Mãos atadas: artesanato sofre com as lojas fechadas

Publicação: 2020-06-05 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

A arte popular feita com as mãos recebeu um duro golpe da pandemia. A necessária quarentena fechou todas as galerias e espaços de venda desse tipo de produto, assim como cancelou feiras e eventos da área. Os artesãos estão impedidos de comercializar seu trabalho presencialmente, cara a cara com o público. Uma situação ainda mais difícil em cidades como Natal, cuja produção artesanal é intimamente ligada ao movimento turístico. O novo cenário tem feito esses artistas comerciantes procurarem outras formas de venda e também aguardar novas iniciativas oficiais.

Créditos: DivulgaçãoO Centro Municipal de Turismo está de portas fechadas e teve que se reinventar para venderO Centro Municipal de Turismo está de portas fechadas e teve que se reinventar para vender


O Centro de Turismo, uma referência de 43 anos no ramo do comércio artesanal em Natal, está com as portas fechadas desde o início da pandemia, há quase três meses. Sem suas 40 lojas em funcionamento, a tradicional casa precisou se reinventar. “Quem pode está investindo fortemente no comércio on-line, se divulgando em redes sociais, sites e aplicativos. Os artesãos não querem parar de produzir e muito menos vender”, afirma o padre Jocimar Dantas de Araújo, atual proprietário da galeria de arte do local.

Economia solidária
O comércio tem se dado através de contatos no Instagram (@galeriadearte3852), postagens em sites como o Mercado Livre, e pedidos no Whatsapp (99911-7554). “Nesses perfis a gente divulga nosso material, faz promoções especiais, acerta o delivery para toda Natal. É realmente economia solidária. Queremos projetar o artista e mostrar que ele ainda está produzindo. Mas sabemos que, infelizmente, nem todos têm recursos ou conhecimento para essa comercialização on-line”, explica Jocimar.

O padre também é marchand e curador da galeria de arte do Centro, e esteve recentemente em alguns locais de produção, vendo de perto a situação dos artistas. “Estive em Santo Antônio do Barreiros, em São Gonçalo do Amarante, pólo da produção ceramista, e também em Trairí, Santa Cruz e Tangará, áreas dos melhores trabalhos em madeira. Eles estão trabalhando e precisam da gente pra escoar seu material. A galeria também tem sua razão social e precisa vender”, relata.

O acervo da galeria é 80% composto por obras de artistas potiguares. As demais peças são vindas de Pernambuco, Paraíba e Ceará. “A gente vê a dificuldade que eles têm para vender seus trabalhos. Temos mais de 60 artesãos ligados à galeria e muitos estão passando necessidade. É evidente que faltam mais políticas públicas para esse tipo de artista”, afirma Jocimar. O padre e marchand adianta que já estão sendo pensadas lives no Centro para falar sobre a situação, expor produtos, fazer sorteios e arrecadar doações. “Chegamos a pensar que as coisas se normalizariam a partir de julho, mas enquanto não surgir uma vacina, acredito que não”, diz.

Avanice Pereira está parada. Há mais de 15 anos ela trabalha com acessórios e peças decorativas feitas em fibra de bananeira. O comércio de seu material se dava nas participações em feiras e eventos, além da parceria com lojas colaborativas. Com o cancelamento dos eventos, ela viu as vendas caírem “100%”. A artesã tem seu material divulgado no instagram da loja Natal Original, em Mirassol, mas ressalta que não é a mesma coisa. “Minhas vendas eram bastante ativas, mas sei que no momento é impossível voltar a ser como era”, diz. Ela diz que o desafio maior agora é ter o básico. “A federação dos artesãos potiguares pediu ajuda ao governo para atender o estado com cestas básicas, mas infelizmente muitos municípios ainda não tiveram esse apoio”, lamenta.

A artesã Vera Lúcia Bezerra trabalha com costumização de chita e ministra aulas de sua arte através de instituições como Sebrae e secretaria de cultura. Já estava acostumada a comercializar seu material pelo Whatsapp e Instagram, portanto, não sentiu tanto o impacto do isolamento. No entanto, ela sabe que a maioria dos comerciantes da área é vulnerável. “O que me preocupa são minhas alunas. Sei que grande parte delas está em situação difícil. Mais ainda quando se pensa além de Natal. Temos mais de 16 mil artesãos no estado. Imagine como essas pessoas estão se virando?”.

Feiras on-line
A Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência (Semtas) informa que uma média de 280 artesãos vinculados à prefeitura de Natal foram diretamente prejudicados pela pandemia, incluindo artesãos individuais e associados de empreendimentos econômicos solidários. A secretária Andréa Dias confirma que no momento em que se acentuou a vulnerabilidade econômica e social, os artesãos vêm procurando o departamento em busca da assistência social, principalmente quanto à possibilidade de distribuição de cestas básicas. Duas ações desse tipo já foram realizadas.

Créditos: Secom NatalOutros pontos de negócios com artesanato na cidade estão enfrentando graves dificuldadesOutros pontos de negócios com artesanato na cidade estão enfrentando graves dificuldades


Como alternativa para amenizar essa queda significativa no número de vendas, a secretária afirma que muitos artesãos optaram pela comercialização através das redes sociais. “A loja Natal Original tem um perfil próprio e super ativo, tendo acompanhamento e suporte da nossa equipe de comunicação e do departamento sobre postagens e interação com os clientes e dos melhores horários para isso. Além de divulgarem seus produtos em seus perfis particulares, alguns artesãos estão promovendo feiras online no Instagram da loja”, explica.

O departamento está concentrando suas ações em projetos para orientar e aperfeiçoar as vendas através das redes sociais. Andréia Dias ressalta que, paralelo a isso, brevemente será lançado um edital para aquisição de máscaras reutilizáveis que visam oferecer proteção ao contágio do Covid-19, além de distribuição de renda e comercialização de produtos artesanais do  município durante a pandemia.








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