Luto na arte: Alberto Barros da Rocha faleceu na madrugada de terça-feira aos 60 anos

Publicação: 2020-10-28 00:00:00
Tádzio França
Repórter

Alberto Barros da Rocha, mais conhecido como Júnior D’Alberto, diretor de teatro, dramaturgo e escritor potiguar, faleceu na madrugada de terça-feira aos 60 anos, por complicações de Covid-19. Segundo amigos, o artista esteve internado por mais de duas semanas desde que começou a se sentir mal, no dia 13 de outubro. D’Alberto deixa saudades na cena cultural natalense, além de uma extensa e diversa obra no teatro e na literatura a ser lida, apreciada e adaptada para os palcos que virão.

Créditos: DivulgaçãoJúnior D’Alberto escreveu e dirigiu “Borderline” encenada na foto maiorJúnior D’Alberto escreveu e dirigiu “Borderline” encenada na foto maior

Júnior D’Alberto nasceu como pseudônimo de Alberto Barros por um motivo curioso: durante 30 anos o dramaturgo trabalhou como agente da Polícia Federal, talvez um dos seus papéis mais inusitados. Devido ao trabalho na instituição, Júnior viajou por todo o país e até exterior, ao mesmo tempo em que lia, estudava e criava suas obras. Era também formado em Ciências Contábeis pela UFRN. Escreveu dramas, comédias, literatura infantil, contos, realismo fantástico, poesia. O ex-policial federal não tinha amarras.

O artista potiguar escreveu 15 peças de teatro e dois roteiros de musicais. Uma das primeiras incursões de D’Alberto na dramaturgia foi “Um robô no mundo da fantasia”, texto seu que foi encenado no Teatro Tereza Raquel, em 1981, quando estava no Rio de Janeiro. Ficou um ano em cartaz. Ainda na seara infantil, já em Natal, montou o sucesso “Na Trilha da Ilha da Caveira que Ri”, encenado em 1997, 2005 e 2008. Outro texto seu que embalou a criançada foi “Pinóquio e o circo”.

A paixão pela literatura, que posteriormente levaria ao teatro, ele contava ter despertado ainda criança, aos oito anos de idade. Trocava fácil as peladas com os amigos por horas entre estantes e corredores da Biblioteca Câmara Cascudo. “Quando ainda era uma excelente biblioteca. Passei por lá e fiquei muito triste com o que vi. Vou deixar um exemplar de meu livro por lá”, declarou à Tribuna do Norte em uma reportagem de 2011. Segundo ele, aos 10 anos de idade já havia lido vários clássicos da literatura brasileira.

Teatro Mágico
O romance “Pipa voada sobre brancas dunas” (2011) provou a versatilidade de Júnior D’Alberto em suas propostas artísticas. Inspirada em Gabriel Garcia Marquez, a obra contava as histórias de uma imaginária vila de pescadores do litoral potiguar. Em 2012, o artista lançou “O Teatro Mágico de Júnior D’Alberto”, uma coletânea de cinco textos seus de teatro infantil. A publicação foi lançada junto com o espetáculo “Titina e a fada dos sonhos”. Júnior queria que o livro despertasse na criança o gosto pela leitura e pelo teatro. Chegou a ser distribuído em várias escolas públicas.

“Eu gosto de escrever, de contar histórias para qualquer tipo de público, não só pra criança”, declarou à TN em 2012. Uma prova disso foi “O Velório da Marquesa Di Fátimo”, comédia que fez um sucesso tremendo no Teatro Alberto Maranhão. A peça trazia atores da Cia Vice-Versa de Teatro, ‘montados’ de mulher, para abordar temas tabus como morte, homossexualidade e prostituição, entre drag queens e travestis debochadas.  O texto tinha fãs declarados como a cantora Ângela Ro Ro.

Foi em 2013 que estreou nos palcos um dos textos mais fortes e premiados de Júnior D’Alberto, o monólogo “Borderline”, escrito e dirigido por ele, e encenado em sua primeira montagem pelo ator José Neto Barbosa. O espetáculo discutia os limites do existencialismo atravessado por um transtorno mental. Em 2015, a peça concorreu ao prêmio Cenym, concedido pela Academia de Artes no Teatro do Brasil, sendo indicado a melhor monólogo e melhor ator – e levando o segundo para José Neto, que venceu monstros sagrados como Ary Fontoura.

Na literatura, Júnior D’Alberto mostrou a diversidade de seus contos no livro “Cangaço e o carcará sanguinolento e outras contações de histórias”, de 2013.

O volume reunia oito histórias curtas do escritor, incluindo as que foram adaptadas para o teatro, “Borderline”, “O velório da Marquesa” e “A Barca de Caronte”, esta, adaptada e dirigida por Diana Fontes. Em 2014, outra faceta de Júnior: o poeta. Lançou “Leveza Infinita”, uma seleção de 40 poemas escritos por ele em diversas épocas de sua vida. O livro foi lançado no Festival Literário de Natal (FLIN).  Incansável, Júnior lançou no ano seguinte “Reféns nos Andes”, um relato sobre sua viagem ao Peru.  

Amigos em cena
Inquieto, acessível e multitalentoso, Júnior D’Alberto deixou muitos amigos com quem dividiu cenas diversas. Desde 2013 ele era o responsável pela direção cênica do Prêmio Hangar. Uma parceria que, segundo o produtor Marcelo Veni, vai fazer muita falta. “Tivemos uma reunião de trabalho no dia seis de outubro. Um encontro cheio de planos e divertido como sempre, falamos sobre os projetos para 2021, rimos muito, ele estava cheio de vida. Essa doença foi muito cruel com ele”, lamenta.

Veni ressalta que D’Alberto era um parceiro engajado na produção cultural da cidade, fazendo produções para o bloco das Kengas e várias ações no Centro Histórico. As parcerias foram além do Prêmio Hangar, seguindo até o concurso de marchinhas, o musical em homenagem a Dosinho, e a direção cênica da inauguração do Cine Teatro Parnamirim. “Tínhamos uma parceria rica de amizade, profissionalismo e amor à arte. Ficam esses momentos que não morrem”, disse.

Carla Alves, coordenadora do sarau Quinta das Artes, lembrou de tudo que D’Alberto contribuiu para a cultura local, mas quis ressaltar o amigo, irmão e parceiro de projetos. “Em um mundo tão carente de afetos, você soube distribuí-los e nos cativar com sua arte maior; a arte de nos deixar felizes, de aquecer nossos corações. Tudo que você fez nas artes é um presente de um bom filho para esse Estado. Suas palavras tiravam o melhor das pessoas”, afirmou.

O ator José Neto Barbosa, que despontou em “Borderline”, afirmou no Instagram estar sem estrutura para lidar com a perda do amigo e parceiro de palco. “Quantas viagens, quantas ousadias. Desbravamos um Brasil. O teatro brasileiro perde um gênio. O maior prêmio foi te ter na minha vida”, escreveu.

 Segundo Neto, havia uma nova proposta textual de “Borderline” que seria apresentada após a pandemia.

A atriz Alice Carvalho, que foi dirigida por Júnior no monólogo “Inkubus”, também lamentou a perda do mestre nas redes sociais. “Você foi minha casa segura, foi meu abraço caloroso, meu amigo, meu mentor, minha mama, minha paciência. Não sei quando vou conseguir subir num palco novamente, mas todas as vezes que o terceiro sinal tocar eu vou sentir na minha nuca sua respiração e a voz calma que diz: merda, mosquitto.”