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Mídia e linguagem
Publicado: 00:00:00 - 03/07/2022 Atualizado: 16:38:18 - 02/07/2022
João Maria de Lima
Professor

A mídia deveria ser uma disciplina obrigatória nas escolas. O aluno deveria estudar os meios de comunicação e aprender crítica da mídia desde cedo. A escola deveria se preocupar mais em ensinar a pensar como usar a informação no ambiente online, por exemplo, já que a maioria dos internautas é muito inexperiente em matéria de manejo da notícia.

Já está provado que o conhecimento do sistema da língua é insuficiente para entender fatos linguísticos utilizados numa situação concreta de linguagem. Ou seja: é preciso estudar o uso da linguagem, e não apenas as regras. Esse é o objeto da Pragmática, a ciência do uso linguístico, que estuda as condições que governam a utilização da linguagem, a prática linguística. Ela é fundamental para identificar intencionalidades, ver os interesses por trás das notícias e sua manipulação.

Muitas vezes os leitores não estão nem conscientes do valor da informação de que faz parte das obrigações de um portal sério, que é produzir e divulgar informação de qualidade, ou seja, relevante, confirmada, dando voz a todos os envolvidos. O trabalho de checagem das informações tem de ser maior ainda na rede do que em outros meios impressos ou radiofônicos, por exemplo. Isso só vai aumentar a credibilidade, se a qualidade for maior. Se o leitor acreditar que o que está lendo naquele portal foi submetido a padrões mais altos de exigência jornalística e ética, que não se colocam no ar qualquer coisa, o trabalho, sem dúvida, será maior. Um portal é sempre variado, traz muita informação. Os leitores online são mais interativos do que os leitores de jornais. Há uma demanda muito mais imediata. 

Na educação atual, em vez de falar sobre discentes e docentes como ocupantes de papéis separados, devemos agora considerá-los constituintes do processo de ensino-aprendizagem como um novo conjunto de regras que poucos de nós, educadores, entendemos e aceitamos por completo.

Nesse modelo educacional, o estudante deve ser gerenciado e não controlado. Aqui está o grande desafio, pois os alunos têm grande dificuldade de estar de corpo e alma nas aulas. Logo, o professor tende a querer controlá-lo; quando tem de aprender a gerenciá-lo.

Nesse contexto, vive-se um paradoxo: a geração atual dispõe de tantos recursos tecnológicos, de tantas informações, que não sabe aproveitá-las. Daí a ideia do “gerenciamento”. Trata-se de uma turma dominada pela velocidade da tecnologia, que sobreviverá não pelo que sabe, mas por suas habilidades e competências para a busca e aplicação da informação e para a adaptabilidade a um ambiente em constante mutação. Os veículos de informação focam na instantaneidade, tratando de variados assuntos: alguns repercutem no futuro, outros são fugazes, têm interesse momentâneo e, por isso, envelhecem rapidamente. Assim, analisar um fato noticiado por veículos diferentes, por exemplo, em todos os aspectos linguísticos e pragmáticos, certamente, desperta curiosidade, já que – como se sabe – há interesses do próprio meio de comunicação envolvido e nem sempre o texto obedece somente a critérios jornalísticos. O suíço Bernard Schneuwly, professor da Universidade de Genebra, explica que nossas ações linguísticas cotidianas são sempre orientadas por um conjunto de fatores que atuam no contexto situacional: quem produz o texto, qual é o interlocutor, qual é a finalidade do texto e que gênero pode ser utilizado para que a comunicação atinja plenamente seu objetivo.

Nos últimos dias, foi notícia, em vários portais, um caso que chocou o país. Algumas manchetes sobre o assunto foram recolhidas dos principais veículos. Vale a pena atentar à escolha das palavras e à construção das frases (se ordem direta ou indireta) etc.

A página eletrônica da revista Istoé destacou: “A tortura psicológica que juíza impôs à menina estuprada”; enquanto a Istoé Dinheiro, do mesmo grupo, mas de público diferente, abordou o assunto de forma mais branda: “Juíza que proibiu aborto em menina estuprada é investigada”. Pode-se ver o mesmo caso com foco em pontos distintos. No segundo caso, claramente, o maior interesse é a informação. No primeiro, a frase tem palavras de carga semântica mais forte, como é o caso do substantivo “tortura”, que inicia a frase, e do verbo “impôs”. Há de se convir que “proibir” e “impor” têm significativas diferenças de sentido.

Esse é o caso dos verbos das três manchetes a seguir. Cada um remete o leitor a um sentido. O Portal R7 destacou: “Juíza que induziu menina de 11 anos estuprada a evitar aborto é promovida e deixa caso”; o Estadão disse: “Juíza de Santa Catarina nega aborto a menina de 11 anos vítima de estupro; TJ apura caso”; a Band afirmou: “SC: Juíza que impediu menina de abortar após estupro é promovida e deixa o caso”.

Trazer essa discussão à aula de língua portuguesa é gerar um ótimo debate quanto ao tema e à análise do uso da língua, além de confirmar o que dizia Jean Piaget: “Uma das principais metas da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe”.

*Artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor

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