Luar de Natal transforma noite do Centro com música nas varandas

Publicação: 2019-08-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter do VIVER

Aquele espírito antigo, boêmio, de atravessar a noite tocando e cantarolando músicas românticas pelas ruas, tão bem resgatado pelo projeto Serenata ao Luar de Natal em 2014, tomará novamente as ruas da cidade. O projeto está sendo retomado depois de dois anos parado. Estão garantidas dez edições no Centro Histórico, sempre quinzenais, através do Edital de Ocupação do Centro Histórico lançado pela Prefeitura de Natal, patrocinadora do projeto. A primeira acontece nesta sexta-feira (30), a partir das 20h, com concentração na Praça João Maria e percurso até o Bar do Zé Reeira. O acesso é gratuito.

A rua em frente ao Sr Petita Café já está virando ponto de encontro dias antes da serenata, para acompanhar o ensaio da banda, que nesta edição terá Liz Nôga, Fernando Botelho, Carlos Zens, Ricardo Baya e outros músicos convidados
A rua em frente ao Sr Petita Café já está virando ponto de encontro dias antes da serenata, para acompanhar o ensaio da banda, que nesta edição terá Liz Nôga, Fernando Botelho, Carlos Zens, Ricardo Baya e outros músicos convidados

Idealizadora e coordenadora do Serenata ao Luar, Mary Stella Bezerril conta à TRIBUNA DO NORTE que o projeto mexe com recordações familiares, porque as músicas que são tocadas marcaram várias gerações e são ouvidas até hoje. “É um estilo musical que não tem moda. Agrada desde bisavô até o netinho. É um projeto que traz recordações boas, aproxima as pessoas. Quem já foi sabe. Já recebemos depoimentos de gente que falou que há muito tempo não via algo em que pudesse ir com toda a família”, comenta a coordenadora do projeto.

A serenata acontece em trajeto itinerante pela Cidade Alta, puxado por um time de músicos de primeira, que interpretam ao vivo um repertório afetivo que vai de boleros à sambas-canção. O povo vai atrás cantando junto.

Bares e residências
O percurso tem paradas estratégicas, seja em bares que tenham a ver com aquele espírito boêmio, seresteiro, ou em casas de moradores, trazendo de volta aquele simbolismo da música sendo tocada embaixo da janela. A cada parada mais e mais gente vai se somando ao movimento. “Nas edições passadas aparecia entre duas e três mil pessoas. É algo que agradou bastante os moradores do bairro”, conta Mary Bezerril, residente na Cidade Alta desde que nasceu, há 48 anos.

Mary explica que teve a ideia do projeto ao ver uma serenata em passeio por Ouro Preto, em Minas Gerais. Achou a proposta maravilhosa e viu a possibilidade de realizar algo do tipo em Natal, no seu bairro. Antes, resolveu pesquisar mais, foi à Olinda, ver um projeto de seresta que existe há mais de 30 anos, e foi ao Rio de Janeiro, ver a experiência da Serenata de Conservatória, no sul do estado, realizada há pelo menos 140 anos, tida como um patrimônio local.

Seresteiros natalenses
“Mas Natal também tem uma história de seresta, principalmente no Centro Histórico. Fomos atrás dessas origens. Tinham as famílias Canuto e Botelho, por exemplo, que costumavam tocar na porta das casas aqui do Centro”, lembra a coordenadora do projeto. A retomada do Serenata ao Luar conta com recursos do Edital do Centro Histórico. Mas o projeto também está aprovado nas leis de incentivo fiscal e está em busca de  patrocínio – o que já aconteceu na edição no ano de 2017.

A banda é formada por Ricardo Baya (viola), Fernando Botelho (violão), Fernandinho Regis (bandolin), Robson Galvão (cavaquinho), Carlos Zens (flauta), Jailton Torres (percussão) e Bruno Torres (percussão). Para puxar as músicas nesta primeira edição foi convidado o cantor Liz Noga – artista que tem forte relação com serestas.

Projeto Serenatas ao Luar de Natal recupera o espírito boêmio
Projeto Serenatas ao Luar de Natal recupera o espírito boêmio

“Nas antigas, o Liz Noga teve um bar na Praia dos Artistas, o 'Carinhoso', onde aconteciam serestas. Agora é cantor que se apresenta na casa das pessoas com o violão”, detalha Mary. “Também já contamos com músico da família Canuto na banda em edições passadas. Agora estamos com o Fernando, da família Botelho. É um projeto que tem essa preocupação com as origens”.

Estações
Uma curiosidade é que o projeto busca se aproximar dos moradores e estabelecimentos locais. Isso acontece com as tais paradas estratégicas, chamadas de estações. O percurso desta edição, por exemplo, vai contar com quatro estações: “Carinhoso”, “Naquela Mesa”, “Ave Maria do Morro” e “Cinderela”, todas músicas que emocionaram gerações e gerações.

“Carinhoso” será cantada em frente a casa da senhora Ana Maria, na rua Voluntários da Pátria. A canção foi escolha dela. “Ana Maria tem uma mãe idosa, falou que essa música traz boas recordações para a família”, diz a produtora, informando que a cada edição novas estações são escolhidas. “Geralmente as pessoas vão para a janela, ligam as luzes de casa. É algo que emociona as pessoas. No Bar do Zé Reeira, por exemplo, a música vai mexer demais com ele. 'Cinderela' era o nome de seu primeiro bar”.

Como o público é grande, os instrumentos são ligados a uma caixa de som, no caso, um carrinho de som, algo como um carrinho de picolé tunado, com mesa de som com 12 canais e um pequeno gerador de energia. E o grafite foi cortesia do grafiteiro paulista queridinho de Natal, Dicesarlove.

 “Com esse movimento de revitalização do Centro Histórico a gente aqui de casa se envolveu bastante. Demos total apoio, emprestamos escada. Nossa casa ficou como ponto de apoio. E o Dicesarlove ficava muito por aqui. Um dia, curioso com o carrinho na garagem, quis saber a história. Falei do projeto e ele se ofereceu para pintar”, conta Mary.

A retomada do projeto acontece justamente quando a Cidade Alta vive um momento de grande agitação cultural e de interesse por parte da população. Diante disso, Mary não sabe o que esperar. “Quando começamos em 2014 praticamente não tinha nada. Luz, segurança. Muitos lugares ficavam fechados à noite. E mesmo nesse cenário a gente juntava quase três mil pessoas. Agora estamos vendo o centro borbulhando. Não sei o que esperar”, comenta.

Percurso
Concentração: Praça Padre João Maria, às 20h

Estação Carinhoso: Casa da Sra. Ana Maria (Rua Voluntários da Pátria, 669)

Estação Naquela Mesa: Sr Petita Café e Pastelaria (Rua Voluntários da Pátria, 672)

Estação Ave Maria do Morro: Igreja do Galo (Rua Santo Antônio)

Estação Cinderela (encerramento): Bar do Zé Reeira (Espaço Cultural Rui Pereira)




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