Luiz Damasceno em 50 versões e uma entrevista

Publicação: 2013-05-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Nelson Patriota - escritor

Alguém já disse que é difícil em Natal encontrar quem não tenha pelo menos um livro sugerido por Luiz Damasceno, referindo-se ao tempo em que ele atuou por trás dos balcões das livrarias da cidade. Na verdade, ninguém assumiu de forma tão consequente e passional o papel de divulgador do livro e da leitura, em nosso meio, como esse livreiro cuja trajetória começou nos anos 60 na Livraria Universitária de Walter Pereira. Nos poucos anos que ali passou, Luiz se mostrou um vendedor tão diferenciado de seus pares que logo se tornou uma referência indispensável. Desde essa época, ele se destacou por não só sugerir livros, mas por conhecer os gostos e preferências literárias de seus amigos e clientes.

Era tão forte a relação entre Luiz Damasceno e os livros que quando foi criada a Cooperativa Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, naturalmente se cogitou em seu nome para viabilizar aquela iniciativa, graças ao seu conhecimento amplo e criterioso da área.

Aposentado há poucos anos da Cooperativa Universitária e padecendo de um mal incapacitante, Luiz Damasceno ainda hoje é uma referência incontornável no campo do livro em Natal. “Ninguém conhecia os livros tão bem como Luiz”, se ouve dizer com frequência, sempre que se toque nesse assunto.

Personagem consagrado pelo seu próprio esforço, espécie de “self-made man” do mundo do livro, Luiz Damasceno ganha agora uma homenagem justa pelo trabalho que desenvolveu durante toda a sua vida útil. Trata-se do livro “Viva Luiz Damasceno”, editado pela Editora da UFRN em parceria com a Cooperativa Cultural da UFRN e organizado pelo professor Marcos Silva. Essa obra, que será lançada com pompa e circunstância no dia 10 próximo, no auditório do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN - NAC (Campus Universitário da UFRN), às 18 horas, apresenta pelo menos 50 visões e versões de Luiz Damasceno, num esforço de interpretação que mobilizou escritores, professores, jornalistas, amigos e admiradores do livreiro. Quanto aos textos assinados por Bené Chaves, Francisco Sobreira e Nássaro Nasser, por não apresentarem correlação direta com Luiz Damasceno, parecem fora de lugar.

O texto do programa “Memória Viva” enfocando a vida de Luiz Damasceno, e que foi ao ar na TV Universitária da UFRN no dia no dia 1º de agosto de 2005, também integra o livro, e serve assim como uma espécie de réplica às 50 versões do personagem. De fato, na entrevista, conduzida pelo escritor e apresentador Tarcísio Gurgel, e enriquecida com as presenças do escritor Pedro Vicente Costa Sobrinho e do professor Antonio Capistrano, Luiz Damasceno filtra, “a posteriori”, muitas informações que circulam a seu respeito nas páginas do livro. Por outro lado, o entrevistado corrobora outras tantas informações de cunho pessoal, enquanto discorre sobre seus trabalhos, sua militância no Partido Comunista, suas leituras e suas relações com a clientela de amigos e conhecidos que sempre fez pelas livrarias por onde andou, especialmente na Universitária, na época do livreiro Walter Pereira, e na Cooperativa da UFRN.

É evidente que alguém que, como Luiz Damasceno, fez da controvérsia um estilo de vida, coloca-se naturalmente à margem de qualquer consenso de seus intérpretes, visto que “cada cabeça, uma sentença”. Aí, talvez, resida o mérito principal desse “Viva Luiz Damasceno”, propondo, a cada capítulo, um aspecto, um chiste, um cacoete, uma anedota, que fez do livreiro uma lenda num setor conhecido mais pelo pragmatismo do que pela verve e o improviso de seus agentes.

Mas é bem possível que, por trás do livreiro polemista e sempre inconformado, se encontre sua máxima virtude, na medida em que nos adverte contra o consenso fácil que seduz à primeira vista, mas cuja outra face é o logro e a decepção. Sem falar que sua ética miúda, mantida a toque de ironias ditas e subentendidas, muitas vezes acertou o alvo.





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