Maioria das famílias em ocupação ficou sem casa durante a pandemia

Publicação: 2020-11-25 00:00:00
Mariana Ceci
Repórter

Com a reintegração de posse oficialmente suspensa por 15 dias, as negociações sobre a situação dos ocupantes do prédio da antiga Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) localizada no bairro da Ribeira, zona Leste de Natal, avançaram  no início desta semana. 

Créditos: Magnus NascimentoPrédio histórico está em ruínas, com pontos diversos de infiltração. Sem terem onde morar, famílias montaram camas nos cômodosPrédio histórico está em ruínas, com pontos diversos de infiltração. Sem terem onde morar, famílias montaram camas nos cômodos

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Representantes do Movimento de Luta de Bairros, Vilas e Favelas (MLB) que estão à frente da ocupação, que já conta com mais de 60 famílias, se reuniram com a Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas) e a Companhia Estadual de Habitação Popular (Ceharp) para definir os possíveis caminhos de ação do poder público para atender às famílias que se encontram no local. 

Após as reuniões, ficou definido que a Sethas vai garantir a distribuição de cestas básicas para os ocupantes e, ainda esta semana, técnicos da Ceharp darão início ao trabalho de “congelamento” da ocupação. O congelamento, na prática, significa a contabilização oficial de quantas famílias se encontram no local. Esse levantamento vai permitir buscar soluções viáveis à médio e longo prazo para a situação dos ocupantes, segundo representantes do MLB. 

Ao todo, serão distribuídas 65 cestas básicas, de 15 kg cada, para os membros da ocupação. Fora isso, a Sethas se comprometeu a distribuir 65 kits de higiene e limpeza, que incluem álcool e máscaras. Segundo a Secretaria, os itens estavam programados para serem distribuídos no início desta semana. 

“Estamos avançando nas negociações e consideramos positivas todas essas conversas que tivemos hoje”, disse Matheus Araújo, um dos coordenadores da Ocupação Emmanuel Bezerra, como foi batizada. Conforme explicou, a maior parte dos ocupantes que hoje estão no prédio da antiga Faculdade viviam em bairros da zona Leste de Natal, como Rocas, Passo da Pátria e Santos Reis. A maior parte são famílias inteiras, que tiveram sua situação financeira prejudicada durante a pandemia e passaram a não conseguir mais pagar o aluguel. 

Créditos: MAGNUS NASCIMENTOLucimara é mãe de gêmeos e precisa de ajuda diariamenteLucimara é mãe de gêmeos e precisa de ajuda diariamente

É o caso de Mariana Henrique, de 34 anos, e sua família. Mãe de cinco filhos, ela precisou se separar de três de suas cinco crianças porque não tinha condições de bancar o aluguel e alimentar todos ao mesmo tempo. Hoje, dos cinco filhos, três vivem com o pai, e os outros dois, os mais novos, com ela. Seu marido trabalha vendendo água no sinal da Igreja Bom Jesus, na Ribeira, e ela mesma trabalha como cuidadora durante 10 dias no mês. Por trabalhar com diárias, no entanto, a renda que recebe é insuficiente para bancar o mínimo, que é a habitação e a alimentação. 

“Eu morava de aluguel na comunidade das Rocas e, de repente, não conseguimos mais pagar aluguel. Aí minha mãe me chamou para morar com ela, mas pouco tempo depois ela faleceu. Acho que sou uma das poucas pessoas aqui que realmente não têm mais casa. Algumas pessoas ainda têm um parente, algum conhecido... eu só tinha minha mãe por mim, e agora não ninguém”, relatou Mariana. 

Ela contou que as doações que a ocupação tem recebido, especialmente de leite e fraldas, têm ajudado de forma significativa a família. “Meu marido vende água no sinal. Quando ele vende as águas, fica o dinheiro para a gente comprar um leite, alguma coisa que a gente esteja precisando com urgência. O dinheiro que a gente ganha é “da diária". Só dá para sobreviver ao dia. Por isso as doações tem sido tão importantes”, explicou Mariana. Ela disse que já distribuiu currículos em todos os hotéis da Via Costeira e em escritórios pela Cidade Alta, mas nunca recebeu qualquer resposta. “Não falta disposição para trabalhar, mas ninguém dá uma oportunidade. A impressão que a gente tem é que as pessoas recebem nossos currículos e rasgam”, desabafou. 

Créditos: Magnus NascimentoPelo menos 30 crianças de idades diversas estão na ocupaçãoPelo menos 30 crianças de idades diversas estão na ocupação

A situação é similar à de Lucimara Conceição da Silva, de 25 anos. Mãe de um casal de gêmeos de 10 meses de idade, Lucimara teve que sair de João Câmara, onde morava na casa da sogra, para que os filhos pudessem continuar recebendo acompanhamento médico durante a pandemia. “Eu sou soropositiva, e eles não sabem ainda se são, mas estão sendo acompanhados no (Hospital) Giselda Trigueiro. Então eu vim morar aqui em Natal, com minha mãe, lá no Passo da Pátria, para que eles pudessem continuar a ter atendimento médico”, disse. Lucimara, que é dona de casa, conta que seu marido trabalhava como pintor, mas há muito tempo “estava parado”. “Infelizmente falta serviço, a situação está muito difícil para todo mundo”, reconheceu.