Médica potiguar Laly Carneiro morre aos 80 anos em Paris

Publicação: 2016-07-13 17:36:00 | Comentários: 0
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Cledivânia Pereira
Editora Executiva da Tribuna do Norte

A médica potiguar Maria Laly Carneiro, primeira mulher presa no Estado pelo regime militar, morreu ontem (12) em Paris. Laly nasceu em Mossoró e estava com 80 anos. Desde 1966 vivia na França, para onde foi exilada. Lá, em 1967, casou com um conde francês e teve três filhos. Laly Carneiro era uma das mais conceituadas neurocirurgiãs da França e chegou a dirigir  a Neurorreanimação do Hospital Sainte-Anne-Paris.

Amigos da médica preparam missa em memória de Laly, mas o dia, horário e local da homenagem ainda não estão definidos. O velório de Laly – que deve ocorrer na França – também ainda não tem data divulgada.
Divulgação/OABMissa em memória de Laly será celebrada em NatalMissa em memória de Laly será celebrada em Natal

História

Reportagem publicada pela TRIBUNA DO NORTE em março de 2014 traz informações e trechos de depoimentos da médica sobre a prisão em 1964. A então aluna de Medicina da UFRN foi presa na faculdade e levada para o 16 RI, para a mesma cela “pequena e insalubre” que havia ficado Djalma Maranhão. “Fui levada como em guerra, num jipe com quatro homens armados, sem palavras e sem violência”, afirmou.

Laly ficou presa dois meses. Além de sessões contínuas de interrogatórios, ela era exposta a execração de esposas de oficiais e até a simulação de um fuzilamento. “Não fui torturada fisicamente, não me violaram, mas fizeram um estrago enorme internamente. Uma noite, me levaram ao pé do morro, sozinha, e soldados se posicionavam para atirar. Tive muito medo, mas era parte da tortura psicológica”, disse.
Divulgação/OABLaly foi homenageada em 2014 pela OABLaly foi homenageada em 2014 pela OAB

Em liberdade por um habeas corpus impetrado por Otto de Brito Guerra, sofreu com o preconceito para concluir a faculdade de Medicina, um ano depois, e seguir para a França. “Ficar em liberdade foi igualmente difícil. Muitos professores pediam para que eu não falassem com eles. Terminei o curso sob o menosprezo”, afirma.

Homenagem

Em 2014, a médica recebeu homenagem da OAB-RN, onde proferiu palestras detalhando sua história de luta política na defesa da democracia.

Trechos da palestra de Laly Carneiro (OAB-RN 2014)


Prisão

“Lutei pelo processo democrático por acreditar que todo cidadão merece a valorização do trabalho. Fiz parte do grupo de estudos Ação Popular em que a ideologia era a participação do homem em sua formação, mas, naquela época, isso significava  ser comunista.  Fui presa dentro da sala de aula, no curso de medicina, punida por querer mudar o sistema. Levaram-me para o 16 RI em Natal. Apenas os professores Lavosier e Leide Morais foram ao Quartel dizer o que pensavam de mim. Fui vítima de tortura moral, mas não física.”

Mulheres

“Na época, foi proposto meu encaminhamento de prisão para um convento, mas preferi ficar no 16 RI. Eram 400 homens e sem acomodações para mulher. Outras mulheres ficaram presas depois, como a secretária da campanha de pé no chão também se aprende a ler, Mailde Pinto, e a professora Diva Maria”.

UFRN

“Depois de presa, tive minha matrícula na Universidade Federal trancada. Não tive o apoio da  minha instituição de ensino. Os professores não queriam falar comigo nas ruas. Sentia-me sozinha e marginalizada. Meu advogado Otto Guerra foi quem me fez voltar à faculdade, me apoiou e ajudou em uma fase importante da minha vida, sem ele eu não estaria aqui”.

Exílio

“Cheguei a Paris no inverno, em um dia de chuva. Foram muitas as restrições e terrorismo. Uma vez por semana os exilados se encontravam para saber notícias do Brasil. Chegava o número de mortos pela luta, mas não se sabia a veracidade das informações. Tínhamos a esperança de voltar para o nosso país. Na França, tive o apoio de amigos e de entidades religiosas”.


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