Médico teme por clubes menores

Publicação: 2020-06-10 00:00:00
A CBF finalizou o Guia Médico de Sugestões Protetivas para o retorno às atividades do futebol brasileiro, mas o documento, segundo o médico do ABC, Roberto Vital, ainda eixa lacunas importantes para os clubes. O profissional alvinegro quer saber com quem irá ficar a responsabilidade para o pagamento dos testes exigidos no elenco e profissionais antes das partidas e nos treinos, ressaltando que na crise em que se encontra, se essa conta ficar com o clube, a diretoria abecedista terá de optar entre pagar os salários ou assumir a conta da realização os exames, cujo custo vai girar na casa dos R$ 160 mil ao mês.

Créditos: Arquivo TNNa opinião de Roberto Vital, o custo com o protocolo não cabe no orçamento de clubes pequenosNa opinião de Roberto Vital, o custo com o protocolo não cabe no orçamento de clubes pequenos


“O documento preparado pelos profissionais arregimentados pela CBF é coisa de primeiro mundo, padrão da Alemanha. Mas acho que ele foi formulado levando em consideração apenas os clubes da Série A do Brasileiro, onde a maior parte deles poderá arcar com tamanho custo. Mas quando as divisões vão caindo as dificuldades vão aumentando e boa parte dos representantes das Séries C e D do Brasileirão, aposto que não terão condições e arcar com esses gastos. A maioria deles se encontra na mesma situação do ABC hoje, imagino”, alertou Vital. “A gente não tem a resposta ainda sobre quem vai pagar a conta e cheque especial sem fundo, já que não existe dinheiro para cobrir os gastos gerados pela CBF”, frisou.

O médico do ABC continua solicitando que as autoridades do futebol deixem o bom-senso falar mais alto nesse momento de pandemia e não forcem a retomada das atividades neste momento e crescimento do ciclo pandêmico.

“Aqui no RN nós praticamente não temos ais vagas nas UTI’s, a expectativa é que o pico de contaminação suba no decorrer das próximas semanas e não adianta recomeçar os treinos no meio dessa polêmica. Acho que nesse debate, quem vem sendo mais sensato é Lupércio Segundo, quando pede que a continuidade do Campeonato Estadual seja repassada para dezembro, quando as equipes já estiverem em fase de preparação para próxima temporada. Até lá o ambiente deve estar mais seguro com relação a Covid-19. Faltam poucos jogos pela competição, o ABC tem o jogo da Copa do Nordeste e, se perder não continua, o América está na mesma situação em relação a Copa do Brasil e não temos definição de quando inicia o Brasileiro. Então é melhor jogar com a prudência neste momento”, ressaltou.

Ele chama a atenção também para a imensa responsabilidade que as novas exigências do futebol estão repassando para os médicos dos clubes. Afinal são os profissionais da saúde que serão responsabilizados e terão de responder junto ao Conselho de Medicina, caso algum membro da delegação seja contaminado e venha a desenvolver a forma mais grave da doença.

“Volto a destacar que esse documento formulado pela CBF é ótimo, de primeiro mundo, mas para aqueles clubes que têm dinheiro. Não adianta o clube A ou B realizar o teste padrão e não saber se o adversário teve condições de fazer o mesmo, então o que vai fazer, jogar assim mesmo, assumindo todos os riscos? Nós do ABC temos o protocolo, vamos apresentar a diretoria, mas tem um custo. Se a direção disser que não tem condições e arcar com o investimento, eu não vou assinar o documento, porque depois quem vai responder ao Conselho de Medicina sou eu, vai recair em minhas costas caso dê algum problema”, adiantou.

Roberto Vital cita como exemplo de bom-senso o que ocorreu com a Olimpíada o Japão, o evento mais importante o calendário esportivo mundial de 2020 e que foi adiado para o próximo ano, porém continua mergulhado num mar de incertezas devido a pandemia. O médico do ABC pede para que a CBF e os presidentes de federações planejem melhor esse retorno, para que a temporada não corra o risco de sofrer uma nova paralisação um pouco mais na frente.

“Não podemos correr riscos desnecessários, sei que a situação está difícil, mas ela está difícil para todo mundo. Todos estão perdendo no meio dessa crise. Esses jogadores do RN a maioria absoluta não são cobertos por plano de saúde e terão de ir para o SUS, da forma como o serviço público se encontra colapsado, qual a garantia que teremos de prestar um bom atendimento a um jogador numa situação de risco? 

O clube terá condições de arcar com os custos e um tratamento particular? Isso tudo deve ser visto e definido antes de qualquer definição sobre o retorno do futebol. Continuamos com mais perguntas que respostas em meio a essa grande crise”, salientou o chefe do departamento médico do ABC.