Luz

Publicação: 2019-04-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
daciogalvao@globo.com

Em tempos mais que bicudos sobra um espaço aqui e acolá definindo um pequeno ou grande campo de esperança, de consolo. De colher de chá, como se costuma dizer. Ou de conforto e de vibração. Depois do ano de 1959, quando estreia seu primeiro filme em curta-metragem, Cacá Diegues não parou de construir sua obra cinematográfica sempre em processo evolutivo. Um ano antes o reconhecido crítico de literatura de faro finíssimo, Mário Faustino, havia publicado no Jornal do Brasil poemas reveladores do futuro cineasta. Na ocasião o ensaísta Faustino projetou comentário promissor para o sucesso do jovem escritor então com 18 anos de idade.

Na sua filmografia aparecem os títulos de Xica da Silva, Quilombo e Ganga Zumba perfazendo uma trilogia temática  abordando o afro brasileirismo hoje tão caro na discussão etno-histórica sobre o país. Na tela, o romance, Tieta do Agreste, fora adaptado da obra homônima de Jorge Amado. A mais recente produção, o Grande Circo Místico, é fundamentado no poema de 1938, do conterrâneo Jorge de Lima. Essas imersões coloca o diretor no mergulho total com a literatura brasileira e o autoprovoca para aferir alegorias em parataxes que permitem ler e sonhar para tentar reinventar o Brasil. Sempre.

Nos ingressos de novos acadêmicos na Academia Brasileira de Letras a instituição vem se renovando. As poucas presenças são ilustres. Fugindo escassamente ao convencional. Mas fugindo. É o caso de podermos referenciar em seus quadros a presença de Geraldo Eduardo Carneiro, o poeta, dramaturgo, roteirista e muitíssimo ligado a música com cabotagem desde o lendário grupo A Barca do Sol. Ao longo de anos vem se afirmando um dos principais parceiros do múltiplo instrumentista Egberto Gismonti. O poeta e filósofo, Antonio Cícero, exímio navegador de maremotos sonoros. É parceiro de Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, João Bosco e do vivíssimo Waly Salomão... Seguindo em rotas assim a ABL direcionou seu astrolábio e aportou em travelling na praia numa cena incomum. Até então apenas um cineasta calibrado, Nelson Pereira dos Santos, que dirigiu Vidas Secas, de Graciliano Ramos e Tenda dos Milagres, de Jorge Amado tinha tomado assento na Casa de Machado de Assis. Agora vem a vez de Cacá Diegues.

Então: há algumas semanas a ABL empossou Cacá Diegues um dos fundadores do movimento do Cinema Novo. O parceiro de imagens e sons de Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Milton Nascimento. O polemista das Patrulhas Ideológicas. O cineasta reconhecido em todo o mundo por saber poetizar e inserir e difundir o barroquismo antinaturalista da cultura brasileira. O escritor e autor de Ideias e Imagens, Vida de Cinema e Todo Domingo. Enfim empossou uma das maiores inteligências vivas do cenário mundial em seus quadros. Golaço.

No meio de tantas sacanagens e descrenças é preciso se agarrar em algo que signifique conteúdo, consistência. De pensamento transformador e visceral. Luminoso.  O discurso do criador de Joana Francesa, Orfeu e Bye Bye Brasil é a simbologia e o metacódigo para se descobrir possibilidades de reencontro com a nossa história. A história contada sob o prisma do coletivo até agora vencido. Do oprimido. Com alegrias e tristezas. Sem abdicar liturgicamente e, sobretudo, de um esteticismo envolvente, trágico, mas otimista.

Não é por absorção de um, dois ou três respeitáveis intelectuais em quadros de uma instituição que se vai poder reverter o atual processo de desmonte cultural em curso. Ingenuidade. Não é razoável imaginar coisa assim. Verdade que estamos no penúltimo vagão. É ponderável sim projetar que a tradução não tangível do que representa a essência das reflexões em obras desses pensadores é estimulante. É ducha de água fria na fervura que derrete utopias. Um feixe de luz irradiando o buraco negro em que estamos metidos. Contribuirá? O povão em meio ao populismo político responderá? As massas historicamente alienadas experimentará o sabor do biscoito fino? Ou ficará para sempre restrito ao paladar do brote? O fato é que pensamentos críticos e as narrativas criativas transformadas em ações sempre incomodarão. E isto essas três grandes figuras teem sobrando.








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