Mãos na tesoura, olhos no futuro

Publicação: 2017-10-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

A indústria da moda se move pela antecipação de tendências, e o futuro é um caminho sempre traçado na passarela. Pensar em economia de recursos, impactos ambientais e mudanças de comportamento na hora de criar novas coleções está sendo tão importante quanto as trocas de estações. A sustentabilidade fashion é uma realidade que tem obrigado a indústria a se reinventar, e os estilistas – sobretudo os mais jovens – a criarem mais e melhor em novos contextos.

A estilista potiguar Jéssica Cerejeira foi selecionada recentemente para integrar o concurso nacional Focus Design Visions, um projeto social e cultural que vai selecionar e capacitar dez talentos jovens para elaborar uma coleção inédita, utilizando resíduos têxteis  fornecidos pela Focus Têxtil, empresa apoiadora que conta com um setor de sustentabilidade. Esses resíduos podem incluir sobras de tecidos, aviamentos (botões, linhas), corantes, pigmentos, e demais produtos auxiliares têxteis. A coleção será apresentada no São Paulo Fashion Week de março de 2018.
Jéssica Cerejeira em ação: Conceito de upcyclinge uso de novas matérias-primas
Jéssica Cerejeira em ação: Conceito de upcyclinge uso de novas matérias-primas

O material descartado na produção têxtil tem um grande potencial poluente, principalmente as matérias-primas sintéticas que levam mais tempo para decompor, além do processo de tingimento, que pode poluir a água. Jéssica acredita que o trabalho responsável com esse tipo de material é algo urgente no processo atual de criar. “É um momento delicado em que precisamos reinventar os processos de criação, de planejamento, de confecção, a própria logística, embalagem, a venda direta e tudo que faz parte dessa cadeia produtiva. A etapa do processo criativo já traz consigo uma grande responsabilidade”, explica.

 Estudiosa de moda desde os 15 anos, Jéssica é da geração que aprendeu a pensar na sustentabilidade como referência criativa. Algo que ela utiliza também no trabalho como figurinista. “Também faço figurinos e procuro sempre garimpar peças interessantes em brechós para montar meu acervo pessoal. Geralmente a galera não tem muita verba para investir em figurino, e isso acaba barateando e agilizando o processo”, conta. Ela ressalta que o tem sido bastante debatido em seu curso superior de design de moda. “É inspirador ver gente fazendo moda de forma consciente, ética, inteligente e responsável”, completa.
Alexandre Herchcovitch é o coach da equipe e orienta na montagem das coleções que desfilarão em novembro
Alexandre Herchcovitch é o coach da equipe e orienta na montagem das coleções que desfilarão em novembro

O mercado também está incorporando conceitos sustentáveis e criando produtos que dialogam com o conceito. Entre as novas tecnologias têxteis que Jéssica Cerejeira destaca estão a 'qmilk', uma fibra feita da proteína do leite; a 'econyl', fibra que utiliza resíduos de redes de pesca; a 's.café', cuja fibra é derivada da borra do café, além de tecidos feitos de soja, urtiga, fibra de abacaxi, entre outros que caminham para uma formatação cada vez mais orgânica.

O garimpo nos brechós e o uso de material antigo também são recursos benéficos. “Garimpar pode ser melhor que aproveitar os preços baixos das 'fast fashions' que trazem sempre aquele mais do mesmo”, diz. Ela também cita o 'upcycling', a prática de reutilizar uma peça que já não tem valor e que seria descartada, para a construção de uma nova de valor mais elevado, já que possui uma modelagem diferenciada.

Para a estilista, desconstruir para reconstruir será algo cada vez mais comum e necessário para sustentar a moda em um mundo necessitado de recursos novos. “Redescobrir novas formas de produzir é essencial. O conhecimento artesanal é posto em evidência exatamente neste momento, pois nesse modelo das pequenas produções, o pensamento de responsabilidade social é gerado e acaba sendo reproduzido aos poucos, servindo de influência para marcas que estão começando e outras já conhecidas”, analisa.

Jéssica acredita que a nova turma que está produzindo moda – na qual ela se inclui – está apta a apontar soluções para um futuro cada vez mais próximo. “Essa é uma geração que tem feito uso da ética em boa parte do que produz, sem abrir mão do valor estético e da qualidade, procurando sempre que possível levantar a bandeira da responsabilidade social e da sustentabilidade. Os que ainda não têm essa preocupação correm risco de ficar pra trás”, afirma.

Moda do futuro


O projeto de formação Senai Brasil Fashion pinçou dois jovens talentos potiguares para participar de sua 4ª edição. Os estudantes   Diny Fonseca, como estilista, e Vanessa Nóbrega, como modelista, estão desenvolvendo um coleção baseada no tema “Moda é futuro, e futuro é moda”, sob a orientação de estilistas renomados como Alexandre Herchcovitch – que é o 'coach' da dupla natalense. Os dois já passaram por dois encontros no Rio de Janeiro, e no final de novembro as coleções serão apresentadas em grande evento. Ao todo, um trabalho de 12 duplas [Jéssica Cerejeira participou da edição de 2015].

Segundo Vanessa, foi pedido que as duplas criassem baseadas em sua própria visão de futuro. Para ela e Diny, a discussão de gênero é um novo passo no conceito de conforto ao vestir. “Pensamos numa roupa 'agênera', que homens e mulheres possam usar. Criamos cortes minimalistas e retos, que não definem o corpo de quem está usando, e deixa o gênero em aberto. É uma moda andrógina que gera aceitação e liberdade”, explica. A dupla também está usando bastante bordados de Caicó, destacando o uso de elementos regionais na obra.

Outros elementos também entram na discussão de moda “do futuro”, como as soluções para a moda 'fast fashion', cuja produção é a que mais polui o ambiente; e a utilização de material descartado pela indústria, os resíduos têxteis, que poupam dinheiro e também o meio ambiente. “A gente é ensinado a não desperdiçar tanto na hora de modelar, cortar e produzir. E o que sobrar, pode ser reaproveitado. Algumas empresas compram retalhos para fazer cobertores para o sem-teto”, explica.

A ideia é usar o velho para fazer o novo. “Estoque parado também é dinheiro parado, portanto, as empresas estão pensando soluções para isso. E quem trabalha com moda é obrigado é ser cada vez mais criativo nessa nova realidade. E isso é muito estimulante para nós”, diz. O futuro agradece, com estilo.

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