Luana Tolentino – Educadora fala sobre escola inclusiva

Publicação: 2019-12-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Convidada esta semana para o I Seminário de Docência de Natal, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Natal, Luana Tolentino, versou sobre o tema “Por uma educação antirracista, feminista e inclusiva: desafios e possibilidades”. A TRIBUNA DO NORTE conversou com Luana minutos antes da palestra, quando abordou sobre a realidade das salas de aula brasileiras e sobre esperança.

Créditos: Adriano AbreuLuana TolentinoLuana Tolentino

Seu nome poderia ser Esperança, mas é Luana Tolentino. Desde criança ela sonhava em ser professora, quando dava aulas para os bonecos e amigos da rua, além dos seus três irmãos. Natural de Belo Horizonte, desde os oito anos de idade ouvia sua mãe dizer “eu não quero saber de professora aqui dentro de casa”. Ela se calava, mas guardava latente o desejo. 

Sua mãe cozinheira e seu pai comerciante, a vida nunca foi fácil. Ela, muitas vezes se virava limpando casas, quintais para ajudar em casa. Com muito esforço, seus irmãos se formaram. Um se tornou enfermeiro, sua irmã gêmea estudou nutrição e ela é a única professora da família. 

Um dos impulsos para a profissão foi e é enfrentar o racismo. “Isso vem da minha infância, eu sofri muito pela questão do racismo, pela discriminação que vivia em sala de aula. E o trabalho tem ligação com a nossa trajetória. Quando eu trato esses temas hoje em sala de aula é também em razão da minha experiência de vida, para que meus alunos não passem por aquilo que passei enquanto estudantes”, disse.

Luana ficou conhecida com uma postagem em sua página nas redes sociais, quando uma mulher, que ela sequer conhecia, perguntou se ela fazia faxina. E ela seguramente disse: “ Não. Faço mestrado. Sou professora”. Com mais de dois mil e quinhentos compartilhamentos, a história rodou o país e acendeu uma reflexão importante sobre respeito  aos negros e o racismo estruturado na sociedade. 

Luana escreveu em suas redes: “No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel”. Sua vida prova o contrário. 

De 2008 até março desse ano, ela fez parte do quadro de professores de História do Ensino Fundamental até o Ensino Médio em escolas públicas de Belo Horizonte. Em Março, tomou posse na Universidade de Ouro Preto como professora do curso superior no departamento de Pedagogia, quando continua seu trabalho com a formação de professores. 

Além de professora, ela é escritora, pesquisadora e faz parte dos grupos de pesquisa Mulheres em Letras e o Núcleo de Estudos da Alteridade (NEIA), ambos vinculados à Faculdade de Letras da UFMG. Possui artigos e capítulos de livros publicados a respeito de temas como gênero, raça e Educação das Relações Étnico-Raciais e acaba de lançar “Outra Educação é Possível: Feminismo, Antirracismo e Inclusão em Sala de Aula” pela editora Mazza.  Sobre seus sonhos, pensamentos e história de vida, Luana conversou com a TRIBUNA DO NORTE minutos antes de sua palestra. 

Confira: 

O tema da palestra é o mesmo do seu livro. Qual a abordagem?
Abordar os temas que norteiam o meu trabalho como pesquisadora e também como professora, a educação anti-racista, feminista e inclusiva é o norte do meu trabalho como professora da educação básica e mais recentemente como professora universitária.
O principal é pensar os desafios e as possibilidades da implementação de uma educação com esse viés. A escola ainda é um espaço de opressão e a educação nesse país tem o papel de manter as desigualdades. Pensar essas questões é tentar superar essas características da educação aqui no Brasil. A escola ainda é um lugar que exclui o negro, assim como as meninas também vivem um processo opressor. É uma tentativa de desconstruir tudo isso para que a educação cumpra seu papel de libertar e incluir.

Você pesquisa sobre as escolas no Brasil. Como você tem observado a realidade? 
A educação como parte da sociedade, ela vai reproduzir os esteriótipos todos que acontecem aqui fora, se somos um país machista, racista isso vai refletir na escola. Por isso é preciso pensar políticas públicas, práticas, metodologias, para combater tudo isso. 
Pensando no meu trabalho, quando eu cheguei na escola básica, lá em 2008, foi a realização de um sonho, porém me deparei com um contexto de muita violência e muita pobreza e falei “eu não gostaria de dar aula numa escola assim e nem gostaria que meus alunos estudassem num ambiente assim”. Essas dificuldades me motivaram a sonhar e pensar outra educação. Outra educação é possível. A escola não tem que ser como ela em boa parte do tempo é. Esse seminário reforça e é a prova de que outra educação é possível. Existem práticas comprometidas com essa quebra de tudo isso, de pensar um novo modelo de educação, um modelo mais afetivo. 

E o que precisa mudar?
Ao acompanhar escolas no país inteiro, a percepção é que as questões estruturais precisam ser repensadas. Enquanto não houver o desejo de mudar essa questão, continuaremos enfrentando esses problemas. Precisamos refletir nossas práticas nossas ações, porque elas contribuem para processos de exclusão para expulsão escolar de determinados grupos. A necessidade é repensar as práticas feitas pelos professores. Antes de aplicar qualquer prática, pensar se essas práticas não são práticas racistas? Machistas? Elas excluem o aluno? É fundamental que se repense.

Quem são suas referências e inspirações para essa mudança? 
A escritora americana Bell Hooks é fundamental na minha história. E a maior influência é Paulo Freire. Eles são luz no caminho.

O que você sonha hoje?
Eu falo muito de esperança. Um aluno me mandou um e-mail e escreveu que achava estranho por eu falar sempre de esperança e no final ele viu a importância da esperança no mundo e principalmente na escola. Precisamos ser propositivos, podemos transformar a vida dos nossos alunos e alunas nesse processo. 

A gente observa muito pensando a questão do racismo dentro das escolas. O que as escolas estão fazendo com os estudantes negros? Com acesso aos dados, podemos perceber que são os negros que tem maior índice de abandono nas escolas. Uma palavra de bloqueio pode castrar uma trajetória que poderia ser bonita como a minha.

Tem um capítulo no meu livro que é: “O que eu gostaria que a minha professora soubesse?”. É essencial que o professor possa acolher o aluno, respeitar sua história de vida, suas memórias. É importante conhecer a história de vida do aluno. Sair desse lugar do silêncio, da omissão para ter uma atitude importante diante do racismo em sala de aula, da violência contra mulher. Esse é meu sonho, transformar. 

Qual o papel do professor nesse processo de transformação?
Pensar na responsabilidade que o professor tem como papel social que devemos ter, em meio a esse cenário de dificuldades que estamos vivendo e pensar o que podemos fazer para enfrentar a situação para que daqui um tempo possamos estar num lugar melhor. Nós professores precisamos assumir o lugar de pensadores da educação. Não é só o lugar do transmissor de conteúdo, mas ir além disso. Repensar nossa relação com os estudantes. Uma vez ouvi “precisamos tratar os alunos como pessoas, cada um tem uma história e não dá para colocar os alunos dentro de uma caixa”. É isso! É reconhecer cada pessoa que passa por nossas vidas com sua inteireza, para além das notas, avaliações e dos resultados. Hoje existe esse foco nos alunos que atendem às expectativas da escola e os demais ficam apartados, excluídos. A escola é para todos e todas, nós precisamos respeitar a particularidade de cada um. A Escola é um direito, não é um favor. 



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