praias urbanas na década de  1960
Acervo revela recorte de praias urbanas na década de  1960

Criada mais recentemente, há quase um ano, a página “Natal Nostálgica” surgiu quase que da mesma forma parecida. Fundada pelo natalense Haleson Oliveira, 36 anos, profissional autônomo, ao lado dos amigos  Paulo Oliveira e Ricardo França, ele conta que muitos seguidores enviam as fotos que são postadas quase que diariamente na página, mas algumas são de um acervo que ele mesmo reuniu. Assim como Thiago, ele diz que se preocupa bastante em dar os devidos créditos das fotografias.

“Eu acho importante dar os créditos. Um cara como Eduardo Garcia, pesquisador há muito tempo, eu falei com ele e ele me autorizou a pegar as fotos.  Eu já vi muita gente pegando foto da minha página, mas não ligo. Mas tem pessoas que vão buscar, como ele que acessou vários acervos. Tem que dar o crédito”, explica.

Um ponto citado por todos os entrevistados foi a falta de um espaço específico em Natal para cultivar e espalhar a história da capital potiguar para turistas, natalenses e visitantes.

“O que eu sinto mais falta, além disso, é do Poder Público abraçar mesmo a história de Natal. Quando a gente vê os turistas, eles ficam presos a ideia de praia e praia. A Fortaleza dos Reis Magos, um museu histórico, está há uns anos fechados. Os turistas poderiam fazer o circuito histórico pela cidade e a prefeitura poderia chamar para si essa responsabilidade”, cita Thiago Morais.

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