Mais anos porém mais saúde (2)

Publicação: 2019-01-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Jorge Boucinhas
Médico e Professor

O passado Artigo começou uma revisão sobre a curiosamente boa (em relação ao esperado) saúde dos velhos entre os velhos, ou seja, dos centenários. 

Em termos teóricos, a idéia básica surgida para justificar isto era a de um potencial genético especial, fruto de antepassados que repassaram “genes da longevidade”.  Os melhores candidatos a tal denominação são os genes que controlam o mecanismo de proteção do corpo contra os conhecidos Radicais Livres, altamente reativos, que podem lesar profundamente as células.  Todo indivíduo tem uma capacidade hereditariamente determinada para combater essa agressão.  Variantes de genes que geram resistência ao dano oxidativo podem responder pelo aumento da expectativa de vida ao diminuir a intensidade com que ocorrem lesões celulares.

Além de carregarem tais genes da longevidade, os "velhos dos velhos" podem ter um conjunto menor de genes deletérios.  Por exemplo, uma variante do que codifica a apolipoproteína-E (apo-E) foi relacionada a um risco substancialmente alto de desenvolver o Mal de Alzheimer.  A idade média em que a doença surge parece estar relacionada ao tipo gene indutor de apo-E que uma dada pessoa herda.  Há três formas comuns, denominadas E2, E3 e E4, e quem herda dois E4 (um de cada genitor) têm risco até 8 vezes maior do que a população em geral de desenvolver a enfermidade e mostrar os primeiros sintomas, em média, antes dos 65 anos.  Já indivíduos com dois genes E3 mostram-nos mais tarde, aos 75.  O E2 parece estar associado a risco menor.

No General Massachussetts Hospital, nos EUA, determinou-se a prevalência de E4 em pessoas aparentemente sãs entre 90 e 103 anos.  O estudo revelou que um percentual de 14% delas grupo tinha pelo menos um desses genes.  Em pessoas com menos de 65 esse percentual ascendia a 25%.  A ocorrência das variantes de E4 diminui com a idade, caindo quase 50% num período de 28 anos.  Suspeita-se que os "velhos dos velhos" tenham freqüências bastante diminutas dele, em parte porque esse tipo está associado a elevada propensão de desenvolver o Mal e morrer em parte por causa dele, pelo que, possivelmente, muitos dos que o têm não sobrevivem até os 90.

Quiçá tais genes possam fornecer uma estimativa de quanto alguém pode sobreviver, sendo indicadores da facilidade de lidar com enfermidades.  Mas precisa-se valorizar duas coisas correlatas que influenciam o envelhecimento do organismo: seu potencial adaptativo e sua reserva funcional.  O primeiro é profundamente influenciado pelo patamar de atividade física, que melhora a irrigação sanguínea, a qual é também auxiliada por alimentação saudável, inibidora da aterosclerose, enquanto a segunda é bastante aumentada pelo treino mental, ou seja, pelas atividades intelectuais implicadas em leitura, escrita, resolução de problemas.  A importância dessas duas características para a sobrevivência de muitos dos centenários pode ser vista nos efeitos variáveis que o estabelecimento dos emaranhados neurofibrilares (redes de neurônios mortos que surgem naturalmente com o envelhecimento e são mais abundantes em pacientes com Alzheimer) tem na cognição.  Eles podem se acumular desde muito antes que surjam sintomas do Mal.  Assim, por exemplo, autópsias em homens falecidos com mais de 100 anos e sem sinais aparentes de demência mostraram um tão grande nível de emaranhados neurofibrilares que, à primeira vista, eles deveriam estar severamente dementes.  Não obstante, estudando-se suas histórias de vida, algo curioso e animador foi encontrado: aparentemente, pelos esforços intelectuais que marcaram suas vidas e por terem mantidos padrões de atividade física e de alimentação equilibrada, conservaram as funções corporais e mentais surpreendentemente intactas até o óbito.  

As pesquisas modernas sobre os "velhos dos velhos" despertaram novas idéias sobre a biologia do envelhecimento e a forma antiga de pensar, que previa que os mais idosos teriam, com o passar dos anos, inevitável aumento do sofrimento por doenças e deficiências crônicas, está sendo abandonada.  Os dados recentemente surgidos permitiram que James Fries, da Stanford University, dos EUA, propusesse que conseguir-se-á retardar ou, mesmo, evitar o aparecimento das principais doenças potencialmente fatais (cardiopatias, câncer, acidentes vasculares cerebrais e Mal de Alzheimer) e dos problemas incapacitantes (artrose, perdas cognitivas e limitações sensoriais).  Estudos atuais propõem-se a oferecer maneiras de estender isso a uma fatia cada vez mais ampla da população, seja através de recursos moderníssimos como a manipulação genética seja de simplíssimos, quais mais atividade física e melhor alimentação e/ou suplementação nutricional.  Quiçá esteja chegando o tempo de ver que os mais velhos podem continuar bem jovens!

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