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Manoel Fernandes de Negreiros lança “A história da Ponte de Igapó”
Publicado: 00:01:00 - 11/05/2022 Atualizado: 20:42:36 - 10/05/2022
Tádzio França
Repórter

Um feito impressionante da engenharia do século passado, a Ponte de Igapó foi construída em quatro anos, entre 1912 e 1916. Bem menos tempo do que levou o engenheiro civil Manoel Fernandes de Negreiros Neto para escrever a biografia definitiva da obra: foram 25 anos de pesquisa para “A história da Ponte de Igapó” (Editora Appris) chegar ao mundo.  O autor reuniu detalhes técnicos de engenharia civil centenária, fotos, plantas, cálculos, mapas, datas, fatos e episódios. O livro já pode ser adquirido no site do escritor, mas haverá um lançamento oficial no dia 14 de julho, no Iate Clube. 

Divulgação
Manoel Negreiros considera que fez um autêntico trabalho arqueológico de engenharia para escrever o livro

Manoel Negreiros considera que fez um autêntico trabalho arqueológico de engenharia para escrever o livro


Manoel Negreiros considera que fez um autêntico trabalho arqueológico de engenharia. Incluiu viagens para o interior do estado e para fora do país;  pesquisas entre documentos escondidos em velhos arquivos, documentos e jornais, passando por sebos europeus, e garimpagens on-line. “Foi algo que beirou a obsessão. Mas uma obsessão boa. Sou um engenheiro civil com espírito de historiador, a acabei me tornando um investigador no processo, foram várias descobertas”, conta à TRIBUNA DO NORTE. 

A pedra fundamental na pesquisa de Manoel Negreiros foi colocada quando ele foi contratado, em 1996, para construir galpões para o Grupo Guararapes em Extremoz. “Passava por ali diariamente, e a cada dia admirava um detalhe diferente, dos arcos, dos rebites, dos pilares. É uma obra maravilhosa para qualquer engenheiro, e eu decidi que queria saber mais”, conta. E ao se deparar com as informações escassas e esparsas, começou a jornada de construção biográfica. 
  
Ponte dos brasileiros 
A ponte metálica sobre o rio Potengi, ao contrário do que se falou por aí, não é “dos ingleses”: é uma produção brasileira com uso de tecnologia estrangeira. A iniciativa de sua construção partiu da Companhia de Viação e Construções S.A. (CVC), sob o comando do engenheiro João Proença. Para a façanha, foi subcontratada a Cleveland Bridge Engineering Company, uma renomada empresa inglesa (existente até hoje), sediada em Darlington, Condado de Durham. A projeção da ponte ficou a cargo do francês Georges-Camille Imbault, que já era empregado da CBEC. 

Em uma de suas pesquisas iniciais no Instituto Histórico e Geográfico do RN, Negreiros achou o contrato do francês Imbault. À procura de informações in loco, foi até Darlington para falar com o diretor de marketing da Cleveland Bridge. Queria mais dados técnicos e documentos, mas não obteve muito êxito. A viagem até Chateau-Sir-Loire, cidade natal de Imbault, na França, também não resultou em grandes descobertas. 

O “ouro” real da pesquisa, Negreiros ressalta, estava mesmo no Brasil. Ele descobriu um material riquíssimo no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, onde ficou dez dias só fotografando documentos fundamentais sobre a época. “Achei processos de pagamentos, projetos executivos, e outros materiais essenciais para a pesquisa”, conta. 

Em território potiguar, Negreiros procurou a memória viva local. Foi entrevistar ex-ferroviários, veteranos de 90 e 100 anos. Poucos tinham memórias da época, mas foi através de um deles, Arruda Mariano, de 92 anos, que o pesquisador chegou a uma descoberta curiosa: há entre Lajes e Pedro Avelino uma ponte feita com partes não utilizadas da Ponte de Igapó. “É parte de um sobra, de 47 metros. É como se fosse uma irmã menor da ponte natalense”, ressalta. 

Outra descoberta importante aconteceu entre madrugadas na internet: Negreiros descobriu um catálogo de 1930 da Cleveland Bridge. O livreto estava em um sebo inglês, e o engenheiro mossoroense não descansou até comprar a raridade. O escritor também quis investigar a resistência do concreto centenário da ponte, o que o levou ao saco de cimento da obra, guardado no IHGRN. “Através de análise química, encontramos uma substância chamada katoita, só encontrada em cimentos centenários. Só reforçou a autenticidade da peça”, afirma. 
 
Bases sólidas 
O livro explica e exalta a tecnologia que mantém a ponte firme, apesar de abandonada, até hoje. Ela teve como base o uso de tubulões a ar comprimido, uma tecnologia recém-criada na época pela CBEC, estruturas que foram apoiadas sobre o cascalho encontrado no pós-leito do rio Potengi. Segundo o autor, os tubulões foram responsáveis por  acidentes na obra que ceifaram a vida de alguns (poucos) trabalhadores. 

“No Cemitério de Igapó, ao lado da ponte, tem umas  20 covas não identificadas, datadas de antes de 1920. Mas não todas são vítimas da ponte, claro”, completa. A construção da ponte envolveu cerca de 200 trabalhadores ao longo de quatro anos. Ao todo, a ponte tem 520 metros, distribuídos entre dez vãos.  É uma obra feita em treliças metálicas. Desde 1830 se planejava a construção de uma ponte sobre o rio Potengi. Em 1870, D. Pedro II chegou a emitir sua autorização para a construção, uma antiga reivindicação dos potiguares. Só um contrato efetivado em 1910 começou de fato o processo. 

A ponte “libertou” Natal para a zona norte, diz Negreiros. “A cidade era imprensada entre o rio e o mar. Com a ponte, ela se expandiu e alargou seu comércio até a zona canavieira, passando pelas estações de Igapó, Extremoz, Itaipu, e Baixa Verde, atual João Câmara”, explica. Perto do fim do século XX, a velha ponte começou a ter sua história apagada – e mutilada. 

Em 1969, foi decidido a construção de uma nova ponte de concreto, vizinha à antiga. A rede ferroviária do estado resolveu vender a estrutura da velha ponte como ferro velho, e licitações para tal foram feitas. Quatro vãos da ponte foram embora nesse processo, que felizmente não foi adiante. A ponte foi desativada em 1972. 

Segundo Manoel Negreiros, se houvesse vontade, seria possível recuperar a velha “dama de ferro” natalense. “Poderia ser feita uma análise meticulosa das tubulações, e se estiverem perfeitas, refazê-la com  um vão turvo, em treliças. Seria uma obra de 80 milhões, que é até acessível, perto de outras semelhantes que custaram 120 milhões”, diz. Uma ponte do passado que poderia apontar novamente para o futuro, assim como foi pensada há 110 anos. 

Serviço:
A História da Ponte de Igapó (Ed. 
Appris), de Manoel Fernandes de Negreiros Neto. Lançamento: 14/07, no Iate Clube de Natal, às 17h. 
Vendas online: www.manoelnegreiros.com

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