Manelito Dantas deixa legado e ensinamentos

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
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Ícaro Carvalho
Repórter

Quando Euclides da Cunha escreveu a frase “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, no livro Os Sertões, em 1902, o escritor já previa que a vida do nordestino seria marcada pelas dificuldades relativas a seca e a escassez de chuva e precipitações ao longo dos anos. Mas o Nordeste, região repleta de riquezas e histórias desde o Brasil Colônia, apesar das suas especificidades, não podia ser deixada de lado. E não foi. No meio de um dos lugares mais secos do Brasil, na Paraíba, mais especificamente em Taperoá, a 249 quilômetros de João Pessoa, a figura de Manoel Dantas Vilar Filho, o Seu Manelito de Taperoá, falecido na semana passada, aos 82 anos, deixou legados e ensinamentos para o semiárido brasileiro.
Créditos: Herbert Albuquerque/CedidaManoel Dantas Vilar Filho, o Seu Manelito de Taperoá, faleceu na semana passada, aos 82 anosManoel Dantas Vilar Filho, o Seu Manelito de Taperoá, faleceu na semana passada, aos 82 anos

“Nordestino até hoje escapou no Brasil fazendo da fraqueza força”, disse certa vez Seu Manelito, engenheiro civil e professor aposentado da área de Hidrologia da Universidade Federal da Paraíba. Ele era primo do escritor Ariano Suassuna. Após a morte do pai, Manuel Dantas, em 1969, Manelito deixou a vida profissional e urbana para se dedicar a pecuária, em especial a Fazenda Carnaúba, pertencente à família desde o século 18. Foi a partir dessa mudança na sua vida que Manelito viria a se tornar uma referência para a pecuária no semiárido brasileiro. O agropecuarista faleceu de choque séptico nesta semana, no dia 28 de julho, coincidentemente, dia do agricultor e data da criação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Ele deixa cinco filhos e dez netos.

Convivendo num dos locais mais secos do Nordeste brasileiro, utilizou do conhecimento científico obtido na academia aos ensinamentos empíricos do pai para desenvolver métodos de cultivo e plantas nativas para incorporar na alimentação de animais, como por exemplo, o uso regional do bagaço de cana hidrolisado por via química, para suprimento de forragem para os animais em tempo prolongado de seca. Reportagens na década de 1980 já destacavam o pioneirismo e a inovação na utilização dessas técnicas para manutenção do gado, em especial da raça Guzerá e Sindi, que ao longo dos anos foram geneticamente estudados e modificados pela equipe da Fazenda Carnaúba para atingir as melhores criações e consequentemente, os ricos produtos resultantes desses animais.

Para o jornalista e amigo de Manelito, o jornalista e professor aposentado Woden Madruga, o trabalho do engenheiro vai além dos avanços na genética desenvolvidos em animais de raça, que chegaram a ser transmitidos para vários estados do País, incluindo o Rio Grande do Norte. Ele cita os conhecimentos para pequenos proprietários de caprinos e ovinos, avaliando que a experiência na Fazenda Carnaúba “que é um exemplo para todo o País”.

“É um trabalho que talvez não exista nada igual no País. Ele, com a parceria com Ariano Suassuna, contribuiu para melhoria genética das raças nativas de caprinos e ovinos no Nordeste semiárido, o Nordeste seco. Esse trabalho de Manelito é uma referência nacional, claro que o RN se beneficiou também desse trabalho da Carnaúba de Manelito” declara Woden Madruga. Ele cita ainda outra contribuição de Manelito no “Grito da Seca”, evento na década de 90 que aconteceu em Lages, no pico do Cabugi, sob a condução do empresário e pecuarista Nélio Dias. “Outra contribuição dele foi no Grito da Seca, que era justamente para mostrar os problemas que o semiárido estava sofrendo naquela época, as dificuldades de novos projetos, e contou com a presença do ministro da Agricultura, a bancada federal do RN. Para se ter uma ideia, Seu Manelito foi um dos palestrantes, ele e o primo Ariano. Somente nisso aí, já dá para ver a importância do trabalho dele no Rio Grande do Norte”, relembra.

Seu Manuelito foi o primeiro presidente da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), entre os anos de 1968 e 1971. Um dos amigos e contemporâneos na gestão das águas dos seus respectivos Estados nessa época era o empresário e engenheiro Flávio Azevedo, com quem desenvolveu trabalhos ao longo dos anos na pecuária e no desenvolvimento de raças bovinas, caprinas e ovinas. Para Azevedo, o legado de Seu Manelito foi provar que era possível viver, exclusivamente, da pecuária e da agricultura no Nordeste brasileiro.

“Enquanto muitos pecuaristas vão no caminho de desenvolver o gado robusto, alto, Manelito foi no sentido inverso. Como a comida era pouca, ele não podia ter animais de grande porte, pelo contrário, teriam que ser animais de menor porte, contanto que não prejudicasse o produto dele, que era o leite e a carne. Ele desenvolveu o gado, se ele tirasse o mesmo leite, como se fosse o gado de maior porte, e a carne, o ganho era menor, mas a conversão alimentar era melhor do que o animal maior. Isso significa dizer que o animal menor come menos e produz uma determinada quantia. O animal maior do mesmo jeito, sendo que, comparativamente a quantidade de comida que o animal grande necessita e a carne que ele produz, essa relação é menor do que o animal de menor porte que Manelito criou para isso. Conversão alimentar: esse é o grande legado”, comenta Flávio Azevedo.

Manelito tinha uma forte ligação com Natal e com o Rio Grande do Norte. Na Festa do Boi, maior evento agropecuário e de agronegócio do Estado e uma das maiores do Nordeste, Flávio Azevedo conta que Manelito “não perdia uma Festa do Boi, talvez o expositor mais constante que a festa já teve”. Além disso, tinha amigos e promoveu diversas negociações ao longo dos anos em terras potiguares.

“No passado eu tive uma empresa de transferência de embriões de gado. Quando montei essa empresa, eu conversei com Manelito e transferi embriões de alguns animais de Manelito de alta produtividade. Meu pai também era criador, então eu fiz isso em parceria com ele. Isso foi uma revolução aqui no Nordeste”, revela Flávio.

A Fazenda Carnaúba, atualmente, uma das maiores fábricas artesanais de queijos do Brasil, era administrada por Manelito e seus cinco filhos. A propriedade, localizada no município de Taperoá, é referência nacional em genética de caprinos, ovinos e bovinos, tem 960 hectares e possui altos índices de produtividade e competência técnica na criação das raças nativas. Manelito Dantas, inclusive, é conhecido por ter um dos maiores e melhores bancos de dados sobre o Semiárido brasileiro e o regime de chuvas na região, tabulados desde 1912.

Um dos grandes amigos de Manelito Dantas, considerado, inclusive, “irmão de outra mãe”, era o produtor Roosevelt Garcia. Ele comenta que a grande herança de Manelito a ser transmitida para as próximas gerações é o fato de que o semiárido é um ambiente específico para a pecuária.

“A definição de Manoel era de que o semiárido era pecuário, que as terras secas do Nordeste, se você trabalhar com os elementos biológicos, a raça certa, capim buffel e palma forrageira, é a base da alimentação da pecuária que resiste às secas. O legado dele foi esse: foi dizer que você tinha que trabalhar com as plantas e os animais compatíveis com a região”, analisou. “Manoel redescobriu o semiárido para pecuária. Isso é muito importante”, conclui.

Produção de queijo

Além das técnicas e metodologias genéticas nas raças nativas de sua fazenda, Manelito também desbravou outra área durante sua jornada: a produção de queijos com leites de cabras, à época, vista como uma das saídas para que a Fazenda Carnaúba pudesse enfrentar a dura seca do semiárido na década de 1970. Ao lado do primo Ariano Suassuna, resolveu impulsionar a produção de queijos diferenciados.  Com o dinheiro conquistado no Prêmio Nacional de Ficção, conferido pelo Ministério da Educação e Cultura, pelo livro romance “A pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, o dramaturgo e o primo engenheiro compraram 200 cabras e iniciaram a produção de queijos.

“Na época todos diziam que os dois eram loucos, pois parecia impossível produzir queijo com leite de cabra”, chegou a afirmar, em fevereiro deste ano, Joaquim Dantas Vilar, filho de Manelito, e que hoje está no comando de toda a produção e comercialização de queijos da fazenda. Os produtos feitos na Fazenda já conquistaram prêmios nacionais e internacionais.

Outro passo dado pela Fazenda Carnaúba foi a de criação e viabilização do “Dia D”, evento que acontece desde 2012 na propriedade para uma mostra de animais, produtos, tecnologias, palestras e sugestões para a vida no semiárido nordestino. Em 2020, o evento aconteceu nos dias 24, 25 e 26 de julho, de forma virtual, em virtude da pandemia de coronavírus. No último dia 23, Manelito Dantas chegou a gravar um vídeo para o encontro anual, que acabou sendo um dos últimos registros de Seu Manelito em vida.

“Ao final dos trabalhos do Dia D, me interessa agradecer fraternalmente a participação dos colegas produtores rurais, consolidando cada vez mais esse acontecimento que já tomou dimensões regionais no nosso país pelo engrandecimento da pecuária do país, que é a principal razão de viver no Nordeste seco”, encerrou Manelito.

“Uma verdadeira escola”

Os trabalhos de Seu Manelito, desenvolvidos desde a década de 1970 em sucessão ao trabalho do pai, são alvos de estudos científicos de estudantes, pesquisadores e especialistas em todo o Brasil. São pelo menos 14 publicações, entre artigos científicos, teses e dissertações e notas técnicas nas universidades e instituições de ensino que buscam entender os métodos desenvolvidos pelo pecuarista.

“Seu Manelito foi uma verdadeira escola. Quem o conheceu, aprendeu muito, em todos os sentidos, em função da genética que ele criou, o gado zebuíno na fazenda dele, das cabras nativas, tudo isso. Quem conviveu com ele teve uma grande oportunidade de ter um excelente professor do potencial que o semiárido tem a oferecer ao nordestino”, avalia o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), José Vieira.

O empresário Bira Rocha, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern) e ex-secretário de Estado, também destacou o legado e os trabalhos desenvolvidos durante as últimas décadas. “Era um ícone nessa história da convivência nordestina. Se destacou mostrando que era possível viver e conviver, ter resultados econômicos positivos com esse clima que temos no semiárido. Explorando de forma racional, objetiva e com tecnologia, o que a região e seus animais podem oferecer”, analisou.

O amigo, leiloeiro e diretor institucional da Associação Norte Riograndense de Criadores (Anorc), Eduardo Melo, classificou o trabalho e a Fazenda Carnaúba, de Seu Manelito, como um “santuário da agropecuária”. “Ele foi um criador de referência nacional, onde criava duas raças que hoje estão no topo nacional do criatório brasileiro, e ele, lá dentro do semiárido brabo, ficou com a família, dando exemplo para o Brasil”, comentou.

O secretário adjunto de Agricultura e da Pesca do RN, Alexandre Wanderley, também lamentou a morte do amigo e disse que Manelito era um dos maiores defensores do semiárido nordestino. “Foi e será aquele que mostrou o Nordeste aos Nordestinos. Onde o Semiárido é nosso mundo, lugar bom de viver e produzir. Manelito deixa uma herança impregnada, não só naqueles que estiveram perto dele, mas por todos estes Sertões Nordestinos, onde podemos encontrar aqui acolá suas ideias e ideais”, declarou.