Manifestações de intolerância e intransigência

Publicação: 2020-09-15 00:00:00
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João Medeiros Filho
Padre 

O problema é bem antigo. Cristo presenciou, junto a seus contemporâneos, sentimentos e gestos dessa natureza. Os homens consideravam e tratavam as mulheres como seres inferiores. Líderes religiosos da época oprimiam os fiéis (cf. Jo 7, 49). Judeus e samaritanos nutriam velhas rivalidades (cf. Jo 4, 9). Estas se verificam claramente nas palavras de Tiago e João, diante da reação dos habitantes da Samaria, ao receber o Mestre: “Senhor, quereis que mandemos descer fogo do céu para que os destrua?” (Lc 9, 54). Jesus, porém, os repreendeu. Ultimamente, chega-se à triste constatação de que manifestações de intolerância e intransigência aumentam consideravelmente. Muitas são, lamentavelmente, alimentadas por lideranças políticas e midiáticas. É verdade que, no Brasil, ao longo dos anos, não se viveu apenas de coerências, similaridades e convergências. A vida é complexa. Há que se de lidar consigo mesmo e com os outros, em meio a diferenças e contradições. Conviver é sempre um desafio para o homem. Não é fácil escolher o que representa um bem para si e os semelhantes. 

Disso emergem postulados éticos, deles resultando a responsabilidade de cada um por seus atos (e consequências) diante da sociedade. Por isso, a tolerância com quem diverge, exige uma postura ética. A convivência harmônica não obriga a idênticas opiniões, ideologias, crenças e estilos de vida. Divergência e discordância são elementos da diversidade humana, compondo o encantador mosaico da vida. O apóstolo Paulo já abordava nossa dessemelhança na metáfora do corpo, em sua Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 12, 1ss).

A tolerância não consiste simplesmente em “aguentar” ou “aturar” alguém pelo qual não se tem a menor simpatia. Trata-se do reconhecimento explícito da liberdade de cada um viver segundo a sua consciência, sem deixar de respeitar outrem. Hoje, fala-se tanto em democracia. Mas, é uma contradição servir-se do termo e agir de forma autoritária e monocrática. A regra de ouro do cristianismo, contida no Sermão da Montanha, reflete o direito e o dever de respeito à diferença: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles.” (Mt 7, 12). Para tanto, são indispensáveis normas de convívio. É preciso agir coletivamente para assegurar as prerrogativas de ser e viver. A intolerância, aliada à corrupção, faz muitos usarem, de forma reprovável, recursos destinados a garantir a vida. Há os que menosprezam e discriminam os outros por meros preconceitos. Intolerantes abusam da liberdade de expressão para ofender e violentar com palavras e imagens aqueles dos quais discordam.

A intolerância é fundamentalmente a negação do direito à diversidade. É visão unilateral da vida, concepção exclusivista e impositiva da existência. Apresenta uma faceta da egolatria. Decreta-se como certo e verdadeiro o que lhe agrada ou convém. Daí, a tentação de uma única concepção do mundo. Quem é intransigente deseja impor a todos suas ideias e vontades. Há quem chegue a empregar força física e violência. Não faltam os arautos da liberdade e democracia, concebidas a seu modo, de acordo com seus interesses e posteriormente concretizadas em atos de menosprezo e ódio.

Tais condutas manifestam-se em ações coletivas materializadas em segregações e exclusões. Por vezes, também se transformam em atentados, invasões etc. Podem igualmente ser assumidas por governantes e se converter em políticas ou normas, que interessam a alguns (certos grupos e partidos) e não à coletividade. Disto advém a discussão entre oportunismo, legalidade, licitude e legitimidade. Nem tudo aquilo que é aprovado ou promulgado como lei pode ser considerado justo e legitimamente humano. A intolerância não tem idade, gênero, cor, nível de instrução, classe social, nacionalidade ou religião. Não é sinônimo de “direita” ou de “esquerda”. É própria de quem não aceita lidar com as dissimilitudes humanas. Reconhecer-se intolerante (deixando de se ver como o centro do universo) é o primeiro passo para a superação de posturas ditatoriais. Urge também que a política seja respeitosa, inclusiva, fazendo com que todos tenham o mesmo lugar e oportunidade. Convém lembrar o ensinamento de Paulo aos filipenses: “E se tiverdes outro modo de pensar, caberá somente a Deus 


iluminar e julgar quem age diferentemente.” (Fl 3, 15).







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