Mais de 17,6 mil alunos da rede pública do RN farão Enem e apontam dificuldades com aulas suspensas

Publicação: 2020-09-13 00:00:00
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Cláudio Oliveira
Repórter

Este ano, a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2020) ganhou um novo obstáculo com a suspensão das aulas presenciais nas escolas em virtude da pandemia da covid-19, mas para os alunos da rede pública, a dificuldade é ainda maior. No Rio Grande do Norte, 17.657 estudantes de escolas públicas se inscreveram para o exame, que será aplicado nos dias 17 e 24 de janeiro de 2021, mas muitos destes sequer estão contando com aulas remotas.
Créditos: Magnus NascimentoStheffany Vitória, de 17 anos, está tendo aulas remotas, mas diz que aprendizado não é o mesmoStheffany Vitória, de 17 anos, está tendo aulas remotas, mas diz que aprendizado não é o mesmo

Se dividindo entre os estudos em casa e o estágio do curso técnico profissionalizante da modalidade de ensino médio integrado, Stheffany Vitória, de 17 anos, é uma das que tentarão passar no Enem. A escola conseguiu oferecer aulas remotas, mas ela disse que o aproveitamento não é o mesmo das aulas presenciais.

"Os professores continuam passando atividades e trabalhos, mas não consigo aprender tudo quanto aprenderia nas aulas presenciais, pois a carga horária é bem menor e tanto os professores como nós, alunos, não estamos acostumados com o ensino remoto", explicou.

Ela destacou que acredita que a escola ajudaria mais na preparação para o Enem com as aulas presenciais devido o contato próximo e contínuo com os professores. "Basicamente, no ensino virtual, os professores dão uma aula e passam até três atividades sobre aquela aula ou mandam um link do YouTube com outro professor ensinando. Vou para o Enem praticamente com os conhecimentos adquiridos antes da pandemia. Ainda estudei um pouco quando começou a quarentena, então, pude aprender um pouco mais".

Outros obstáculos dificultam a preparação de Stheffany para o ingresso na tão sonhada faculdade de medicina. Ela mora distante do trabalho e gasta três horas no trajeto de ida e volta utilizando o transporte público coletivo. Se tivesse indo para a escola, parte desse tempo seria aproveitado já que o trabalho fica próxima de onde estuda.
Créditos: Alex RégisVictor Matheus, de 15 anos, tenta reforço em cursinho pela webVictor Matheus, de 15 anos, tenta reforço em cursinho pela web

A saga dela é semelhante a de Leonan Tenório, de 18 anos, que pretende ingressar no curso de psicologia, se passar no Enem. Logo após a suspensão das aulas, ele disse que conseguiu executar uma rotina de estudos. "Contudo, depois de alguns meses seguindo esse plano de estudos, eu comecei a deixar de lado e focar em fazer as provas das edições anteriores. É assim que estou me preparando", declarou. Leonan ressaltou que há alunos em situação ainda pior, sem acesso à smartphone, internet e computador. "Com a situação desigual, quem tem mais recursos vai se dar melhor, vai se sair bem. Quem tem menos oportunidades, vai, infelizmente, ter suas chances de ingresso ao ensino superior ainda mais limitadas", pontuou.

E se a escola não ofereceu aulas remotas, a desvantagem aumentou. Weslley Silva de Lima, de 19 anos, teve que procurar outros meios para estudar. "Vou prestar o Enem. Quero ingressar em geologia, mas não me sinto preparado. Tenho tentando estudar por conta própria. Quanto às dúvidas... costumo perguntar aos meus amigos", explicou. Ele também recorreu aos cursinhos online durante a quarentena.

Nesta semana, o Governo do Estado anunciou que todos os alunos do 3° ano do Ensino Médio e do 9° ano do Ensino Fundamental serão avaliados. Os outros só passarão por progressão em 2021, quando as aulas presenciais serão retomadas.

Os concluintes do 9° ano que almejam ingressar nos Institutos Federais (IFRN) também precisarão passar por um processo seletivo e enfrentam as mesmas dificuldades dos concluintes do 3° ano. "Na aula online não dá pra assimilar todo o conteúdo, mas dá pra aprender se houver esforço. Na minha escola não temos mais aulas remotas por causa do desinteresse de muitos alunos", explicou o estudante Victor Matheus, de 15 anos, que também está fazendo um cursinho preparatório pela internet para fazer a prova de ingresso no IFRN.

Essa foi a mesma saída que Jadna Camile, de 14 anos, adotou. O cursinho online tem ajudado a reforçar os assuntos que os professores de sua escola transmitem pelas aulas remotas. "Está sendo um pouco difícil porque não é a mesma coisa que uma aula presencial. Às vezes fico com dúvidas e procuro respostas no youtube ou com algum professor", frisou a estudante.

Ela relatou que alguns professores da escola enviam atividades toda semana, mas nem todos os alunos conseguem acompanhar. "A escola está tentando montar uma sala virtual pelo Google Classroom, porém não é todo mundo que tem celular", enfatizou a estudante.

SEEC garante que reforçará ensino remoto

O secretário estadual educação, Getúlio Marques, disse que reconhece a dificuldade que esses alunos estão tendo na preparação para exames como o Enem e garantiu que a Secretaria de Educação (SEEC) vai reforçar medidas para ajudá-los, já que estes serão avaliados ainda neste ano. "Vamos colocar virtualmente professores para tirar dúvidas e fazer atendimentos presenciais em casos específicos. Além disso vamos produzir cerca de 260 aulas para serem disponibilizadas nas plataformas que já são utilizadas, como internet e televisão".

Marques ressaltou que a SEEC já conta com mais 800 aulas produzidas por parceiros no seu acervo e que estarão mais acessíveis porque serão transmitidas pela TV aberta, cujo edital para contratação deve ser publicado nos próximos dias. O secretário relembrou que muitas escolas já produziram aulas e as disponibilizaram por plataformas como o youtube. A SEEC também oferece links no sigeduc (Sistema de Gestão da Educação) com as aulas produzidas por parceiros. "Com estas opções, tanto o aluno quanto o professor podem escolher qual delas utilizar porque o mesmo assunto pode estar sendo tratado em aulas diferentes. Temos 89 mil turmas cadastradas nas nossas plataformas digitais, mas sabemos que ainda não atende à totalidade do nosso público. Precisaríamos de 140 mil turmas para incluir todos os alunos", declarou Getúlio Marques.

Outra iniciativa que apontou foi uma mudança nos aulões para o Enem, que desde o ano passado foram descentralizados. "Gastávamos cerca de R$ 1,2 milhão nesses aulões, então direcionamos estes recursos para que cada direoria regional trabalhasse de forma direta com os alunos e parceiros da sua região", explicou.

Sinte critica realização do ENEM

O Sindicato dos Professores do Estado (Sinte/RN) tem se posicionado contra as aulas remotas e condenado a realização das provas do Enem e do IFRN. A diretora, Fátima Cardoso disse que esse posicionamento se deve à ausência de formação dos alunos que vão pleitear vagas nas universidades e institutos federais. Se para a governadora Fátima Bezerra e o secretário de educação Getúlio Marques o ano escolar de 2020 não foi um ano perdido, para a entidade que representa os professores o entendimento é outro.

"Esse ano não existiu, do ponto de vista do processo estrutural do ensino e aprendizagem. A realização destes processos seletivos só privilegia os alunos da rede particular que tiveram 100% de acesso e alto investimento das escolas nas aulas remotas. Temos os professores que estão fazendo grande esforço na produção de aulas, para manter contato com os alunos, mas ainda é uma situação vulnerável e insuficiente para competirem com os alunos da rede privada", frisou a sindicalista.

Ela argumenta que, por maior que seja o esforço do profissional e do aluno, o ingresso dos mais pobres nas universidades está comprometido. "É um absurdo esse exame existir. É uma seleção para desiguais. É um crime com o aprofundamento dessa desigualdade. Um equívoco do Ministério da Educação obrigar estados e municípios a realizarem exames cognitivos com esses estudantes. Como avaliar? O que avaliar? Esse ano é uma farsa e a escola pública vai ser obrigada a cometer esse equívoco", contestou.