Política
'Lula não vai curar as feridas deixadas por Bolsonaro', diz Eduardo Leite
Publicado: 00:00:00 - 11/07/2021 Atualizado: 08:12:12 - 11/07/2021
Everton Dantas
Diretor de Redação
e Virgínia Coelli
Jovem Pan News Natal

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, 36 anos, pretende se candidatar à Presidência da República. Antes, tem que passar pelas prévias do PSDB, que estão marcadas para novembro. Até o momento também concorrem nas prévias tucanas o governador de São Paulo, João Doria, o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-senador Arthur Virgílio (AM). “Vou trabalhar tudo o que posso para evitar o segundo turno [na eleição presidencial com Lula e Bolsonaro] e tenho confiança de que encontraremos a população — no seu sentimento, na sua mente e no seus coração — com essa mesma vontade”,  afirma Eduardo Leite. “Lula não vai curar as feridas deixadas por Bolsonaro”, acrescenta. O governador do Rio Grande do Sul há pouco mais de uma semana disse em uma entrevista que é gay. Agora nega cálculo eleitoral no anúncio, mas sim a intenção de demonstrar que não tem o que esconder.  Ele aponta também, nesta entrevista, que há elementos para abrir um processo de impeachment contra o presidente Bolsonaro. 

Divulgação


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Uma semana depois da entrevista na qual o senhor disse ser gay, como avalia a repercussão? 
É natural que se tenha uma repercussão. Imaginava que teria, não sabia que seria tão grande, até porque faço questão de deixar claro. Nunca criei um personagem. Nunca disse que não era, desde, pelo menos, o momento em que eu mesmo me entendi gay, embora sejamos criados, ainda, dentro de uma cultura que nos faz acreditar que isso é errado. Aos poucos a sociedade vai evoluindo e entendendo que isso deveria ser uma “não questão”, mas, por enquanto, ainda é. Portanto, declarar publicamente a minha orientação sexual é um fato, mas aos poucos as pessoas vão entendendo isso. Recebi mensagens de apoio e de carinho, demonstrações, até emocionadas, de o quanto isso tocou na vida de muitas pessoas e suas famílias, gente que não falava no assunto dentro de casa, que tinha brigado com irmão por conta deste tema e que se reconciliaram. No momento em que ocupo uma função relevante como governador do Estado do Rio Grande do Sul, falar sobre minha orientação sexual também toca na vida das outras pessoas e fico feliz no momento em que elas, talvez por algum exemplo, possam entender um pouco melhor sobre o assunto. 

Alguns cientistas políticos acham que essa sua declaração poderá ter um impacto direto nas eleições de 2022, caso o senhor dispute a Presidência da República... 
Eu me coloquei nessa condição de falar publicamente a respeito do tema, preocupado justamente em abordar isso antes de chegar a qualquer discussão eleitoral.  Neste momento, a discussão eleitoral está distante da população em geral. Está próxima da classe política, dos analistas  Não falar sobre isso, deixaria um assunto sendo tratado por adversários, como se tivesse algo a esconder e não tenho nada a esconder. Isso não é nada de errado, eu me orgulho de ser quem sou e de me apresentar do jeito que sou para a população. Não tem nada de errado. Outros aí, que escondem "rachadinha", "mensalão", "petrolão", superfaturamento de vacinas, têm coisas a esconder. Eu não deixaria que tentassem fazer crer, que eu tivesse algo a esconder. Por isso, resolvi falar neste momento, mas sem  cálculo eleitoral qualquer, justamente porque está distante da eleição. Falei disso antes de que se incendiasse o debate eleitoral e espero que isso possa ser enxergado com naturalidade, principalmente, demonstrando a minha preocupação de transparência, de integridade na forma como me apresento para a população. Se isso vai de alguma forma repercutir eleitoralmente, positivamente ou negativamente, isso é menos relevante para mim.  O importante é que eu possa me apresentar  para a população do jeito que sou.

De toda forma, a declaração o colocou mais próximo da opinião pública? Na hora em que deu essa declaração, o nome entrou no jogo? 
Dá alguma visibilidade, mas não fiz não buscando isso. É bom que o Brasil comece a falar mais sobre amor do que sobre ódio. A política está tão cheia de ódio, de radicalismos, de tentativas de destruir o outro. A forma como o assunto foi tratado da semana passada para cá é mais sobre amor, afeto, carinho.  Eu fiz o meu movimento, até porque estou namorando e não é justo com o meu namorado que tenha uma vida, que nunca foi escondida... Então é como eu disse, fico feliz ser quem eu sou, diante dos olhos de todos e também ser avaliado pelas coisas que sou capaz de fazer para focar o nosso debate, inclusive, naquilo que precisa ser feito para o nosso país mais do que sobre orientação sexual. Sou governador de um Estado que estava quebrado, não conseguia pagar as contas em dia, atrasando salários dos servidores e pagamento de fornecedores, prestadores de serviços. Está tudo rigorosamente em dia. Hospitais que recebiam atrasados, servidores que recebiam atrasados, todos estão recebendo em dia e o Estado agora faz investimentos importantes em áreas estratégicas.  

Como o senhor avalia a situação daquelas outras pessoas, que não tiveram a oportunidade de declarar antes? E houve o caso do Rio Grande do Norte, porque no mesmo dia que o senhor declarou, e com a repercussão, a governadora disse que "nunca teve a vida privada dela dentro de um armário"... 
Quero também agradecer a manifestação da governadora Fátima Bezerra (PT), afetuosa, cuidadosa e carinhosa com o tema, como deve ser. Eu também não tive a minha vida dentro de um armário, simplesmente não expunha, não tratava do tema. Mas achei que era o momento importante de verbalizar, falar mais alto a respeito disso, até por conta dos privilégios, por ser homem, branco, filho de professores universitários, uma família que me deu toda a condição, o carinho, o suporte necessário para eu desenvolver os meus potenciais, diferentemente de tantas outras pessoas, que além de discriminadas por serem LGBT, também são mais vulneráveis por estarem em comunidades pobres, negras, ou outras minorias associadas a essa condição de orientação sexual. Então, sem dúvida nenhuma, acho mais importante usar esse espaço que tenho para falar a respeito, fugindo dos preconceitos e dos estereótipos, mostrando que podem estar em qualquer lugar. Tenho orgulho de ter aqui, no nosso governo, a primeira secretária adjunta de Estado, ocupando uma função importante, uma transsexual, assim como tenho orgulho, ao longo dos meus mandatos, desde vereador e prefeito que eu fui em Pelotas, e governador, sempre tratar do tema da igualdade e dos direitos LGBT, e dos direitos das mulheres, dos negros, do combate ao racismo, entre tantos outros enfrentamentos na luta contra a desigualdade e da luta pela igualdade e tolerância. O respeito sempre foi pauta dos meus mandatos, independentemente de falar publicamente sobre esse tema ou não. Fora tantas outras pessoas que, antes de mim, enfrentaram lutas com muito mais preconceito para que eu pudesse chegar, hoje, com segurança e tranquilidade para falar sobre esse assunto, sabendo que haveria mais acolhimento. Tantas outras pessoas no passado enfrentaram mais preconceitos que não acharia por direito me colocar como líder dessa luta. Tem muito ativismo importante sobre esse tema. É importante a luta desses ativistas e eu, nas posições em que estive e estou neste momento, procuro ajudar, dar minha contribuição. 

O que foi definitivo para disputar as prévias presidenciais no PSDB?
Fui convidado por deputados do PSDB, que vieram ao Rio Grande do Sul e me provocaram para entrar nesse debate, pensando que tenho algo a falar para o Brasil sobre o que estamos fazendo aqui no Estado. Como eu falei, o estado teve a pior situação fiscal do Brasil. Isso quem diz são análises econômicas feitas por consultorias independentes, que mostram as contas públicas. Entrei em um estado que não conseguia pagar as contas em dia,  mas viramos esse jogo. Agora o Estado tem regularidade nos seus pagamentos, promove investimentos, está se modernizando. Então, fomos provocados por deputados e senadores do meu partido e entendo que tenho algo a colaborar e, por isso, me lancei nessa jornada para ajudar a construir um caminho alternativo para o Brasil. 

Qual argumento vai levar para convencer o PSDB de que seu nome pode ser viabilizado?
Não existe uma conta matemática, uma Ciência Exata que diga: “Junta isso e aquilo, faça a conta, essa é a fórmula da candidatura”. Acho que é sobre a gente se apresentar, usar a oportunidade das prévias para apresentar o trabalho. O PSDB tem muitos bons quadros, o governador João Dória, de São Paulo, é um quadro importante da política e que administrativamente cumpre um trabalho importante no seu estado, viabilizando investimentos. Na própria pandemia, teve uma atuação destacada para viabilizar a vacina. O senador Tasso Jereissati, do Ceará, por quem tenho a maior admiração, fez um trabalho exemplar como governador e hoje senador. O ex-senador Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus (AM), também tem atuação relevante na política, com experiência administrativa. São bons quadros e acho que é a oportunidade de cada um se apresentar para os filiados e o colégio eleitoral do partido, buscar entendimento dos colegas. Argumentar que o nosso nome, nossa cara, o nosso jeito de agir, o nosso estilo é melhor e se conecta ao sentimento das ruas, mas com absoluta humildade, tranquilidade, porque política não é sobre a gente, não é para atender o meu interesse pessoal, aspiração pessoal de ser presidente, é para ajudar um projeto para o país. Então, se entenderem que tem um projeto comum para o país, a gente tem o entendimento de um projeto comum e tem que buscar uma liderança que vai se conectar com o sentimento das ruas, talvez por ter a experiência administrativa que já mostrei aqui, pela juventude, por ser uma cara nova. Se entenderem que neste país querem alguém mais “senior”, alguém com outro estilo... Vamos ajudar aqueles que podem viabilizar uma outra alternativa. O importante é que o Brasil precisa cicatrizar as feridas e entendo que Lula, por exemplo, não vai curar as feridas deixadas por Bolsonaro, porque faz parte dessa cicatriz. Faz parte dessa ferida que incendiou ao longo dos anos do governo do PT, uma luta de nós contra eles, como se fosse o bem contra o mal. Isso foi gerando esse radicalismo. Isso foi incentivando uma reação contrária que gerou Bolsonaro e é resultado, infelizmente, desta tentativa do PT e do Lula de se mostrarem como os únicos honestos, os únicos que se importam, os únicos que fazem. E não é assim. Não entendo a política desse jeito, entendo a política com mais humildade, com mais equilíbrio e sensatez, trazendo para o bom-senso, o diálogo e a conversa política.  Acho que o Brasil precisa encerrar esse capítulo dessa disputa e criar um caminho novo. É nesse sentido que eu espero me apresentar.

Confira entrevista na íntegra: 

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