Médicos alertam sobre queimaduras com álcool líquido

Publicação: 2020-07-12 00:00:00
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O isolamento social e a necessidade por higiene constantes entre os brasileiros acabaram trazendo outra preocupação para os especialistas e interlocutores do setor de queimaduras: o uso do álcool líquido. No dia 20 de março deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a comercialização do álcool líquido 70% em embalagens de até 1 litro para facilitar o acesso da população ao produto e orientou sobre os cuidados necessários na sua manipulação. Desde a implantação da medida, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), foram pelo menos 406 internações referentes a esse acidente entre 19 de março e 10 de julho.

Créditos: CedidaJosé Adorno: redução de queimados se repetiu em outras cidadesJosé Adorno: redução de queimados se repetiu em outras cidades

O presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras, José Adorno, disse à TRIBUNA DO NORTE que a medida é preocupante e que a entidade já oficiou documentos à Anvisa e ao Conselho Federal de Medicina (CFM) externando sua opinião quanto a essa situação.
“Essa portaria antiga proibia a comercialização do álcool desde 2002. Só permitia vender álcool em gel e álcool 70% em frascos de até 50 ml. Isso levou a exposição da população com volume maior de álcool em casa. Foi flexibilizada por seis meses. Passamos a monitorar nos centros de queimados do Brasil e fazer um levantamento. Os números começaram a aumentar mais do que duas vezes ao normal. Pedimos atenção com relação a essa política mesmo em caráter emergencial”, comentou.

O cirurgião de mãos Márcio D’Angelo, que atua em Natal desde 2006, analisa que conseguiu identificar uma diminuição nas queimaduras relativas a fogueiras e fogos de artifício, mas que já atendeu pacientes que se acidentaram com o álcool líquido. “Atendi algumas crianças e acho que não é algo que criança possa manusear. Não só queimadura, mas de intoxicação. Colocou no olho, irritou, de forma inadvertida vai borrifar na mão e cai no olho, na boca. Vi alguns pacientes com esse tipo de queixa. E queimaduras vimos casos relacionados a prática da cozinha, que é o que está sendo feito. As pessoas usam álcool em gel e vão cozinhar. Tive dois pacientes relacionados a isso”, comenta. A recomendação nesses casos, segundo ele, é utilizar água e sabão em casa e o álcool só quando for à rua. “A eficácia do álcool 70% é igual a uma boa lavagem de mãos”, acrescenta.

À época, a Anvisa justificou que a liberação da venda do álcool líquido 70% em embalagens de 1 litro, pelo período de seis meses, se devia ao fato de que “com a medida, os brasileiros terão maior acesso ao produto, que auxilia nas ações de prevenção à Covid-19. A Agência tem reiterado as orientações para que o álcool líquido 70% seja manipulado e utilizado com cuidado e que fique fora do alcance de crianças, tanto pelo risco de queimaduras quanto pelo risco de ingestão”, disse ele.

O presidente da SBQ, José Adorno, comenta que a recomendação da entidade para a higienização das mãos em casa é “água e sabão”, evitando, assim, o uso do álcool 70% dentro da residência, o que pode acarretar em acidentes. O uso do líquido só deve ser feito quando as pessoas forem sair de casa, como situações de ida a serviços essenciais e transporte por táxis ou aplicativos.  “O que não recomendamos em casa pela sua inflamabilidade. Isso causa uma explosão, atinge a pessoa e causa grandes queimaduras e graves. É usar o álcool no momento certo na hora adequada”, comenta.