Magia e aniversário no Castelão

Publicação: 2020-01-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Ontem lembrei de um América x Palmeiras no Campeonato Nacional de 1973, tarde de domingo, antes do meu aniversário de 14 anos. O ingresso do jogo foi presente de papai, um mimo muito caro para um menino pobre das Quintas. Além da data especial, havia outros estímulos para o meu desejo de ir ao Castelão, como a boa campanha americana e a presença da estampa elegante de Ademir da Guia, uma versão sarará do negão Alberi, o gênio da cidade.

Meia-dúzia de moleques, quase todos vestidos em camisas vermelhas, apanhou um ônibus da Empresa Unidos até o cruzamento da Bernardo Vieira com uma Prudente de Morais ainda de barro. O longo percurso até o estádio foi feito a pé, num cenário de interior. Eu me acostumara, desde a Minicopa 1972, a ficar no setor costumeiramente ocupado pela torcida do ABC, mas naquela noite, me juntei à torcida do América, onde ficou a maior parte dos colegas.

O time natalense tinha uma plêiade de grandes jogadores, a começar pelos dois zagueiros, um de notoriedade nacional, o gaúcho da seleção brasileira, Scala. O outro, produto doméstico, um garotão de Macaíba chamado Djalma.

Nas laterais, dois negros de grande vigor físico e habilidosos, Ivan e Cosme. E no meio-campo o apoquentado Paúra, madeira de dar em doido, e o discreto Careca.  O dentuço Mário Braga, zagueiro duro, ainda entrou no lugar de Ivan.

Na frente – naquele tempo jogava-se e escalava-se um quarteto – o genuíno ponta direita Bagadão, João Daniel fazendo a ligação com os volantes, o matador Élcio e na ponta esquerda, cheio de reputação nacional, Gilson Porto.

O goleiro do Mecão era Ubirajara, que tinha feito miséria contra o Atlético Mineiro anteriormente. Na trave inimiga estava o jovem arqueiro reserva da Copa de 1970, Leão, protegido por Eurico, Alfredo, Luís Pereira e Zeca.

A melhor dupla de meio-campo daqueles anos, com a devida vênia a Zé Carlos e Dirceu Lopes e Carlos Roberto e Gérson, era sem dúvida Dudu e Ademir da Guia. Nem Lennon & McCartney compuseram tantas coisas belas quanto eles.

No ataque palmeirense, o velocíssimo Edu Bala, o boa pinta e bigodudo Careca, o imprevisível Fedato, que não era craque mas tinha faro de gol, e o ponteiro Ronaldo, que naquele ano seria tricampeão do Campeonato Nacional.

Por dois ou três dias eu comentei na rua e na escola as jogadas daquele jogo como se estivesse distribuindo as fatias do bolo da festa de aniversário que não houve. O Palmeiras venceu por 1 x 0, gol de um tal Edson Cegonha.

Duas jogadas ficaram marcadas na memória, uma de Ademir da Guia e outra de Scala, como sinais de que os deuses da bola queriam seus filhos num empate de genialidade. Como coadjuvantes, os atacantes Fedato e Bagadão.

Em dois longos lançamentos, as imagens do talento. Um rasteiro para Ademir, que pisa na bola ignorando sua velocidade. E um rodopio de várias voltas em torno de si mesmo com o rival rodando atrás como quem procura o intangível.

O outro lançamento, pelo alto, cairia sob domínio de Fedato, se Scala não enfiasse a perna por entre as duas do adversário com a bola amortecendo no seu pé e puxada para si, sem desgrudar-se da sua chuteira esquerda.

Uma noite espetacular para os olhos de um menino, um aniversário inesquecível na quarta, para quem aprendeu a cultuar a bola dos gênios. Há décadas não entro nos estádios. Eles estão sem os resíduos daquela magia.

Glenn em vertigem
Um exército virtual com bandeirinhas coloridas no avatar, disparou histeria ontem depois da denúncia do MPF ao jornaleiro do Intercept Glenn Greenwald, acusado pelo crime de invasão de privacidade com mais seis cúmplices.

Piadinha
Das muitas alfinetadas postadas no Twitter, a mais hilária foi do empresário Adriano Tomasoni, de Santa Catarina: “O medo do David Miranda é de que Glenn Greenwald encontre na penitenciária um negro de verdade”.

Moro na Roda
O primeiro impacto do programa Roda Viva na segunda-feira foi o vácuo aberto deixado por Augusto Nunes, um craque na condução da mesa. A fraca plateia no entorno de Sergio Moro deu a ele motivos para dominar a entrevista.

Censura
O governador do Ceará, que é do PT, publicou no Diário Oficial uma portaria proibindo policiais civis de se manifestarem verbalmente sobre as péssimas condições de trabalho e dos salários atrasados ou em franca defasagem.

Apagão
Não bastavam as quedas de energia nos litorais, em pleno período do veraneio, a Cosern também enfrenta pequenos apagões na área urbana de Natal, como o de ontem por mais de uma hora em setores da Zona Sul.

Tribuna 70
A Academia Norte-rio-grandense de Letras fará sessão solene em março para homenagear a Tribuna do Norte pelos 70 anos de fundação. O acadêmico Lívio Oliveira foi designado por Diógenes da Cunha Lima o organizador da festa.

Acadêmicos
Há dias, Woden Madruga registrou em valoroso artigo os muitos acadêmicos, vivos e mortos, que são e foram componentes da equipe da TN. Poucos veículos de imprensa no País têm tantos integrantes no mundo das letras.

Além-mar
O artista plástico Carlos Soares, falecido quarta passada, tinha se planejado para uma temporada de produção em Portugal, onde tinha contatos em algumas galerias. Iria fazer uma série de telas após expor na Alemanha.

Falsa testemunha
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