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Natal
Major da Polícia Militar do RN irá a missão de paz na África
Publicado: 00:00:00 - 01/05/2022 Atualizado: 11:35:25 - 30/04/2022
Felipe Salustino
Repórter

Aos 46 anos e com vasta experiência na Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN), o major Walter Lucio Monteiro dos Santos se prepara para embarcar, em breve, para o Sudão do Sul, país localizado na porção centro-norte da África. O potiguar foi designado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para uma missão de paz após um intenso processo de seleção que aconteceu no ano passado.  Ainda não há uma data específica para o início dos trabalhos – o primeiro do tipo em 25 anos de carreira do militar – , mas há uma expectativa de que o major viaje para o país africano no próximo mês de junho.
Adriano Abreu
Walter Lucio Monteiro, major da PM do RN, sonhava com participação em missão de paz desde o início da carreira na Polícia

Walter Lucio Monteiro, major da PM do RN, sonhava com participação em missão de paz desde o início da carreira na Polícia


No Sudão do Sul, major Walter deverá se juntar a militares de outras partes do mundo para atuar na segurança de campos de refugiados e na reconstrução social do país, que convive com sérios problemas causados por conflitos e disputas derivadas de diferenças políticas e questões econômicas. “Meu cargo é o de Oficial de Polícia Individual [IPO, na sigla em inglês]”, conta o major.

“Iremos trabalhar, primeiramente, na segurança desses campos, por meio de patrulhamentos, mantendo a paz e a ordem entre as diferentes etnias que convivem ali. É uma missão desarmada e voluntária. Os campos de refugiados reúnem milhares de pessoas de várias partes do Sudão do Sul, especialmente, dos rincões. São pessoas que sofrem perseguições e recorrem à ajuda da ONU”, afirma o militar.

O trabalho deve se concentrar na capital, Juba, onde está a maioria dos refugiados. Mas grandes cidades do interior também registram pessoas nessas condições. De acordo com major Walter, as ações serão focadas, ainda, na resolução de conflitos nos campos.  “As diferenças de religião e cultura nesses locais, muitas vezes, são resolvidas no embate. E aí, o policial chega com a expertise para apaziguar esses lugares”, relata.

Já próximo de embarcar, o major relembra que a preparação não foi fácil. A primeira parte, inclusive, começou há quase dez anos, em 2013, com aulas de inglês. “Quando fui aprimorando o idioma, fiquei mais confiante e fui atrás dos procedimentos burocráticos para que a coisa pudesse acontecer”, conta.

A participação de policiais militares brasileiros na ONU se dá por intermédio da Inspetoria Geral das Polícias Militares (IGPM), órgão do Exército Brasileiro que faz o controle de convocação e treinamento de policiais militares (a PM integra as forças auxiliares e de reservas do Exército, segundo a Constituição Federal) para as vagas de voluntariados nas missões de paz.

“O Exército envia para as polícias militares do Brasil a oferta de vagas e eu me voluntariei no ano passado”, detalha o major. Antes da seletiva, os candidatos fizeram um Estágio Preparatório de Missões de Paz (EPMP), no Rio de Janeiro. “Passei dois meses, de outubro a dezembro do ano passado, morando no quartel da Vila Militar do Rio, com todas as dificuldades inerentes à vida militar”, afirma.

Nesse período, o major e os demais militares que passaram pelo estágio, tiveram aula de simulação de atentados, emboscada, conversação e resolução de conflitos com populações locais. Durante todo o curso, em um cenário descrito por ele como “muito realista”, o único idioma permitido era o inglês, língua oficial do Sudão do Sul.

Após os dois meses de estágio, o militar estava apto a concorrer a uma vaga para ir à missão, mas ainda precisava concorrer à segunda fase da seletiva, com a realização de um conjunto de provas. Major Walter conta que, ao final do processo, 34 aprovados receberam o selo de aptidão para missões de paz. Destes, cerca de 14 irão para o Sudão do Sul. Os demais devem aguardar até dois anos por um chamamento.

Se depois desse período, não forem convocados, precisarão recomeçar o processo, caso queiram concorrer a uma nova vaga. Além do major Walter, outros dois potiguares foram aprovados para missões de paz da ONU: o major William e o capitão Montenegro, que já participaram de outros eventos do tipo. De acordo com parâmetros do Exército, a prioridade para convocações é dada àqueles que ainda não passaram pela experiência, como é o caso do major Walter.

 Realizado com a conquista, ele afirma que tem lidado bem com a ansiedade, às vésperas da viagem. “A ansiedade sempre bate, mas é mais controlada, afinal, já são 46 anos de idade e 25 de serviço”, garante. O mais difícil mesmo, segundo ele, será lidar com a saudade da família.

 “Meu filho tem 10 anos e minha filhinha, um ano e meio. Eles são o que eu tenho de mais precioso. Graças a Deus, sou casado com uma pessoa muito parceira. Minha esposa é fantástica e sempre compreende minha rotina. Estar longe de casa é difícil. Tem horas em que a solidão chega e a gente chora mesmo, para extravasar. E dessa vez, não vai ser diferente”, declara.

Major sonhava com missão de paz

O major Walter Lucio Monteiro dos Santos ingressou na PMRN em 1997, após ser aprovado em concurso público. A trajetória, nesses 25 anos, é marcada por passagens pela Corregedoria da Polícia Militar, na área de assessoramento jurídico,  disciplinar e também na área operacional. O major teve passagens pelo comando do Policiamento Ambiental e pelo Comando de Trânsito, além de atuações com Rádio Patrulha.

“Tive uma participação, que eu considero muito importante na minha carreira, na Força Nacional de Segurança Pública. Foi uma experiência riquíssima.”, registra. Nessa época, major Walter atuou em várias regiões do Brasil. Foi chefe de policiamento  durante a construção da Usina de Belo Monte, no Pará, trabalhou com populações indígenas (Guaranis e Kayapós), em Dourados (MS), além de quilombolas e garimpeiros, no Amazonas e no Pará.

Ainda pela Força Nacional, o militar atuou em dois dos mais importantes eventos do esporte mundial: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. “Minha atuação na Copa do Mundo durou quase dois meses. Trabalhei no policiamento de choque no Rio Grande do Sul. Foi indescritível. Assisti a grandes momentos do futebol mundial”, destaca.

 “Depois disso, tive a satisfação de ser convidado para ser o coordenador de segurança das instalações da Vila dos Atletas, no Rio de Janeiro, para as Olimpíadas. Tive a honra de ver, a três metros de distância, Messi, Usain Bolt, [Novak] Djocovic, Daniele Hypólito, Neymar... Foi um trabalho muito bem feito, porque houve a participação de muitas pessoas e todos estavam empenhados em fazer o melhor evento e desmistificar o nosso complexo de vira-lata. Fizemos um acontecimento grandioso e seguro. Considero esse o fechamento de ouro da minha participação na Força Nacional”, acrescenta, orgulhoso.

As conquistas são, na verdade, a realização de um sonho que o militar tinha desde criança. “Meu pai também é policial militar e, praticamente, cresci dentro da instituição. Ingressar na PM sempre foi meu sonho desde menino. Graças a Deus, consegui. Mas não foi fácil”. A concretização do primeiro sonho veio acompanhada de um segundo desejo, que ele vai realizar agora.

A vontade de servir em uma missão de paz foi alimentada, nesses 25 anos de carreira, por inspirações. “Quando eu entrei na PM, durante meu treinamento no Curso de Formação de Oficiais (CFO), tive um professor, o capitão Reinaldo. Ele era inteligente, falava inglês muito bem e já havia participado de missões da ONU junto com outros oficiais da Polícia Militar”, recorda.

“Nosso atual secretário de Segurança, coronel Araújo, também já participou de missão da ONU, assim como o coronel Silva Júnior, que foi comandante do policiamento de trânsito. Essas pessoas, de certa forma, me inspiraram a realizar esse meu sonho lá do início da carreira”, revela o militar. As inspirações serviram como motivação e o major apostou, inicialmente, no estudo de um idioma, o inglês, para dar o pontapé em busca da empreitada que o levaria à missão de paz.

O militar quer usar a experiência para uma nova transformação e disse estar ciente das dificuldades ue irá encontrar no país africano. “Sei que aqui nós também passamos por dificuldades – eu mesmo nasci em periferia e não fui criado em berço de ouro – mas eu sei que lá é muito pior. Ir para uma missão como essa é se deparar com pessoas que não têm o que comer. Colegas que já estiveram no Sudão do Sul me relataram que é comum ver garotos que estão começando a andar, usando camisas surradas que batem no joelho”, descreve.

“Isso acontece porque aquelas crianças só têm basicamente uma camiseta e vão usá-las até os cinco anos aproximadamente, que é quando a peça de roupa vai vesti-los no tamanho adequado. Então, eu sinto que é importante ir a uma missão como essa porque, certamente, não voltarei a mesma pessoa”, encerra.

País é marcado por conflitos étnicos

O Sudão do Sul é considerado o país mais jovem do mundo, reconhecido há apenas 10 anos, após se separar do Sudão. Foram anos de guerras sangrentas. A última delas ocorreu em 2013 e causou a morte de mais de 380 mil pessoas.

Em 2018, um acordo de paz foi assinado no país, mas os conflitos internos entre etnias ainda preocupam a ONU. O Sudão do Sul é marcado atualmente por guerrilhas e enorme fragilidade econômica e social. As instituições são frágeis, com vasto histórico de corrupção. O país enfrenta diversos obstáculos à paz e várias das medidas previstas no acordo de paz não foram implementadas.

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