Maioria das grandes cidades do RN está fora da "zona de risco" de transmissão

Publicação: 2020-08-05 00:00:00
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Com a maioria das grandes cidades potiguares fora da situação mais crítica da pandemia do novo coronavírus, o Governo do Rio Grande do Norte inicia a terceira fase da reabertura gradual da economia nesta quarta-feira, 5. A última fase da reabertura acontece no momento em que 1,6 milhão de pessoas, residentes das maiores cidades potiguares estão dentro de uma zona de contágio considerada “segura” pelo Comitê Científico da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN) por ter uma taxa de transmissão do vírus abaixo de 1. Por terem mais habitantes, essas localidades exercem maior influência sobre a curva estadual de novos casos da covid-19. Entretanto, outros 1,8 milhão de pessoas ainda residem em áreas com taxa acima de 1.

Créditos: Adriano AbreuGoverno do Estado manteve cronograma e iniciou nesta quarta-feira, 5, em todas as cidades do Rio Grande do Norte, uma nova fase da reabertura da economiaGoverno do Estado manteve cronograma e iniciou nesta quarta-feira, 5, em todas as cidades do Rio Grande do Norte, uma nova fase da reabertura da economia


A última fase é autorizada pelo Governo do Estado no momento em que a pandemia passa a ter uma situação diversa no Rio Grande do Norte. Enquanto o pico da infecção - considerada a pior fase - já passou na maioria das grandes cidades, os municípios do interior e que ainda não haviam atingido o topo do número de casos confirmados começam a ter uma taxa de transmissibilidade mais elevada do novo coronavírus. 

A taxa de transmissibilidade significa quantas pessoas, em média, um infectado contamina. Apenas 24 cidades, dentre elas Natal, Mossoró, Macaíba e Ceará-Mirim, estão numa zona segura de contágio, considerada quando a taxa é abaixo de 1. Essas cidades possuem, juntas, 1,6 milhão de 3,4 milhões de habitantes do Rio Grande do Norte conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Entre as grandes cidades, a exceção é São Gonçalo do Amarante, considerada uma zona perigosa por ter taxa de 5. Outras cidades importantes, como Parnamirim, Caicó e Extremoz, estão “em risco” por terem uma taxa de transmissão entre 1,03 e 2. Elas possuem, respectivamente, taxas de 1,18 e 1,24. Os cálculos estão disponíveis na plataforma Covid-19, elaborada pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN).

Diante das diferentes situações da pandemia no Rio Grande do Norte, o governo estadual passou a discutir a possibilidade de tratar a pandemia de forma regionalizada. Isto é, orientar medidas específicas para as diferentes regiões do Estado a partir da situação epidemiológica específica. Isso foi adotado em outras unidades federativas brasileiras, como São Paulo. Entretanto, ainda não há uma decisão oficial quanto a essa mudança.

A Sesap/RN considera que cidades como Natal e Mossoró, mais fortemente atingidas pelo novo coronavírus, passaram pelo pico da pandemia e que agora é a vez de outras cidades chegarem a essa outra fase. Entretanto, os cientistas não descartam que as grandes cidades possam ter novo aumento de casos por dia, chamado de “segunda onda”, se não houver responsabilidade na retomada das atividades.

“É uma hipótese que essas cidades podem voltar a ter casos. Isso aconteceu em vários lugares, por isso é preciso permanecer atento e ter em mente que a pandemia não foi embora”, declarou o pesquisador Ricardo Valentim, coordenador do LAIS e membro do Comitê Científico da Sesap/RN. Valentim chamou atenção para a situação das cidades em torno de Natal e Mossoró que estão na zona de risco. “Parnamirim e São Gonçalo do Amarante estão com uma taxa acima de 1, em situação de risco, e é por isso que se deve tomar cuidado nas maiorias cidades para não haver uma segunda onda”, frisou o pesquisador.

Desde a semana passada, a Sesap/RN alerta durante as coletivas de imprensa diária sobre o aumento da taxa de transmissão nas menores cidades do Estado. Em paralelo, o Rio Grande do Norte continua com uma quantidade de novos casos por dia menor do que o registrado entre junho e julho. A aparente contradição, explicou Ricardo Valentim, se dá porque a curva de todo território estadual é influenciada principalmente por Natal. “Como Natal é a cidade com a maior população do Estado, acaba influenciando a curva. O aumento da taxa de transmissão nas cidades é um alerta principalmente para os gestores e população destas cidades”, declarou.

Maior taxa
A região do Estado com a maior taxa de transmissão é a do Seridó, com taxa de 1,24. Ela se reflete na ocupação dos leitos de UTI e semi intensivos da rede pública, a maior do Estado nesta terça-feira, 4, com 86,7%. O percentual mostra uma inversão no comportamento das internações observadas desde o início da pandemia. O Seridó, até então, era a região com a menor taxa de ocupação, enquanto o Oeste e a Região Metropolitana de Natal possuíam as maiores. Nesta terça-feira, estas duas últimas tinham 83% e 51,3%, respectivamente.

Créditos: Adriano AbreuComércio e prestadores de serviços diversos devem seguir normas rigorosas de biossegurança conforme definição da Sesap/RNComércio e prestadores de serviços diversos devem seguir normas rigorosas de biossegurança conforme definição da Sesap/RN


Picos em momentos diferentes no Estado
A diferença do período de pico do novo coronavírus entre as cidades de um mesmo território é normal, disse Ricardo Valentim. Segundo ele, o vírus atingiu primeiro Natal e Mossoró através de casos importados tanto do Ceará, um dos Estados mais atingidos no início da pandemia no Brasil, quanto de viagens internacionais. Depois migrou para as cidades menores, onde o contágio se acelera agora.

Esse comportamento epidemiológico é esperado desde o início da pandemia e já havia sido alertado pela subcoordenadora de Vigilância em Saúde da Sesap/RN, Alessandra Lucchesi, e por estudos nacionais. Em maio, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), órgão subordinado ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), fez a mesma avaliação.

Uma das hipóteses dos epidemiologistas do Comitê da Sesap para explicar os novos picos da doença são os registros de novas aglomerações em agências bancárias para o saque do auxílio-emergencial, há cerca de duas semanas. As aglomerações e festas em orlas também é um fator que pode ter influenciado a aceleração. “Essas são hipóteses que consideramos. Ainda estamos estudando, mas é fato que as aglomerações deixam muitas pessoas expostas e podem gerar esse tipo de situação”, declarou Valentim.

Regras
O Governo do Rio Grande do Norte não detalhou nesta terça-feira quais as regras da nova fase de reabertura, mas elas serão publicadas nesta quarta-feira no Diário Oficial do Estado junto com um decreto. No cronograma inicial, devem reabrir, nesta fase, academias e shoppings com ar-condicionado, restaurantes acima de 300 metros quadrados e bares. Em municípios como Natal e Mossoró, esta fase já foi iniciada.

Dados epidemiológicos
O Rio Grande do Norte chegou, nesta terça-feira, 4, a 1.926 óbitos em decorrência da Covid-19. O número é de 32 mortes a mais do que as que haviam sido confirmadas no Estado até esta segunda-feira. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), apenas dois dos óbitos foram confirmados nas últimas 24 horas. Outras 208 mortes permanecem sob investigação da Secretaria. No total, o RN acumula 52.566 casos confirmados da doença. Outros 63.245 casos continuam sob suspeita, e 83.615 foram descartados até o momento. 

Conforme a Sesap/RN, 57,38% dos leitos críticos se encontravam ocupados nesta terça-feira com pacientes de covid-19. Isso significa que, dos 305 leitos críticos (UTI e semi intensivos) disponíveis, 175 encontravam-se ocupados, 113 estavam disponíveis e outros 17, bloqueados. Sete pacientes em estado grave aguardavam, até às 12h desta terça-feira, transferência para leito crítico.

Dentre os 17 leitos bloqueados no Estado, 12 estavam sem operar por falta de profissionais de saúde. O hospital que reunia a maior quantidade de bloqueios é o Hospital de Campanha de Natal, com 9 leitos bloqueados.

Nas regiões de Saúde, a ocupação chegou a 86,7% no Seridó, 83% no Oeste, 51,3% na Região Metropolitana de Natal e 22% no Alto Oeste. O restante das regiões (Mato Grande e Litoral Sul) estão com todos os leitos vagos.