Márcio de Lima Dantas, “Daimon” (2019, Sol Negro, 100 p.)

Publicação: 2019-05-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves, Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Há três modos de ler este livro. O primeiro segue em pensar a obra como alta literatura dado o constante uso da mitologia greco-romana como mote para os versos. A segunda maneira circunda a ideia de notar a poesia do potiguar Lima Dantas em mais uma engenhosidade de sua carreira iniciada ainda no milênio passado (ele vai do verso livre ao verso em prosa, do texto simples ao excessivamente culto, do haicai abrasileirado ao poema quase épico). Uma terceira visão engloba aquilo que João Cabral de Melo Neto relata no seminal texto “Da função moderna da poesia” (1952), no qual ele explana sobre os perigos de o poeta contemporâneo expor o leitor a uma lírica “dificultosa”. O título do livro, de ambígua origem (vai de “demônio” a “espírito/entidade”), provoca um passeio pela tradição milenar de nomes como Safo, Afrodite ou Lúcifer, além de lugares como Atenas ou Atlântida. Enfim, é lá que nasceu a poesia ocidental, fato lembrado em “Lira” (eis que surge nova forma de conhecer/sinuosidades da alma). Poemas como “Diante de um morto” e “Laís” sobressaem uma obsessão com o efêmero, atingindo o ápice no contemplativo “Laís” (o tempo quebrantando teus olhos) e no sombrio “Morfeu” (do pesado fardo de dias pares/que, estampados no semblante/nos fazem medir distância dos espelhos). No internalizante “Psiquê” (O problema é a alma/que, aprisionada, não tem/por onde sair), o eu lírico petrifica o que o poema “Estátua” celebra como arte: “habitar aquele ponto sem espaço nem tempo”. Em 66 poemas (coincidência cristã?), este “Daimon” não parece para iniciantes.

Francisco Chagas,“Pirilampejos” (2019, Sarau das Letras, 146 p.)
Tripartido nas seções “Cenários/Retratos/ Inventário”,  aos 60 anos o escritor de narrativas curtas estreia na poesia. O aviso é dado no prefácio de David Leite: “[...] se poetizamos também flertamos com a prosa. [...] sói haver dificuldade de transitar de um gênero a outro”. O texto de abertura (“Predestinação”) poderia gerar uma boa crônica memorialística, mas trazido em versos perde a força imagética inerente à poesia, o mesmo rondando o poema seguinte (“Cotidiano”), mesmo este sob esmerada síntese verbal. Na aparência biográfica de “Palco e partida” e “Ternura”, a infância é temário prenunciado na epígrafe da obra, extraída de Manuel Bandeira (praticamente um fantasma em “Iaiá”). No cinematográfico “Cenário”, o antiverbal se mistura a uma tangível nostalgia, ganhando força atemporal, mas no futebolístico “Jogo de cena” o episódio entre avô e neto parece mais uma fotografia desbotada. No curto “Luz de lamparina”, o ambiente longe da tecnologia parece lembrar um mundo hoje já invisível e no derradeiro poema, “Inventário”, enfim surge um instante no qual o humano e sua invenção se tocam numa simbiose perturbadora: “uma casa é um ente vivo:/racha, fratura, descama e cai/adoece, morre/deixa saudade”. E assim, nos 55 poemas, são poucos lampejos (“expostos às intempéries”, palavras do prefaciador) em 146 páginas, das quais 33 estão em branco em pura falta de apuro gráfico. Não custa lembrar o eu lírico de Chagas: “sou lerdo para me afeiçoar/a plantas que não plantei”.






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