Mandetta aproxima discurso de Bolsonaro

Publicação: 2020-03-26 00:00:00
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Tânia Monteiro, Adriana Fernandes, Felipe Frazão e Patrik Camporez

BRASÍLIA (AE) - Depois de oito dias de panelaços e de enfrentar duras críticas nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro tenta impor uma narrativa para sair das cordas na gestão da crise provocada pelo avanço do coronavírus no País. Menos de 24 horas após ter feito um pronunciamento à Nação, em cadeia nacional de TV e rádio, criticando o fechamento de escolas e do comércio para combater a doença, Bolsonaro conseguiu enquadrar o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O presidente alinhou o discurso com Mandetta, com a equipe econômica e com militares. A única voz dissonante que veio a público foi a do vice-presidente Hamilton Mourão.

Créditos: DivulgaçãoLuiz Henrique Mandetta assegura que vai permanecer no cargo de ministro da SaúdeLuiz Henrique Mandetta assegura que vai permanecer no cargo de ministro da Saúde


Convencido de que haverá desemprego em massa se o isolamento social for mantido e com receio de que o fim de seu governo seja antecipado, Bolsonaro fez uma aposta de alto risco para recuperar capital político e começou a investir no discurso pós-crise. Em conversa com o ministro da Saúde, ele afirmou que não poderia criar mais pânico na sociedade e dar munição para seus adversários, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Sob pressão, Mandetta admitiu erros, suavizou o tom e negou a intenção de deixar a equipe.
"Temos que melhorar esse negócio de quarentena, não ficou bom. Foi precipitado, foi desarrumado", disse o ministro ontem, durante a divulgação do número de 57 mortos e 2.433 casos confirmados da covid-19 no País.

A estratégia do Planalto vai na contramão do esforço mundial para o combate à propagação da doença e não conseguiu conter os panelaços, que se repetiram na noite de ontem em capitais do País. Na avaliação de governadores ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, Bolsonaro parece apenas querer tirar dividendos políticos da pandemia e se livrar da responsabilidade de uma possível onda de caos social provocada pela quarentena.

Antes aliado do presidente, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), reagiu com jeito de rompimento político. Médico, Caiado afirmou que não pode admitir que um presidente "lave as mãos" e passe adiante a responsabilidade por um colapso econômico. "Por que responsabilizar os outros, dar uma de Pôncio Pilatos, lavar as mãos?", perguntou. "Um estadista tem que ter coragem de assumir as dificuldades. Se existem falhas na economia, assuma sua parcela." Caiado se mantinha em silêncio desde o dia 15, quando foi vaiado por militantes bolsonaristas ao alertar sobre o risco de contágio nas manifestações de rua pró-governo.

Militares
A cúpula das Forças Armadas, por sua vez, mantém o discurso sincronizado de que Bolsonaro erra na forma de falar, mas acerta ao prever uma crise econômica acentuada pelo "remédio" antes receitado de forma exagerada pelo "Dr. Mandetta".

O vice Hamilton Mourão, porém, continua defendendo o isolamento social. "A posição do nosso governo, por enquanto, é uma só: isolamento e distanciamento social. Isso está sendo discutido e ontem (anteontem) o presidente buscou colocar. Pode ser que ele tenha se expressado de uma forma, digamos assim, que não foi a melhor", afirmou.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, argumenta que o bloqueio do comércio desconsidera o impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, que afeta principalmente os segmentos mais vulneráveis da população. Guedes tem sido um contraponto às medidas de fechamento do comércio e isolamento domiciliar, adotadas por governadores.

"O presidente teve de tomar uma decisão política para flexibilizar a quarentena, porque o Brasil não é Estados Unidos. Só o tempo vai dizer se ele está certo ou errado", disse o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que é evangélico e amigo de Bolsonaro. "Estamos naquela fase do ‘se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.’’’ Há, na prática, uma pressão da base eleitoral do presidente para a reabertura dos templos e igrejas. 

Mourão orienta manter distanciamento social
O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou ontem que a orientação do governo para combater a pandemia da covid-19 "é uma só, é o isolamento e o distanciamento social". A declaração vai na contramão do que defendeu o presidente Jair Bolsonaro na véspera, em pronunciamento em rede nacional.

Segundo Mourão, Bolsonaro pode não ter se expressado da melhor forma ao propor que apenas idosos e doentes fiquem em casa. "Pode ser que ele tenha se expressado de uma forma, digamos assim, que não foi a melhor. Mas o que ele buscou colocar é a preocupação que todos nós temos com a segunda onda."

"Segunda onda", de acordo com o vice-presidente, se refere aos impactos na economia, como desemprego. Mourão concedeu entrevista a jornalistas, via videoconferência, após reunião do Conselho Nacional da Amazônia Legal.